Lista de Poemas

Fake books ♦️


Os cuidados para não transmitir a covid-19 proliferaram as intermináveis “lives”.  Muitos comportamentos que antes não saíam de casa foram revelados. Numa audiência pública do estado do Amazonas, um desembargador nos brindou com um incidente hilário.

O desembargador Yedo Simões, do Tribunal de Justiça de Amazonas, equilibrou mal o cenário de estante com farta biblioteca atrás da cadeira. O acontecimento revelou muito mais que apenas uma coleção de livros falsa ou de “Facebook”. A queda levou junto uma ilibada reputação e notório saber jurídico.

Sei que exagerei no “diagnóstico” de uma simples biblioteca decorativa. Mas, observando estilos de vida “pra inglês ver”, recomendo o “chroma key”. O “Facebook” me ensinou que é possível aparecer com a Torre Eiffel ao fundo ou o Museu do Louvre; também pode-se posar em frente ao Coliseu ou à Torre de Pisa; vários optam pelas Pirâmides do Egito ou o Cristo Redentor. O cenário pode não ser tão icônico, embora cumpra o seu papel ao ilustrar quão o personagem da imagem é viajado, então a simulação pode ser feita com a “Time Square” ou o “skyline” de Nova York.

O inesperado episódio exemplifica quanto o brasileiro ainda valoriza parecer que lê ao invés de realmente ler. Tenho a suspeita de que o desembargador leu e lê muito, mas fez-se necessário exibir uma biblioteca de dar inveja, mesmo que irreal. Se a falcatrua “colasse, como todo vício, no futuro, o plano de fundo seria composto por algo parecido com a Biblioteca de Alexandria.

Não sei se o desembargador teve o cuidado de caprichar na composição da coleção literária, contratando uma curadoria especializada nos clássicos. Mesmo sem o devido cuidado, a trapalhada já é um clássico da desfaçatez. 

Bem melhor seria se o magistrado resolvesse divulgar a velha coleção da Playboy, os gibis da Turma da Mônica, uma coleção de bonecos ou suas “grafic novels” de super-heróis. Nerd sim, farsante nunca.

Conclusão, durante a sessão virtual, a biblioteca também era virtual.
👁️ 53

Inseto Insípido




Mas que coisa mais escrota

Esse monte de inseto

Que invade minha casa

Desde o solo, até o teto 




O maldito é equipado 

Com antena, coisa imunda

O pior é o vaga-lume

Que tem lâmpada na bunda




Tem besouro, pernilongo 

E barata voadora 

Só acaba minha agonia 

É na palha da vassoura 




Depois de uma chinelada 

A barata sai com vida,

Com as vísceras expostas,

Para um resto de comida




(Refrão)

| Naftalina, aletrina, fenotrina e efedrina 

| Quanto mais veneno solta,                    

| Bem maior o bicho volta                       

|                                                                

| É Matox, Baratox, Venenox e Rodox

| Se o veneno for Baygon, 

| Bicho acha muito bom







Eu achava esses “bichinho”

Pra saúde, bem nocivo 

Mas agora, “tô” pensando

Pode ser bem nutritivo 




Que a lesma seja frita 

E a barata torradinha

A aranha bem assada

E o besouro na casquinha 




Antes era um problema 

Hoje é uma solução 

Eu preparo meu banquete

Mando tudo pro fogão




Quando bate aquela fome 

Só existe uma saída 

Todo tipo de inseto 

Num bom prato de comida 




(Refrão)
👁️ 72

Walter Mercado ⭕️

A figura andrógina surgia, inconfundível, equilibrando uma pesadíssima capa. Falando um impecável portunhol, ornamentado com vários anéis, a já referida capa, grossa camada de maquiagem e muito laquê, aparecia na televisão, novamente, o astrólogo dos ricos e poderosos. Walter Mercado, o exótico esotérico.

Durante os anos 90, num momento de distração, eu era surpreendido, nos intervalos comerciais, com uma repentina e assustadora abertura de leque.

Estendendo o seu alcance à ralé esotérica, o guru surge, brilhante, oferecendo seus serviços, supostamente, divinatórios por telefone. Uma mensagem, bela e rasa, de livro de autoajuda de livraria de rodoviária, era emendada pela frase teatral, hipnótica e persuasiva, carregada de sotaque espanhol, “ligue djá”. A indefectível e conativa recomendação, repetida ad nauseam, virou bordão.

