Lista de Poemas
ORIUNDA
Não tanto os olhos, antes os olhares
Contam de sua história e sua origem.
Eram fundas miradas de vertigem,
Enviesadas a mim como a meus pares.
Contavam d’outras épocas, lugares
E mesmo dos costumes que ‘inda afligem
Mulheres que cobertas de fuligem
S’escondem atrás de homens e de altares.
Baixa a sua cabeça, todavia,
Quando sustento o olhar para encará-la
No afã de surpreender-lhe a fantasia.
Enigmaticamente, nada fala
E se retira certa de que, enfim,
Eu d’ela menos sei que ela de mim!
Betim - 05 09 2022
Contam de sua história e sua origem.
Eram fundas miradas de vertigem,
Enviesadas a mim como a meus pares.
Contavam d’outras épocas, lugares
E mesmo dos costumes que ‘inda afligem
Mulheres que cobertas de fuligem
S’escondem atrás de homens e de altares.
Baixa a sua cabeça, todavia,
Quando sustento o olhar para encará-la
No afã de surpreender-lhe a fantasia.
Enigmaticamente, nada fala
E se retira certa de que, enfim,
Eu d’ela menos sei que ela de mim!
Betim - 05 09 2022
👁️ 339
SUBLIME
Estou triste esta noite, muito triste.
Tanto, que até capaz de fazer versos…
De modo geral, eu entre eus dispersos
Em meio à algaravia que se assiste.
Tal tristeza por mim ainda insiste
Em fazer eu me outrar por eus diversos.
Eu sou um deus que ao criar seus universos
Distrai-se sem saber sequer se existe…
A inexacta medida do sublime
Na noite ecoa vozes sacrossantas,
Cujo cantar alhures me redime.
E ainda que através de mil gargantas,
Exijo um verso meu que legitime,
Ser triste, muito triste, vezes tantas…
Santa Bárbara - 23 08 1996
Tanto, que até capaz de fazer versos…
De modo geral, eu entre eus dispersos
Em meio à algaravia que se assiste.
Tal tristeza por mim ainda insiste
Em fazer eu me outrar por eus diversos.
Eu sou um deus que ao criar seus universos
Distrai-se sem saber sequer se existe…
A inexacta medida do sublime
Na noite ecoa vozes sacrossantas,
Cujo cantar alhures me redime.
E ainda que através de mil gargantas,
Exijo um verso meu que legitime,
Ser triste, muito triste, vezes tantas…
Santa Bárbara - 23 08 1996
👁️ 168
NÃO TITUBEEI
Em face das falácias dos obtusos,
Não deixei de falar o que pensava.
Fosse correto ou não, não me negava
A questionar conceitos por confusos.
Jamais me conformei com certos usos,
Tampouco dava amém a quem pregava
Mudar a manter tudo como estava
Na má-fé de historiar em parafusos…
Denuncio a maldade do bonzinho
Assim como a inverdade do bisonho,
Ambos a sofismar pelo caminho.
Porém, livre é todo homem em seu sonho:
Ainda que ao deserto ande sozinho,
Quem anda pelas sombras vai tristonho.
Betim - 10 08 2022
Não deixei de falar o que pensava.
Fosse correto ou não, não me negava
A questionar conceitos por confusos.
Jamais me conformei com certos usos,
Tampouco dava amém a quem pregava
Mudar a manter tudo como estava
Na má-fé de historiar em parafusos…
Denuncio a maldade do bonzinho
Assim como a inverdade do bisonho,
Ambos a sofismar pelo caminho.
Porém, livre é todo homem em seu sonho:
Ainda que ao deserto ande sozinho,
Quem anda pelas sombras vai tristonho.
Betim - 10 08 2022
👁️ 8
MUSSELINA
Através das florestas de amplos vales,
Onde reinavam tigres colossais,
Cultivam entre lírios algodoais
De fibras tão finas que sem males.
Divina manufatura dos bengalis,
Tecida a bem vestir às Casas Reais
Com transparências leves e sensuais
D’alvíssimos véus, túnicas ou xales.
Algumas belas amam; outras, não.
Mas todas buscam ter no coração
O encanto que hipnotiza o nobre olhar.
Deixam ver a nudez do níveo seio
Em face d’um herdeiro cujo anseio
Faísca em peito frio o ardor de amar!
Belo Horizonte - 04 06 2022
Onde reinavam tigres colossais,
Cultivam entre lírios algodoais
De fibras tão finas que sem males.
Divina manufatura dos bengalis,
Tecida a bem vestir às Casas Reais
Com transparências leves e sensuais
D’alvíssimos véus, túnicas ou xales.
Algumas belas amam; outras, não.
Mas todas buscam ter no coração
O encanto que hipnotiza o nobre olhar.
Deixam ver a nudez do níveo seio
Em face d’um herdeiro cujo anseio
Faísca em peito frio o ardor de amar!
Belo Horizonte - 04 06 2022
👁️ 178
FRACASSADO
Assim, depois que a vida deu errado,
— Ali pelos quarenta e poucos anos... —
Parei de me iludir ou fazer planos,
Visto ter só sinistros por legado!
A medo de buscar novos enganos
Deixei as esperanças vãs de lado…
Eu, entre mil fracassos, fracassado
Agora a chafurdar solos mundanos:
No chão, enquanto a face toca a terra,
Perdi tanto a batalha quanto a guerra
Com aquela fé cega de quem sonha.
Resta escutar os hurras dos alaridos,
Que os vencedores têm para os vencidos
Ao passo que caminham na vergonha…!
Betim - 26 12 2020
— Ali pelos quarenta e poucos anos... —
Parei de me iludir ou fazer planos,
Visto ter só sinistros por legado!
A medo de buscar novos enganos
Deixei as esperanças vãs de lado…
Eu, entre mil fracassos, fracassado
Agora a chafurdar solos mundanos:
No chão, enquanto a face toca a terra,
Perdi tanto a batalha quanto a guerra
Com aquela fé cega de quem sonha.
Resta escutar os hurras dos alaridos,
Que os vencedores têm para os vencidos
Ao passo que caminham na vergonha…!
Betim - 26 12 2020
👁️ 159
O CÉU N’AQUELE DIA
O CÉU N’AQUELE DIA
Era de tarde, o sol tinha se posto.
O céu se abriu após um aguaceiro
Em etéreo dourado que, ligeiro,
Iluminou as rugas do meu rosto.
Eu sorri admirado e bem disposto
Em vista do espetáculo que inteiro
S’espalhou no horizonte derradeiro
D’um dia bom deixado a contragosto.
Pareceu-me um presente do Universo
Haver o céu em ouro assim disperso
Alguns instantes pela eternidade.
Em êxtase de luzes envolvido,
Gozei do entardecer agradecido
Por sua áurea e fugaz realidade!
Betim - 30 06 2022
Era de tarde, o sol tinha se posto.
O céu se abriu após um aguaceiro
Em etéreo dourado que, ligeiro,
Iluminou as rugas do meu rosto.
Eu sorri admirado e bem disposto
Em vista do espetáculo que inteiro
S’espalhou no horizonte derradeiro
D’um dia bom deixado a contragosto.
Pareceu-me um presente do Universo
Haver o céu em ouro assim disperso
Alguns instantes pela eternidade.
Em êxtase de luzes envolvido,
Gozei do entardecer agradecido
Por sua áurea e fugaz realidade!
Betim - 30 06 2022
👁️ 174
A VIRGEM E O EUNUCO
A VIRGEM E O EUNUCO
"e ele suspira, assim como suspira o eunuco ao abraçar uma virgem."
Eclesiástico 30.21
Foi quando sobre o campo damasceno
Reinaram os selêucidas da Grécia,
Que do magno Alexandre o mando pleno
Herdaram após longa peripécia.
Expandindo pela Ásia o mundo heleno,
Fosse de forma sábia ou mesmo néscia:
- "Aos povos antiquíssimos d'Oriente
Um novo império grego se sustente!"
Temeroso de novas guerras, houve
Um povo que firmando juramento
Ao grande imperador por bem aprouve
Seu rei dar sua filha em casamento.
A fim-de que melhor e mais se louve
Sua fidelidade em detrimento
Dos costumes e leis que partilhavam,
Enquanto mais aos gregos se inclinavam.
Quanto à filha do rei, viveu reclusa.
De infante prometida ao grão senhor,
Quando as regras lhe chegam, por confusa,
Ignora ela que fosse ardor e amor…
Já moça, todavia, como se usa,
É posta a cultivar o seu pudor
N'alguma escura alcova sem janelas,
Na qual os ricos guardam suas belas.
Parecia em desleixos s'entregar
A uma existência estúpida de inválida
Por tola-mas-donzel subir no altar.
Preocupado com sua forma esquálida,
O rei, seu pai, ordena lhe chamar.
E duro lhe questiona em sua doença,
A ver n'essa tristeza antes ofensa:
- "Filha minha, o que vós me quereis mais?
Se vos dei por consorte um soberano,
Por que tão alto ecoam vossos ais?
Resguardei-vos d'olhar mal e mundano,
Mas vós, dia após dia, definhais
Em morrer empenhada, salvo engano.
Dizei-me, ó principesca, que quereis
A vô-lo conceder com mãos de reis."
-"Senhor meu pai, sozinha apenas vivo
Qual canário cantando na gaiola:
Grades, embora d'ouro, o têm captivo
E, tolo, s'equilibra pela argola…
Só peço um preceptor que, compassivo,
Possa fazer-me as vezes d'uma escola
E ensine o que se sabe ou se acredita
Até qu'eu me perceba uma erudita".
- "Minha princesa, muito me pedis,
Pois prometi guardar-vos dos olhares
Àquele que vos tem olhos gentis.
Eu, contudo, por todos os lugares
Mandarei vos buscar, como se diz,
Um castrado que sirva por bons lares.
Algum d'estes, discreto e de valor,
Há-de se nos servir de preceptor".
De facto, era costume muito antigo,
Que houvesse um servidor emasculado
N'aquelas casas reais por sob abrigo.
Porquanto confiável, pois, castrado
Tinham por secretário e mesmo amigo
Quem fora desde a infância preparado.
Aquele, todavia, também douto
A aplacar da princesa o tom revolto.
Mas os melhores vinham do Alto Nilo.
Jovens núbios e etíopes que, escravos,
'Inda impúberes passam por aquilo…
Sob pretexto d'havê-los menos bravos,
Junto a sábios obtêm por fim asilo,
Vivendo sem grilhões duros e ignavos.
E aprendem tudo quanto a se saber
Para fâmulos leais virem a ser.
Co'os homens do deserto se aprendia
As ciências de ecônomos mordomos.
E, além das muitas línguas, geometria,
Cultivos de verduras, ervas, pomos…
Alguns tinham noções de astronomia
Outros, pelas estantes guardam tomos,
Escriturando para seus senhores
Contratos, enfiteuses e penhores.
Mas não raro os eunucos eram vistos
A guardar bens muito mais preciosos.
Vindo ter onde folgam os benquistos:
Os herdeiros e herdeiras desejosos!
Onde a salvo de tantos imprevistos
Os senhores proíbem, bons esposos,
O convívio de estranhos com os seus
Restritos aos umbrais dos gineceus.
O rei, muito zeloso, à filha diz
Irem buscar no Egipto o preceptor
Que lh'ensinasse tudo quanto quis.
E ela, muito admirada em seu favor,
Não escondia o quanto era feliz
Em ver muito maior o seu valor.
Contente, beija ao pai as suas mãos
E torna, alegremente, a seus desvãos.
Chega o eunuco, um tipo afeminado;
Melhor, emasculado… Era um mancebo
Em modos e trejeitos refinado.
Tão belo quanto Apolo ou quanto Febo…
Lá dos confins do Sud fora levado,
Ainda bem pequeno; ainda efebo,
Onde o Nilo em montanhas escondia
A fonte em que extenso principia.
No Egipto ele valeu seu peso em ouro
Visto falante em grego o carinegro
- Por distinto do núbio e até do mouro
A pele n'um retinto tom de negro -
Na Síria revelou-se um grão tesouro
O eunuco àquela virgem d'olhar egro,
Porquanto lh'ensinasse em seu poder
Da grande Alexandria o grão saber.
Breves anos os dois a compartilhar
Dos papiros o gosto e mesmo o gozo,
Lograram, sempre juntos, encontrar
As verdades d'um século sinuoso
Fosse na Septuaginta as contemplar
Ou mais do Estagirita consciencioso.
E, observando os mistérios pitagóricos,
Confrontam hedonistas e alegóricos.
Todavia, onde Amor quer habitar
Pouco podem os planos das Nações…
Tardando o imperador em desposar
A princesa de grandes opiniões,
Vê ela em seu eunuco a quem amar
A despeito de suas limitações…
Desvairada, ela ordena que a possua
Deitando em sua alcova toda nua.
Iniciado aos mistérios de Priapo
Onde em prazer anal se consumava,
O eunuco se despindo cada trapo
À virgem penetrou ardendo em lava
O deus em suas mãos, erecto e guapo!
De facto, à bunda d'ela castigava,
Enquanto o frágil hímen preservado
Ao futuro marido era guardado.
Ele - por quase macho ou quase fêmea -
Soube amar, apesar de tudo e todos,
Pelas sombras d'alcova su'alma gêmea,
Como homem ou mulher, de muitos modos.
No mais, vindo chamá-la de Epistêmea,
Fez oculta, por enganos mais engodos,
A verdade das tardes solitárias
Para mais a abraçar por horas várias…
E enfim, o imperador ao desposá-la,
Rompendo-lhe seu hímen intocado,
Mais ignora que enquanto ela se cala,
Pensa apenas em ter com seu amado:
Sim, logo após o esposo deflorá-la,
Gozar com seu eunuco afeminado!
E o sangue no lençol, nódoa tão vã,
De todos sele a paz pela manhã…
Betim - 23 01 2019
"e ele suspira, assim como suspira o eunuco ao abraçar uma virgem."
Eclesiástico 30.21
Foi quando sobre o campo damasceno
Reinaram os selêucidas da Grécia,
Que do magno Alexandre o mando pleno
Herdaram após longa peripécia.
Expandindo pela Ásia o mundo heleno,
Fosse de forma sábia ou mesmo néscia:
- "Aos povos antiquíssimos d'Oriente
Um novo império grego se sustente!"
Temeroso de novas guerras, houve
Um povo que firmando juramento
Ao grande imperador por bem aprouve
Seu rei dar sua filha em casamento.
A fim-de que melhor e mais se louve
Sua fidelidade em detrimento
Dos costumes e leis que partilhavam,
Enquanto mais aos gregos se inclinavam.
Quanto à filha do rei, viveu reclusa.
De infante prometida ao grão senhor,
Quando as regras lhe chegam, por confusa,
Ignora ela que fosse ardor e amor…
Já moça, todavia, como se usa,
É posta a cultivar o seu pudor
N'alguma escura alcova sem janelas,
Na qual os ricos guardam suas belas.
Parecia em desleixos s'entregar
A uma existência estúpida de inválida
Por tola-mas-donzel subir no altar.
Preocupado com sua forma esquálida,
O rei, seu pai, ordena lhe chamar.
E duro lhe questiona em sua doença,
A ver n'essa tristeza antes ofensa:
- "Filha minha, o que vós me quereis mais?
Se vos dei por consorte um soberano,
Por que tão alto ecoam vossos ais?
Resguardei-vos d'olhar mal e mundano,
Mas vós, dia após dia, definhais
Em morrer empenhada, salvo engano.
Dizei-me, ó principesca, que quereis
A vô-lo conceder com mãos de reis."
-"Senhor meu pai, sozinha apenas vivo
Qual canário cantando na gaiola:
Grades, embora d'ouro, o têm captivo
E, tolo, s'equilibra pela argola…
Só peço um preceptor que, compassivo,
Possa fazer-me as vezes d'uma escola
E ensine o que se sabe ou se acredita
Até qu'eu me perceba uma erudita".
- "Minha princesa, muito me pedis,
Pois prometi guardar-vos dos olhares
Àquele que vos tem olhos gentis.
Eu, contudo, por todos os lugares
Mandarei vos buscar, como se diz,
Um castrado que sirva por bons lares.
Algum d'estes, discreto e de valor,
Há-de se nos servir de preceptor".
De facto, era costume muito antigo,
Que houvesse um servidor emasculado
N'aquelas casas reais por sob abrigo.
Porquanto confiável, pois, castrado
Tinham por secretário e mesmo amigo
Quem fora desde a infância preparado.
Aquele, todavia, também douto
A aplacar da princesa o tom revolto.
Mas os melhores vinham do Alto Nilo.
Jovens núbios e etíopes que, escravos,
'Inda impúberes passam por aquilo…
Sob pretexto d'havê-los menos bravos,
Junto a sábios obtêm por fim asilo,
Vivendo sem grilhões duros e ignavos.
E aprendem tudo quanto a se saber
Para fâmulos leais virem a ser.
Co'os homens do deserto se aprendia
As ciências de ecônomos mordomos.
E, além das muitas línguas, geometria,
Cultivos de verduras, ervas, pomos…
Alguns tinham noções de astronomia
Outros, pelas estantes guardam tomos,
Escriturando para seus senhores
Contratos, enfiteuses e penhores.
Mas não raro os eunucos eram vistos
A guardar bens muito mais preciosos.
Vindo ter onde folgam os benquistos:
Os herdeiros e herdeiras desejosos!
Onde a salvo de tantos imprevistos
Os senhores proíbem, bons esposos,
O convívio de estranhos com os seus
Restritos aos umbrais dos gineceus.
O rei, muito zeloso, à filha diz
Irem buscar no Egipto o preceptor
Que lh'ensinasse tudo quanto quis.
E ela, muito admirada em seu favor,
Não escondia o quanto era feliz
Em ver muito maior o seu valor.
Contente, beija ao pai as suas mãos
E torna, alegremente, a seus desvãos.
Chega o eunuco, um tipo afeminado;
Melhor, emasculado… Era um mancebo
Em modos e trejeitos refinado.
Tão belo quanto Apolo ou quanto Febo…
Lá dos confins do Sud fora levado,
Ainda bem pequeno; ainda efebo,
Onde o Nilo em montanhas escondia
A fonte em que extenso principia.
No Egipto ele valeu seu peso em ouro
Visto falante em grego o carinegro
- Por distinto do núbio e até do mouro
A pele n'um retinto tom de negro -
Na Síria revelou-se um grão tesouro
O eunuco àquela virgem d'olhar egro,
Porquanto lh'ensinasse em seu poder
Da grande Alexandria o grão saber.
Breves anos os dois a compartilhar
Dos papiros o gosto e mesmo o gozo,
Lograram, sempre juntos, encontrar
As verdades d'um século sinuoso
Fosse na Septuaginta as contemplar
Ou mais do Estagirita consciencioso.
E, observando os mistérios pitagóricos,
Confrontam hedonistas e alegóricos.
Todavia, onde Amor quer habitar
Pouco podem os planos das Nações…
Tardando o imperador em desposar
A princesa de grandes opiniões,
Vê ela em seu eunuco a quem amar
A despeito de suas limitações…
Desvairada, ela ordena que a possua
Deitando em sua alcova toda nua.
Iniciado aos mistérios de Priapo
Onde em prazer anal se consumava,
O eunuco se despindo cada trapo
À virgem penetrou ardendo em lava
O deus em suas mãos, erecto e guapo!
De facto, à bunda d'ela castigava,
Enquanto o frágil hímen preservado
Ao futuro marido era guardado.
Ele - por quase macho ou quase fêmea -
Soube amar, apesar de tudo e todos,
Pelas sombras d'alcova su'alma gêmea,
Como homem ou mulher, de muitos modos.
No mais, vindo chamá-la de Epistêmea,
Fez oculta, por enganos mais engodos,
A verdade das tardes solitárias
Para mais a abraçar por horas várias…
E enfim, o imperador ao desposá-la,
Rompendo-lhe seu hímen intocado,
Mais ignora que enquanto ela se cala,
Pensa apenas em ter com seu amado:
Sim, logo após o esposo deflorá-la,
Gozar com seu eunuco afeminado!
E o sangue no lençol, nódoa tão vã,
De todos sele a paz pela manhã…
Betim - 23 01 2019
👁️ 141
A ESPADA DE DÂMOCLES
Busca antes à vaidade que à verdade
Aquele se coloca sobre todos,
Embora com bravatas e denodos
A jactar-se com grande propriedade.
Quem se dá excessiva liberdade,
Tentando aconselhar de muitos modos,
Não percebe por sobre seus engodos
A espada por um fio de maldade...
Assemelha-se a Dâmocles no trono:
Refestelado em luxo aqui e ali
Como de tudo aquilo fosse dono.
Patético, dos outros zomba e ri.
Até que horrorizado, quase ao sono,
À espada vê pendente sobre si!
Betim - 12 12 2018
Aquele se coloca sobre todos,
Embora com bravatas e denodos
A jactar-se com grande propriedade.
Quem se dá excessiva liberdade,
Tentando aconselhar de muitos modos,
Não percebe por sobre seus engodos
A espada por um fio de maldade...
Assemelha-se a Dâmocles no trono:
Refestelado em luxo aqui e ali
Como de tudo aquilo fosse dono.
Patético, dos outros zomba e ri.
Até que horrorizado, quase ao sono,
À espada vê pendente sobre si!
