Lista de Poemas

ESPELHO MEU

Quanto mais me observo mais me acho mais feio
Não é que eu piore, mas é que melhoro a visão
Quanto mais me observo, mas conheço meus erros
E muito mais descubro quão parte de mim eles são

Meus erros crescem como crescem minhas rugas
Toda pequenina mancha vira uma erupção
É que um mau sentimento por si mesmo não muda
É preciso de Cristo, sempre uma intervenção

Se há virtude do homem esta não o justifica
Nem há maldade pequena que se possa esquecer
Remissão só em Cristo, tudo o mais nada é

Na verdade o espelho é a palavra que explica
Mostra ao que se retoca a maquiagem a perder
Pois nenhum erro se extingue a não ser pela fé
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CHAMADA DA TURMA A

Abria-se formalmente a chamada
Como o galo acordando a alvorada
Quando a voz altiva do mestre entoava
O intrépido nome: Adélia Maria Soto

Seguia-se o ritual em meio ao silêncio
Imposto pelo rito cívico do momento
Josés, Marias, Santos e Nascimentos
Holembergues, Cunhas e tantos outros

Entre sorrisos adolescentes disfarçados
Olhares discretos e os flertes delicados
Nasciam ali, sonhos pueris apaixonados
Até findar a chamada: Walter Gaia Soto

Como esquecer a doçura daqueles dias?
Entre as incertezas, sonhos e fantasias
Fazíamos da nossa esperança a alegria
Ignorando o muro social a ser transposto

Entre os nomes destes irmãos há muitas vidas
Muitos amores, realizações, paixões perdidas
Sonhos desfeitos e amizades hoje esquecidas
Refeitas foram, após a chuva, em novos rotos





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ME DÓI

Me dói o eu não ver mais a poesia na tua imagem
Não perceber o amor que flui sobre a mensagem
Não ser capaz de remover a dor que a ti cinge
Nem crer que o desencanto com amor se extingue

Me dói ver-te passar as margens do caminho
Ver-te trocar meu doce amor por vis espinhos
E ver assim desfigurar-se o teu lindo rosto
Por desencanto e muitas máculas de desgosto

Me dói ver-te tomar por ignóbeis os meus afetos
Desprezar os que te amam e mendigar restos
De quem a muito já demonstrou não merecer-te

Me dói eu ver esvair-se de mim o venerar-te
Já não sentir mais solidão quando tu partes
Mas um alívio em meu coração por esquecer-te

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UMA AULA INESQUECÍVEL

Eu estava dando aula de física para uma turma de terceiro ano do segundo grau da rede pública a noite, no ano de 1980. Mal acabara de fazer a chamada, uma dúzia de marmanjos já se dirigia a porta de saída quando eu disse:

- Alto lá, hoje ninguém vai sair da sala, não!

- Que é isso professor! O senhor não sabe que a lei nos garante o direito de sair da sala para fumar a hora que bem desejarmos?

- Claro que sei, mas hoje ninguém vai sair, eu trouxe cigarros para quem quiser e podem fumar na sala à vontade. Alias, a nossa aula hoje será apenas um gostoso bate-papo. Trouxe cigarros, chicletes, revistas da Playboy e da Contigo, podem se servirem a vontade.

A aula virou um alvoroço. Logo todos estavam na maior folia, quando eu interrompi:

- Quem torce pro Flamengo? E pro Bota-fogo? Quem gosta de novelas? Que gosta de jogar uma peladinha? Quem gosta de forró? Quem gosta da feira do priquito? E assim por diante. Cada pergunta era seguida de um coral de adeptos num barulho ensurdecedor. Por fim, já depois de uma meia hora de farra, eu mudei de assunto:

- Quantos aqui têm menos de dezoito anos? Ninguém se manifestou.

- Quantos aqui tem menos de 21 anos?

Apenas duas meninas levantaram a mão. Então, um dos mais afoitos disse:

- Vamos lá professor, desembucha, aqui não tem crianças, podemos conversar sobre qualquer sacanagem.

Então eu prossegui:

- Quantos aqui o papai ou a mamãe veio trazer-los à escola hoje?

_ Qualé professor, tá zoando com a gente?

- Engraçado. Ninguém aqui é criança; todos gostam de mil e uma coisas legais para fazer a noite e, no entanto, vem para a escola para ficar do lado de fora da aula sem aprender coisa alguma. Eu, particularmente, só faço aquilo que gosto, mas não perco meu tempo simulando que quero aquilo que de fato não estou disposto a fazer. Se vocês fossem crianças, eu entenderia, mas como adultos, o que vieram fazer aqui? Estudar com certeza não foi, então não entendo a vossa inconsistência de propósitos.

- Ah professor, nós estamos cansados, Demos um duro o dia todo hoje. Ninguém aqui é filhinho de papai.