Essa astrologia de jornalzinho gratuito (dia bom para os negócios) ou de cartaz colado em poste (trago a pessoa amada em três dias) é patifaria de comum acordo. Não pode ser considerado “cair” em estelionato comprar uma “galinha dos ovos de ouro” achando que vai ficar rico; ou arrematar um punhado de “feijões mágicos” supondo se dar bem.

Semana passada, assisti, em streaming, um ótimo documentário sobre Walter Mercado. O filme humaniza aquele que, em suas aparições fugazes, era apenas uma personagem. Além disso, dirime uma dúvida: ele está vivo (recluso) ou morto?

O documentário desmistifica o místico, mas tenta dramatizar os estertores de uma pessoa como qualquer outra. Na verdade, ele era uma pessoa como nenhuma outra. 

Pois bem, seu manager aplicou-lhe um golpe, algo previsível para alguém muito rico. A idade avançada chegou e, com ela, a decadência física. Por isso, por mais grossa e pesada que a maquiagem fosse, não dava para disfarçar. Talvez o drama seja a batalha entre a vaidade e a decadência.

A obra cinematográfica serviu para eu ver com mais atenção uma figura extravagante que passara batida nos, televisivamente extravagantes anos 90 (Banheira do Gugu, Fantasia, Emmanuelle, Sushi Erótico, Latininho...).

O documentário acaba sendo uma homenagem, e o modo enfeitado como se vestia era como ele escolheu ser; assim como o Serguei quis viver como um rockstar, sendo apenas um doidão, desses facilmente encontrados num boteco de São Tomé das Letras ou num bar mais antigo da Vila Madalena. No entanto, ele se “apresentou” no Rock in Rio, sendo que nem sequer sabia cantar!

Walter Mercado foi um vendedor de sonhos enquanto vivia o seu.O
👁️ 71

A Justiça de calça curta ♦️

O advogado criminalista Alberto Toron parece, mas não é. Ele poderia ser encarado como uma vítima das “lives”da quarentena. Entretanto, durante uma sessão do Superior Tribunal de Justiça, ele recusou-se a levantar da cadeira de rodinhas para locomover-se ao fundo da sala. A câmera do computador revelou muito mais que o escárnio do advogado, exibiu, abaixo do paletó e gravata, algo muito curto, mas já sabemos que não se tratava de uma calça social, que supostamente estaria vestindo.

O traje inadequado e a preguiça, denunciada com a pusilanimidade como perambulou pela sala, são a tradução do termo sinecura (emprego ou cargo onde se trabalha pouco, mas ganha-se muito).

As escusas não ajudaram a dissipar a péssima impressão, já que ele explicou que estava vestindo apenas uma bermuda. A explicação talvez só tenha sido urdida para corroborar o descaso com a Justiça. Além de tudo, nota-se que o advogado usava sandálias. Ou seja, no conjunto, o que destoava de um traje de banho, eram apenas o paletó, a camisa social e a gravata, fora o ambiente, que deveria parecer sóbrio.

Outro que quebrou a liturgia do cargo: Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay). O advogado (caro), de gente muito encrencada com a Justiça, deve valer o que cobra, afinal frequenta o Supremo Tribunal Federal de bermuda, servindo de inspiração (ou inveja) e mau exemplo para outros advogados, como o indolente advogado criminalista Alberto Toron.

Ao adentrar uma repartição pública, todos são obrigados a obedecer um aviso rigoroso, sob pena da lei, exigindo; os trajes autorizados. Não é permitido desobedecer às normas em hipótese alguma. Aproveitando-se da cegueira da Justiça, esses advogados fazem o que querem, e ninguém reclama. O traje adequado é encarado como mera formalidade, sendo aceito muito a contragosto (por alguns). A maneira como resolvem se vestir simboliza aquela máxima: Todos são iguais perante a lei, mas uns são mais iguais que os outros.
👁️ 45

A cultura do cancelamento ♦️

A cultura do Cancelamento é muito antiga. Parece, mas isso não é novidade, só é mais fácil disseminar e obter maior alcance. Se não é, aqui no Brasil, o caso mais famoso, é um dos mais: Wilson Simonal. O cantor Lobão criou, ou apenas usa, o termo “simonalizar”. Lobão sofreu uma tentativa de cancelamento ou, como ele disse simonalização. Mas, também como ele diz, ele é “insimonalizável”. Cancelamento é sinônimo do neologismo “simonalização.

Wilson Simonal foi cancelado, quando esse conceito nem sequer existia. A história dele foi muito bem contada em excelentes livro e documentário. Dono de um talento sem fronteiras, Simonal foi relegado à condição de pária entre os artistas ou apenas não-pessoa. Um artista badalado, foi transformado numa alma penada.

