À DERIVA
Perdidos já o leme e a vela, corro
Os olhos pelo oceano a ver o abismo
Onde aprecio em meio ao cataclismo
Lindas sereias cantando enquanto morro.
Vem tão-só um petrel em meu socorro
E pouco pôde diante do que cismo
A tempestade é um vão paroxismo
Meu ao Universo sob olhar pachorro.
Não tenho muito tempo: Já a quilha
Deixará de sulcar às ondas altas,
Que se elevaram contra as minhas faltas.
Castigo ou não, resta a maravilha
De saber quanto pode o amor, por sorte
Em me levar, certeiro, até a morte.
Betim - 15 12 2015
À PRIMEIRA VISTA
Sim, eu quero te amar como se minha
Fosses por toda a vida, muito embora
Só te conheça há pouco mais d'uma hora
E sequer estivesses cá sozinha...
Chegando em ti eu nem sei porque vinha,
Mas confesso que já quero ir embora
Para, insolitamente, vermos lá fora
O quanto a tua boca me avizinha.
Se dissesse que te amo não mentiria,
Mesmo sem saber teu nome ou quem és:
Cuido que o Amor é cego ou vê de viés!
E deixo-me levar pela ousadia,
No avanço temerário onde o revés
Se oculta em luz de plena fantasia.
Betim - 08 02 2015
À MEIA LUZ
Cheirava a almiscarado e cigarrilha.
Interessante, mas... Assim-assim...
Não sei que se dirá ela de mim
Ou d'esse luar que, pleno, maravilha.
Vê-la tagarelar bem peralvilha,
Convenceu-me não ser de todo ruim
Deixar-me elanguescer, ainda e enfim,
Se, a despeito de nós, a lua brilha.
Fosse como fosse, era noite clara.
Pude notar-lhe ao rosto uma luz rara,
Enquanto o seu perfume me instigava.
Então, tudo era mais belo do que era...
Nem soube diferir n'esta quimera
Quem, de facto, a mulher que ali estava.
Betim - 29 01 2015
MOTU PROPRIO
Em sendo a vida toda uma ilusão,
Na qual o coração se nos engana,
De cada escolha feita ainda emana
A dúvida em seguir em frente ou não.
Andamos sem saber qual direcção
Em meio à multidão e à luz mundana,
A atravessar a faina quotidiana,
Na esperança do próximo verão…!
A ver… Ano após ano, a felicidade
Revela-se uma impossibilidade
A todo mundo pelo mundo todo.
De sorte que escolher é tão-somente
A arte de contentar-se co’o presente
E ser infeliz a seu próprio modo.
Betim - 08 03 2024
AO CAIR DA NOITE
Sobre as águas do rio, os ingazeiros
Avançam suas copas entre as margens
No afã de espalharem n'outras vargens
Sombrias os seus galhos sobranceiros.
Nada obstante, os lumes derradeiros
Vão apagando o verde das almargens
Ao obscurecer na noite as contramargens,
Que então se ocultam d'olhos passageiros.
Húmida, a mata à borda do caminho
Bafeja o seu frescor bem de mansinho
Em minhas faces tépidas e exaustas.
Paro e reparo o dia indo-se embora,
Ao pé da serra imensa que descora,
A ouvir dos juritis canções infaustas.
Juatuba - 13 06 2023
NEVES ETERNAS
O topo alcantilado da montanha,
Visto desde as estepes quase infindas,
Vem dar ao aventureiro boas-vindas
E após sua jornada ele acompanha.
Parte em caminhada assim tamanha
Em meio aos sós "aondes?..." ou aos "aindas!..."
Buscando as panorâmicas mais lindas,
Qual tesouros que ao léu a si apanha.
Alheio às incertezas do inaudito,
Nosso herói tomará o longo aclive
E um destino que temos por maldito.
Alcance a morte quem ousado vive,
Mas no topo estará ainda escrito
Junto a seu nome e a data: "Aqui estive".
Belo Horizonte – 10 01 2005
VERSOS D'ALCOVA
Ainda em meio ao banho, por espelhos,
Te observava os reflexos no azulejo.
Desnuda-se a beleza n’um lampejo:
Curvas d’ombros, seios, nádegas, joelhos...
Mas, se paixões desdenham de conselhos,
Baldo é ditar razões contra o desejo…!
Ao toque de meus dedos, suave arpejo,
Deixaste nossos corpos já parelhos.
Logo não serei mais do que a loucura
De, ávido, m’embriagar da formosura
De tuas nuas curvas femininas.
Após, abandonado sobre a alcova,
Com teus olhos nos meus eu me comova,
Revendo o teu prazer pelas retinas.
Belo Horizonte – 02 02 1992
AS AMAZONAS
Nuas, as duas belas se entreolharam,
Entregues aos prazeres mais proibidos.
Na embriaguez de desejos escondidos.
Admiradas de si, elas se amaram.
Logo os lábios das lésbias se tocaram.
E seus mamilos já intumescidos,
Como se figos alvos bem crescidos,
Uma à outra, dulcíssimos, beijaram.
Orvalhados os sexos, já arfantes
Se trocavam carícias delirantes
Com ardores e gozos inclementes.
Amazonas, guerreiras do amor,
Cavalgam-se com tríbade furor,
Para juntas tombarem inconscientes...
Belo Horizonte - 09 07 1993
O OLHO DE HÓRUS
O olho que a tudo vê, segundo diz
Todo aquele em mistérios iniciado,
Evoca do deus morto-e-reencarnado
A vingança contra o mal e seus ardis.
O olho que olha nos olhos do infeliz
E os atravessa a ver o que guardado:
Vidente do futuro e do passado,
Faz contemplar dos mortos seu país.
É quem sabe da vida após a morte,
N’um olhar que, profundo, nos conforte,
Até partirmos com ou sem revolta.
Pois símbolo d’aquilo que ninguém
Tem resposta quando olha para o Além…
N'ele, o Além para nós olha de volta.
Ouro Preto - 11 12 2022
INDECÊNCIAS
Mais promete a beleza da mulher
Quando faz recordar doces prazeres,
Mostrando os ombros nus entre afazeres
Para acender-me os olhos de querer.
Parece em me atentar mais s’entreter,
Certa de ter em mim novos lazeres.
Na ânsia de devorar-me sem talheres,
Chega perto demais por m’envolver:
Encosta no seu colo a minha face
De modo que ao virar-me (se eu ousasse…!)
Teria já meus lábios no seu sexo…
E depois de entreabrir o seu decote,
Chegaria fungando em meu cangote
Para me balbuciar coisas sem nexo…
Belo Horizonte - 13 08 1999