Tietê
Um rio cheio de lágrimas
que se escorre solitário
rumo ao sertão,
cheio de solidão.
Um rio que...
lentamente vai,
vai para bem longe do mar,
um rio que não aprendemos a amar.
Lá no fundo é um rio que respira,
tentando entender toda esta ira.
E reciclando todo descaso,
todo cinismo,
todo pecado.
se mantém escuro,
solitário,
pesado.
Salve! Meu rio tietê!
Um rio que todo mundo vê,
fingindo não entender.
Partida
Quando partimos
chegamos em algum lugar.
Quando chegamos em algum lugar,
ficamos na memória,
das pessoas que aprenderam a amar.
Nossa jangada tem a proteção de Yemanjá,
Nossa deusa!
Nossa rainha do mar.
E entre as águas de meu Deus,
olho para o céu,
vejo meu eu...
E cântico também para os teus.
Sou pescador,
guiado pelo senhor...
E mesmo com muita dor,
tenho que partir de meu amor.
Amando ela
Não a beijei
Simplesmente me gozei!
Apenas porque dancei.
Amei,
Sonhei,
Voei,
“namorei”
Dois para lá,
dois para cá.
Dentro do compasso!
O poeta
A deusa
Coladinhos no espaço...
Mãe
Ainda continua como uma menina.
Digo no bom sentido!
Ainda tem a delicadeza de escolher um belo vestido,
ainda tem um olhar revestido de amor.
Ainda cuida de nós como se cuida de uma flor.
Tem um sentido incalculável,
uma amizade verdadeira,
Mulher amável,
mulher guerreira.
Pena que o calendário te reserva só um dia!
Na real... Dia de mãe é todo dia.
Os pássaros cantam para você!
Você consegue perceber?
Assim como eu estou aqui para te dizer...
Com nobre licença,
e com verdadeira essência...
“Hoje compreendo a sua experiência”.
Minhas mãos
Minhas mãos queimam,
meu mundo queima,
meu suor fede,
minhas palavras tão pouco se evocam manifesto.
Desse mundo quero meu silêncio...
Das plantas quero o perfume,
das crianças quero o sorriso,
dos rios quero a água fluente,
da nossa gente, fico descontente.
Minhas mãos queimam,
minha pátria se divide,
meus companheiros se dividem.
Do amanhã nada duvido,
“o mundo está todo corrompido”.
Sem sentido
Estudamos com tudo,
no fim ganhamos um canudo.
Trabalhamos,
buscamos melhorar o mundo!
No fim das contas perdemos tudo.
Perdemos o direito,
perdemos o respeito,
perdemos até a moral!
E comemoramos tudo no carnaval.
Continuamos pelejando
e por fim alcançamos o natal.
Nossa velhice
A cada segundo
nossa velhice tira sarro de nossa juventude.
A curiosidade se desespera,
queremos ver o tempo passar.
Queremos ver o futuro.
Então modificamos nossos traços,
tentamos atingir uma maturidade,
avançamos na idade,
depois caímos em fragilidade.
Queremos que o segundo passe,
sem noção!
Sem direção.
Só queremos que o tempo passa.
Porque o futuro é estar sempre lá.
Sobre peido
Um peida daqui,
outro peida dali.
Em momento algum
deixamos de peidar.
Às vezes peidamos equivocados,
soltamos o aprisionado
e ficamos calados.
Nos calamos também
com o peido alheio,
olha que tem peido alheio o dia inteiro.
Ninguém assume seu peido,
ninguém assume sua mão amarela,
mas comemos da mesma panela.
Se peido fosse informação,
estaria tudo fedido...
E nessa grande peidação,
soltar um peidão,
pode causar mais odor na informação.
Num sábado qualquer de abril
Os carros passam,
as pessoas passam,
os pássaros dormem,
as crianças dormem,
os minutos passam.
“A vida passa”.
O poeta fica e acompanha a solidão,
junto do frio e do gélido coração.
Demarcação já
Índio indigente!
Ha! Dá um tempo minha gente.
Sou um povo ancestral,
guerreiro, inteligente.
Da nossa terra sabemos cuidar.
Salve Xingu!
Salve Mãe terra!
Viva o povo tupinambá.
“Opressão nenhuma vai nos derrubar”.
Minha terra vou demarcar.
Europeu invadiu.
Agora quer nos exterminar.
Assim não dá.
Essa versão da história não vai nos derrubar.
Nossa pré-história sabemos contar.
Nossa cultura não tem ruptura.
Vamos derrubar esta ditadura.
Índio vive, índio morre.
Mas nossa terra ninguém vai tomar.
Demarcação já.