Betim - 12 12 2018
👁️ 566
MANÍACO
Caminha pelas sombras, predador,
Belo e mau como um lívido Satã.
À caça de mulheres cujo amor
Revelará mortal pela manhã…
Com efeito, as mais ávidas em flor
Quedam hipnotizadas n'esse elã
Que envolve todo grão conquistador
Às voltas com orgia assim pagã.
Finge ser dos amantes o melhor.
Porém, tão-logo as deita no divã,
Parece confundir prazer e horror
Pronto a lhes devorar a carne chã.
Sua ânsia de prazer só não é maior
Que o apetite por sangue cujo afã
O leva a conduzir ao seu sabor
Às moças que seduz com lábia vã.
Deveras, a ocasião se faz melhor
A sós na alcova… Pois, moral mal-sã
Dá razão ao misógino valor
Que ainda faz da vítima a vilã…
Matava indiferente do estupor,
Fosse ela donzela ou cortesã…
Em plena foda, ao gozo, em pleno ardor;
Deixando-a inerte já sem amanhã.
Traz consigo, em memória do terror
À guisa de troféu ou talismã
D'elas alguma joia em seu favor,
Quer fosse um camafeu ou cruz cristã.
E some… Sem deixar senão pavor.
Após tomar a morte como irmã,
Um maníaco em série matador
Se mostra a insanidade mais insã.
Betim - 08 12 2018
Belo e mau como um lívido Satã.
À caça de mulheres cujo amor
Revelará mortal pela manhã…
Com efeito, as mais ávidas em flor
Quedam hipnotizadas n'esse elã
Que envolve todo grão conquistador
Às voltas com orgia assim pagã.
Finge ser dos amantes o melhor.
Porém, tão-logo as deita no divã,
Parece confundir prazer e horror
Pronto a lhes devorar a carne chã.
Sua ânsia de prazer só não é maior
Que o apetite por sangue cujo afã
O leva a conduzir ao seu sabor
Às moças que seduz com lábia vã.
Deveras, a ocasião se faz melhor
A sós na alcova… Pois, moral mal-sã
Dá razão ao misógino valor
Que ainda faz da vítima a vilã…
Matava indiferente do estupor,
Fosse ela donzela ou cortesã…
Em plena foda, ao gozo, em pleno ardor;
Deixando-a inerte já sem amanhã.
Traz consigo, em memória do terror
À guisa de troféu ou talismã
D'elas alguma joia em seu favor,
Quer fosse um camafeu ou cruz cristã.
E some… Sem deixar senão pavor.
Após tomar a morte como irmã,
Um maníaco em série matador
Se mostra a insanidade mais insã.
Betim - 08 12 2018
👁️ 106
NÓS COMO VÓS
Também nós temos sangue sob a pele
-- Vermelho, não azul como sonhais... --
Mas, derramados, correm tão iguais,
Que sequer se distingue este d'aquele.
Entre nós e vós, tal sangue enfim revele
Menos as diferenças do que os ais
E mostre que todos perdem mais
Quando o afã de vitórias os impele.
Nós como vós havemos-de morrer,
Andando n'esse mundo sem saber
Aonde se vai dar com tanta briga.
O certo é respeitar a liberdade
E sorrir sem ser dono da verdade
Àquele que m'estende a mão amiga.
Belo Horizonte - 17 11 2018
-- Vermelho, não azul como sonhais... --
Mas, derramados, correm tão iguais,
Que sequer se distingue este d'aquele.
Entre nós e vós, tal sangue enfim revele
Menos as diferenças do que os ais
E mostre que todos perdem mais
Quando o afã de vitórias os impele.
Nós como vós havemos-de morrer,
Andando n'esse mundo sem saber
Aonde se vai dar com tanta briga.
O certo é respeitar a liberdade
E sorrir sem ser dono da verdade
Àquele que m'estende a mão amiga.
Belo Horizonte - 17 11 2018
👁️ 558
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❈ 𝐿𝓊𝒸𝒾𝒶𝓃𝒶 𝒜. 𝒮𝒸𝒽𝓁𝑒𝒾 ❈
2024-11-27
Lindos poemas ,meu caro!
Maria Antonieta Matos
2022-03-11
Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns<br />
edu2018
2018-06-11
POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!
namastibet
2018-04-21
bom vê-lo por aqui
rosafogo
2017-12-27
Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!
Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.
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