Resumindo sua história, ele deu uma “prensa” num contador que o teria “passado pra trás”. Para isso,  contou com os “serviços” de policiais amigos e nada cordiais. Esse foi o estopim para Simonal ser tachado de informante (colaborador) da polícia. Tudo isso em pleno governo militar. Conclusão, ele foi proscrito no auge da popularidade. Um talento raro foi apagado para sempre.

Esse caso, que prova que a “cultura do cancelamento” não é uma novidade digital, embora traga muitas semelhanças (no método) com o que ocorre hoje. Para quem achava que a polarização política já tinha ido longe demais — com vírus de esquerda e remédio de direita —, isso ainda vai longe, esse é apenas mais um instrumento.

Retratado no livro 1984 (George Orwell), o “cancelamento” era um método de Estado. Consistia em apagar qualquer vestígio da existência do indivíduo que interessasse às autoridades. Hoje, a cultura do cancelamento — que não é apenas uma modinha inofensiva da internet — isola determinada pessoa, mantendo-a afastada de contratos publicitários, lugares e pessoas. Eis, novamente, alguém transformado em pária ou não-pessoa.

Essa nova (antiga) cultura é a atualização da lista negra e do enforcamento. A agonia em praça pública é o destino de quem ousou avançar os limites impostos pela ditadura vigilante e alcagueta do politicamente correto. Se fizer ou falar algo que desagrade patotas organizadas, antes você era cancelado na vida, agora você pode ser bloqueado nas redes sociais.
👁️ 57

Pode ser cômico, mesmo sendo trágico ♦️

A hipérbole da manchete “Tatuzão foi visto saindo do condomínio de Bolsonaro” não é mero exagero. Infelizmente o meme remete ao que nosso jornalismo se tornou. Relembra especificamente uma reportagem porca que o Jornal Nacional fez questão de exibir. 

Na tentativa de incriminar Jair Bolsonaro, demonstrando sintomas avançados de abstinência de verba, a Globo jogou no ar a matéria que ligaria o presidente à morte de Marielle Franco. Não deu. A estratégia não surtiu o efeito esperado, entretanto, além de desacreditar mais a “velha imprensa”, contribuiu para esse surreal meme.

João Doria, com sua sanha por ocupar a cadeira presidencial, conseguiu unir os paulistas contra o governador do próprio estado. Essa reação seria absurda se Doria fosse contido por um conselheiro amigo. Contido para não tentar destruir São Paulo ao obrigar o estado a fechar tudo e ninguém sair de casa num “lockdown” insano. Não bastasse isso, em plena pandemia “investiu” em propaganda, distribuindo dinheiro à imprensa e fez questão de aparecer sorrindo ou chorando onde existisse uma câmera fotográfica ou uma filmadora.

No dia primeiro de fevereiro ele foi obrigado a comparecer à maior reunião de equipamentos prontos para registrar seu pronunciamento diante da tragédia. Dessa vez as câmeras e microfones não eram bem-vindos.

Acelera, São Paulo! A avidez para fazer jus ao “slogan” pode ter contribuído com o acidente. Venho acompanhando as obras e realmente parecia que o “shield” (tatuzão) cumpria as ordens do governador.

A parte boa é que não houve vítimas; a cômica, são os memes, dentre eles:

— Bolsonaro fez a transposição do Rio São Francisco; Doria fez a transposição do Rio Tietê.

O principal meme é a montagem referida acima e a respectiva “reporcagem”.

Eu acreditava que João Doria seria um excelente, como ele gosta de se identificar, gestor. No entanto, ele se revelou um hábil marqueteiro de si mesmo. Foi fácil notar essas características quando ele alcançou o Palácio dos Bandeirantes. Contudo, recapitulando os calculados passos do “Aprendiz”, a farsa vem, pelo menos, desde quando ele se fantasiava de gari. Tudo que o político, constituído de plástico e cera, executa é milimetricamente medido para parecer palatável, cada gesto é pensado. Não é necessário muito “tirocínio” para notar isso.

Enfim, cada cargo público, para ele, é apenas um degrau no pau de sebo que tem como última escala a Presidência da República.


















👁️ 45

Pague para entrar, reze para sair ⭕️

Eu gostava muito de ir a parques decrépitos de bairro. Um fim de semana em Osasco, depois em Guarulhos, essas maravilhas do entretenimento barato reuniam baixa gastronomia, jogos de azar e brinquedos à beira de um desastre. 

Embarcar na montanha-russa era uma prova de fé, pois a, digamos, atração não via uma manutenção há muito tempo. Os reparos do parque deviam ser feitos por mecânicos de beira de estrada, porque eram verdadeiras gambiarras. Fiação exposta, arame, prego torto etc, tudo na base do improviso.