- Entendo bem o que vocês dizem, porque também não sou filho de papai. Aliás, eu moro daqui a 50 km, vou sair daqui as 23 horas, vou voltar para casa de ônibus, já trabalhei hoje de tarde outro emprego, faço 24 créditos na Universidade pela manhã onde lá estarei as 7 horas e sou casado, pai de dois filhos. No entanto, toda quinzena eu faço prova sobre algum livro que é muito maior do que este que eu passo um ano aplicando o conteúdo a vocês. O problema não é o berço, meu pai é operário e tenho oito irmãos, minha situação não é diferente da de vocês. A questão é outra, ninguém é culpado de nascer na merda, afinal ninguém escolhe onde nascer. O problema é que vocês gostaram de viver na merda e se deliciam com ela, porque na verdade já são todos uns merdas mesmo. Arranjam mil desculpas para justificarem o porque estão na merda, mas não fazem o mínimo esforço para sair dela. Estão aqui reprovados pela segunda ou terceira vez e, certamente ficarão mais uma porque estar na merda é de fato o desejo de vocês. A aula está encerrada!
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PROSA DAS ROSAS

O caminho da saudade tu não deves percorrer
Lá as flores são mortas, tu as deves esquecer
Se as contemplas de volta, vês que murchas estão
Já são resíduos do tempo, adornos doutra estação

Segue em frente a jornada, novas flores hás de ver
Dourados sonhos de encantos esperando por você
O passado é um folclore, nada dele volta atrás
Deixe as vestes de mágoas, a maquiagem refaz

Quem anda de costas, perde o que à frente vem
Se acabrunha em escombros e mofa em desdém
Mais nada belo a frente conseguirá alcançar

Abre um largo sorriso, independente da dor
Vista-se de otimismo, plante e regue uma flor
Alegria infinita em outros olhos hás de achar
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BRISA DA TARDE

Que me venham os netos
Com suas doces inocências, seus sorrisos puros e regados de afeto

Que me venham as crianças
Atenção desmedida e sem hora, sem mendigos do tempo e partição de momentos

Que me venham os sonhos
Esperança numa nova gênese, que dê cor e brilho a meus olhos tristonhos

Que me volte a poesia
Na alegria do amor mais sincero, que brota nos beijos de quem as rugas não observa

Que me volte as palavras
Pra quem ainda de ouvir-me não cansa e que dorme em meus braços em canção de ninar

Que eu ouça o choro
De quem de fato não quer que eu parta, nem o espaço do quarto e lamentará minha falta
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DESEJO A TI


Que nunca conheças em teu corpo a dor que ignoras nos outros

Que tuas mazelas nunca sejam a metade do que pensas que são

Que nenhum mal venha a ti na proporção que desejas a outros

Que a misericórdia que a ti derem seja maior do que a que ofereces

Que o desvelo que receberás na velhice seja maior do que o que dás aos teus avôs.

Que seus filhos te honrem mais do que honras aos teus pais.

Que ninguém esqueça a ti como já esquecestes aos que te amam

Que recebas maior perdão do que aquele que tens negado.

Que nunca cometam contigo a injustiça que cometes com outros.

Que nunca te desprezem como já desprezastes a outros.

Que todo o ódio contra ti seja quebrantado, ainda que teu ódio permaneça

Que ninguém te julgue com a dureza com que julgas as causas alheias

Que teus filhos não dêem metade dos problemas que observas nos filhos alheios

Que as tuas culpas sejam menores que aquelas que tu apontas nos outros.

Que ninguém deseje o teu fim como já desejastes o de alguém.

Que tuas mãos sejam tão limpas como são apurados os teus olhos.

Que a tua felicidade seja maior do que aquelas com as quais te solidarizas
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POR DO SOL

A ti eu quero contar os meus segredos
Os meus remorsos, tristezas e medos
Todos meus sonhos pueris inacabados
E as razões de meu viver assim calado

Quero colher pra ti as flores da primavera
Chorar contigo todas as dores e quimeras
E contigo me encharcar na brisa das cascatas
E do soar de teus suspiros ouvir as serenatas

Ter todas as noites os teus olhos por estrelas
Carícias de tuas mãos e delírios ao recebê-las
E assim eu ser feliz como nunca fora dantes

E ver no por do sol as cores lindas do firmamento
Teu braço ainda junto ao meu, consolo e unguento
Ternura de quem ama mais que paixão de amante
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MEU VELHO MONTE

Meu Velho querido, já de alvos cabelos
De quem o rugir a muito, não se ouve mais
Só lágrimas despontam em rios de zelo
Há nutrir seus filhos em remansos de paz

Lagos de ternura formam-se à tua sombra
Nuvens de doçura dos céus vêm a ti
Nenhum vento forte tua calma assombra
Nada mais te rouba a paz do porvir

Flores de carinho a relva te oferece
Em cores e preces, louvam teu viver
E ramos se curvam frente ao teu saber

Firmes e insondáveis são tuas raízes
Belas as matizes que adornam o teu ser
Ventos uivam e cantam em honra a você
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AMIZADE

Eu queria fazer como faz o passarinho
Saber de cada flor colher o carinho
Pra dizer ao amigo: não estás sozinho
Conte comigo nas agruras do caminho

Queria eu ter as palavras de conforto
O peito aberto pra amparar o sofrimento
Ter a esponja que apagasse o teu desgosto
Pra vê-lo sorrir em infantil desprendimento

Não desejo ser o teu amigo mais viçoso
Nem um molde para servir-te de exemplo
Nem uma foto em teu arquivo de saudades

Mas ser do teu sorrir o encher de gozo
Nos encontros do viver a qualquer tempo
E abraçar-te como a um amigo de verdade
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Comentários (2)

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2014-09-07

Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.

2014-09-06

Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço