Escritas

Lista de Poemas

AMIZADE

Eu queria fazer como faz o passarinho
Saber de cada flor colher o carinho
Pra dizer ao amigo: não estás sozinho
Conte comigo nas agruras do caminho

Queria eu ter as palavras de conforto
O peito aberto pra amparar o sofrimento
Ter a esponja que apagasse o teu desgosto
Pra vê-lo sorrir em infantil desprendimento

Não desejo ser o teu amigo mais viçoso
Nem um molde para servir-te de exemplo
Nem uma foto em teu arquivo de saudades

Mas ser do teu sorrir o encher de gozo
Nos encontros do viver a qualquer tempo
E abraçar-te como a um amigo de verdade
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ANJOS SEM ASAS

Desci a ladeira em velocidade para aproveitar a aceleração na serra que se aproximava. Foi quando o motor deu um grande urro com se o carro tivesse desengatado. Era mais ou menos quinze horas, eu, a mulher e três crianças em um carro quebrado na BR 101, entre Alagoinhas e Esplanada, duas cidades baianas. Desliguei o motor, tentei de novo, nada! Só aquele grande uivo que parecia um boi morrendo. Que situação, não existia ainda a rede para celular e eu também não tinha o carro assegurado. A cidade mais próxima ficava a uns vinte km, mas não havia como eu chamar um guincho. Não tinha como eu sair dali e deixar a esposa com as crianças naquele lugar deserto. Tentava pegar uma carona para nos levar ao povoado mais próximo, mas ninguém parava. Depois de mais de duas horas, já escurecendo, resolvemos que iríamos andando na beira da pista até o alto da serra para ver se víamos alguma coisa. Foi aí que parou uma carreta. Um cidadão moreno, rosto sisudo e voz meio rouca. E disse-me: "Você é louco, aqui é uma região de muitos assaltos". Expliquei a situação. Ele deu ré no caminhão pelo acostamento de cascalho e parou junto ao meu carro quebrado. Conferiu comigo o problema e disse: acho que é a bomba d'água. Pegou uma corda grande, amarrou o opala no caminhão e nos rebocou vagarosamente até a um posto de gasolina, a cerca de uns quinze km à frente. A esta altura as crianças estavam famintas e assustadas.

No posto o motorista da carreta me disse: põe a família para jantar enquanto tentamos dar um jeito no seu carro. Pegou suas ferramentas, abriu o motor do opala e retirou a bendita bomba d'água. Depois, desprendeu a carreta da boléia e disse-me: vamos à casa de um amigo meu que é dono de uma Alto Peças e ele nos venderá uma bomba nova. Isso já era mais de vinte horas. Entramos na cidade, tiramos o vendedor de sua casa e fomos à loja. Voltando ao posto, o caminhoneiro trocou a bomba d1água, mas não adiantou, o carro continuou pifado. Então ele disse: Já sei, é a corroa do comando de válvulas. Só que isto não se vende por aqui. Entramos novamente na boléia da carreta e fomos até a cidade de esplanada, a uns quarenta km onde ele chamou um mecânico que veio nos acompanhando em um buggy. Lá pelas vinte e duas horas, o mecânico deu o diagnóstico: é a corroa do comando de válvula. Eu tenho uma usada na oficina, mas só dá para trocar amanhã, pois vamos precisar de um torno para sacar a peça. O motorista então arranjou um local no posto para guardarmos o opala quebrado e foi com a boléia da carreta nos deixar numa pousada um pouco mais adiante. Chegando a pousada, lá pelas vinte e três horas, me dirigi ao cidadão para acertar os seus honorários, apreensivo em imaginar quanto seria tal custo. Foi aí que o cidadão me respondeu: "Quando encontrares alguém em dificuldades ajude-o com a mesma abnegação que eu te ajudei e me sentirei pago". Sem mais delonga se despediu, engatou a carreta na boléia e foi embora. No outro dia, o opala foi consertado seguimos nossa viagem. Foi assim que eu descobri que os anjos não têm asas.
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MEU VELHO MONTE

Meu Velho querido, já de alvos cabelos
De quem o rugir a muito, não se ouve mais
Só lágrimas despontam em rios de zelo
Há nutrir seus filhos em remansos de paz

Lagos de ternura formam-se à tua sombra
Nuvens de doçura dos céus vêm a ti
Nenhum vento forte tua calma assombra
Nada mais te rouba a paz do porvir

Flores de carinho a relva te oferece
Em cores e preces, louvam teu viver
E ramos se curvam frente ao teu saber

Firmes e insondáveis são tuas raízes
Belas as matizes que adornam o teu ser
Ventos uivam e cantam em honra a você
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DESENGANO

Eu nunca vi no olhar tanta tristeza
E nem do desamar tanta aspereza
Pela dor que se explode na certeza
A mim jamais terás de volta a mesa

Bem sabes, não sou do tipo leviano
Ferida sangra, mas não aceita panos
Marcas de dores e cicatriz dos danos
Porém jamais o acobertar de enganos

No teu olhar vazio a dor por despedida
Teus planos revelados, máscaras caídas
Nuas estão, tuas mãos frias e fingidas

Terás por companheiro o teu remorso
Fotos rasgadas, brindes e outros troços
Mas jamais o meu amor fiel e devoto
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ESTRELA DA ALVA

Estrela da alva tão radiante e bela
Que nas madrugadas eu vivo a velar
Que loucura é amar-te de minha janela
Com uma distância infinda a nos separar

Te imagino linda e sem qualquer defeito
De sorriso aberto, pronta pra me amar
Nunca me ocorre que em seu sacro peito
Uma paixão por outro já possa habitar

Quanto mais distante, maior a loucura
De sua alma algures, a outro entregar
Paixão desvairada que a razão não cura
Tudo é formosura em seu imaginar

Não tem medo o cego da noite escura
Nem de desafeto, quem vive a sonhar
Mas se ver de perto, todas as agruras
Verás que os defeitos compõem o amar
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TEU BEIJO DOCE

Te vejo ao longe e me sinto um menino
Que na quitanda vive às balas desejar
Chora, dá birra e põe o pai em desatino
Até que os doces saborosos vá comprar

Eu imagino os sabores dos teus beijos
Nas vivas cores e fantasias da ilusão
Quanto mais penso, maior é meu desejo
Torta de amores recoberta de paixão

Vejo-te trufas e caramelos de muitas cores
Com coberturas saborosas a desmanchar
E com salpicos de marshmallow a adornar

Lembras-me frutas de exóticos sabores
Essências mágicas que me fazem delirar
Roubas-me o fôlego a ponto de afogar
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O DIA DO BANANA

Quando a vi assim, dourada ao sol, cabelos esvoaçantes ao vento
Despi-me da timidez e fui ao seu encontro, em louco atrevimento!
Logo eu, um mero banana, de olhar meloso e apaixonado
Querendo ter nos braços a rainha da horta, mais que pecado!

Mesmo assim ousei, fui em frente, desse no que desse
Sentir-me-ia mesmo um morto se assim não o fizesse
Poderia eu fugir agora da resposta às minhas preces?
Melhor a nudez do desengano que do remorso as vestes

Não sei se por desvairo ou se por pura compaixão
Lançou-se trêmula nos meus braços num beijo de paixão
Foi um momento só, mas jamais esquecerei aquele dia
Em que um banana foi o rei no baile das fantasias
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CATARATA

Onde quer que fores, leva a alma tua
Para que lá frente, não queiras voltar
A razão é afoita, mas muito insegura
E sozinha algures, se põe a chorar

A razão e a alma rusgam às escondidas
Passam a noite toda em ponderação
Mas ao clarim do dia, estão decididas
Marcham atreladas num só coração

Mata em tédio a alma, quem não se assume
Quem não se decide entre viver ou sofrer
Em remorsos e dores o seu viver resume
Pois de seus rancores não pode esquecer

Lágrimas são feitas pra lavar os olhos
Pra tirar a trava que nos impede ver
Muda teu caminho, fuja dos abrolhos
Põe um sorriso novo neste teu viver
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BAILA COMIGO

Abraçar-te-ei com tal ternura que cessará teu pranto
E aconchegada em meus braços tua alma descansará
Não mais sobre ti a dúvida estenderá seu turvo manto
Em elos de amor, pra sempre ligada a mim tu estarás

Balança livre e solta como quem confia
E desabrocha assim toda magia e sedução
Atrelada a mim, sua alma dança e rodopia
Cortejos de amor fazem agitar meu coração

Alheia aos riscos, entrega-te a mim em desatino
Se lança em sonhos e em fantasias do amor
Se amar-me é loucura que a condene o destino
Mas és feliz assim como jamais alguém sonhou
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MEU FALAR

Se eu falei só aos teus ouvidos
Logo mais tudo será esquecido

Se eu falei o que querias ouvir
Nada eu fiz para a ti servir

Se meu falar não te incomodou
Meu discurso foi vão, não te ajudou

Se meu falar te ensoberbeceu
Fiz muito mal, foi um erro meu

Se no meu falar eu mexi contigo
Fiz meu o papel de irmão e amigo

E se o meu falar melhorou sua rota
Minha voz ganhou máxima nota
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Comentários (2)

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2014-09-07

Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.

2014-09-06

Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço