A
casa não era grande, mas era forte, construída em concreto e pedra. Ma
verdade, eu temia que lobos e linces invadissem a minha casa durante a
noite. Coisa que nunca tentaram. De qualquer forma, melhor era prevenir.
Paredes fortes, portas e janelas de Ipê , além de travas e um
pequeno porão subterrâneo com portas de aço. O lugar era nativo, destes
que a gente sonha quando assiste filmes de faroeste. Era uma linda
savana, que na primavera se revestia de flores parecendo um tapete
persa. O rio ficava ao lado, a uns 200 metros da casa. Preferi fazer a
casa mais distante e num altiplano temendo alguma enchente. Esta nunca
aconteceu, as chuvas sempre forram constantes, mas regulares. Nunca me
preocupei com a beleza da casa. Na verdade nossa casa era o jardim, lá
comíamos e passávamos a maior parte do tempo.
Tínhamos tudo e nada,
Tudo porque não havia lugar mais belo no mundo e nada porque, exceto uma
geladeira a gás, tudo o mais era desnecessário. Televisão, computador e
automóvel eram coisa inconcebíveis às nossas necessidades. Alguns
vizinhos, na outra margem do rio e uma aldeia onde comprávamos os nossos
suprimentos, sal, açúcar, e grãos, a apenas uma hora de barco à vela.
Tudo corria assim tão belo, até que um dia...
Um dia chegou a
Marcela, prima de minha amada. Veio da capital, por recomendação médica,
passar uns dias no campo. Ela não era uma pessoa má, mas trazia no bojo
o vírus da insaciabilidade. Nem ela mesma sabia, mas já estava morrendo
por este motivo. Embora tivesse um bom salário vivia sempre planejando
um futuro mais abastado. Seu verbo preferido era “trocar”. Trocar o
apartamento, trocar o carro, trocar de cidade, trocar de emprego, etc.
Coitada! A vida estava sempre longe do seu braço, embora possuísse um
invejável equipamento de pesca. Um lindo corpo, bom emprego, bom
salário, bom marido, lindos filhos e um ótimo apartamento de classe
média, o qual acabara de ser reformado, pela terceira vez nos últimos
cinco anos. Era algo compulsivo, ela vivia pra TV e a TV para ela. Tudo
era bom até que um especialista da TV dissesse o contrário. Trouxe mais
remédios na mala do que roupas para se vestir. Era comprimidos para
prevenir celulites, para emagrecer , para amaciar o cabelo, e outros que
nem ela sabia pra que, mas usava por recomendações de amigas. As vezes,
o diabo veste prata, foi esta a cor da roupa que ela chegou, num salto
extravagante como se fosse caminhar na passarela. Mas não o fez por mal,
esta era sempre a sua indumentária. Não aguentou dois dias na nossa
modesta casa. Tudo lhe era incômodo, mesmo a gente se desdobrando em
paparicos. Mas estes dois dias foram suficientes para causar um estrago
equivalente ao tsunami em Fukushima. Depois de dois dias, o vírus já
havia se propagado.
Naquele dia eu me lembrei da caserna,
lembrei-me do dia eu que eu assisti a expulsão de um tenente. Nunca
tinha visto algo tão horrível. Ele estava de pé diante a tropa, quando o
General rufaram os tambores. Primeiro o Bumbo, depois o surdo, e por
fim o tarol. Os toques começaram fortes e rápidos, depois foram ficando
lentos e pausados, como alguém que perde o fôlego. Em um movimento
brusco, o general arrancou as medalhas e insígnias do uniforme do
tenente, depois dois sargentos lhe rasgaram a farda em golpes bruscos de
canivete, deixando-o apenas em trajes menores. Foi quando então a
corneta cortou o céu com um piado triste e fúnebre, para que o pelotão
lhe virasse as costas e o tenente fosse arrastado ao calabouço pelo
corpo da guarda. Assim me achei naquele dia, o tenente em seu desterro.
De repente, as pradarias perderam o encanto, a casa virou tapera, a
tranquilidade um tédio, os amigos uns chatos, a natureza um presídio, os
filhos uns farrapos, eu um incompetente e a visão do rio apenas um
pesadelo. Tem horas que a nossa lama foge da gente e ficamos inertes a
imaginar que estamos em um sonho, e que logo acordaremos. Mas era real, O
céu desabou sobre mim como o Vesúvio em Pompeia. Já não havia onde
refugiar-me. As vezes uma montanha de sonhas traz em seu bojo um vulcão
adormecido. Calei-me, fui até o rio e pensei: a enchente que eu tanto
evitei pegou-me de surpresa e no seu banzeiro não me sobrara nada, quem
sabe a minha dignidade.