O trem fantasma possuía uma aparência macabra só por fora. Dentro, dava dó.  Cada vez que a luz acendia, causava um misto de gargalhadas e vergonha alheia. O trem era uma festa a fantasia, de Halloween. Os, supostos, monstros saíam de lá desmoralizados. 

O, assim chamado, Chapéu Mexicano era o “carrossel do capeta”. Um banquinho, preso por finíssimas e velhas correntes, aquilo girava vertiginosamente. Esse, perigosíssimo, brinquedo dava dois prazeres: quando começava e quando parava de girar.

No setor de jogos, não existiam sorte e azar, somente azar. A barraca de tiro era um convite para passar vergonha. Aquela pesada réplica de rifle possuía, como munição, uma levíssima rolha na ponta do cano. As garotas tinham que manter distância, afinal, aquilo era coisa pra homem. Eu, e creio que todos, fazia a mira, como se estivesse na Segunda Guerra Mundial, e disparava. O que saía da arma era uma ridícula rolha, como uma folha seca, em direção ao solo. Como prêmios: garrafa de pinga, conhaque, Cinar, Cinzano e maços de cigarros Continental. Ainda bem que, ainda criança, eu nunca levei um desses brindes. Todos os ganhadores devem ter chegado na  Cracolândia quando aquilo tudo era mato.

A roda da “fortuna” era meu jogo favorito. Consistia em uma roleta, onde havia escudos de times de futebol. Se a roleta parasse no time escolhido a grana apostada dobrava. O, por assim dizer, crupiê era sempre um malandro do Jogo do Bicho (correntinha, óculos escuros, palito na boca, andar enviesado e sotaque carioca). Lá, de fato eu ganhava, me sentindo num cassino em Las Vegas ou numa boca de jogo ilegal, na Baixada Fluminense. Eu só caía na real quando   gastava a bolada em refrigerante, salgadinho e bolo.

Apesar de parecer, e ser, um perigo iminente, eu nunca vi, nem soube, de um acidente nesses parques. No entanto, em parques impecáveis, acontecem até mortes.
👁️ 16

Corinthians e Santos na Capitania Hereditária de São Vicente 🔵

Eu estava bitolado no vestibular para cursar Jornalismo. História era uma das matérias cobradas. Apesar de eu gostar da matéria, precisava desintoxicar da imersão que havia feito nos últimos meses. 

Semifinal do Campeonato Brasileiro de 1998, eis a oportunidade perfeita para eu interromper temporariamente os estudos, vendo um “futibinha”, bebendo um chope gelado, jogando conversa fora e, quem sabe, gritando uns gols.

Meu amigo teve a ideia de assistir à partida no litoral de São Paulo. Por que não? Um excelente motivo para cancelar a infeliz aventura seria evitar descer a Serra numa motinho 125 cc e subi-la, provavelmente, levemente embriagado. Mas a precária e atribulada decisão venceram quaisquer critérios de segurança.

A viagem foi tranquila, apesar de barulhenta e, confesso, como o meu amigo era motoboy, me senti uma mercadoria que precisava ser entregue em tempo recorde. Desafiando caminhões e cortando carros, chegamos.

Ir numa moto 125 era o menor dos problemas. O principal problema foi descoberto na Baixada. Como eu havia me afundado na História, tudo era motivo para eu explicar o significado, a trajetória, os acontecimentos e a importância de alguns imóveis tombados e cada acidente geográfico da região histórica. Acho que fui bem chato, mas valeu pela revisão empírica.

No meu universo particular, eu estava na Capitania Hereditária de São Vicente da Terra de Vera Cruz. E, nessa paranoia, eu não poderia ser contrariado. Jamais. Tudo o que vi, necessitava urgente de reconstrução histórica. Se eu não fizesse urgentemente, ninguém iria fazê-lo, nem o CONDEPHAAT.

Nessa loucura Histórica, o Monte Serrat voltou a ser a Bolsa do Café, o Porto de Santos a ter um agitado mercado de escravos e Martim Afonso de Sousa fundou a primeira cidade do Brasil: a vizinha São Vicente.

Voltei para 1998 quando o jogo começou. Final da partida: 2 a 0. Como cada gol valia 1 chope grátis, economizamos algum dinheiro e eu, que já estava embriagado de História, fiquei com uma simples partida de futebol e um pouco de álcool.

O Corinthians venceu o campeonato daquele ano e eu passei no vestibular do ano seguinte.
👁️ 77

Pé “vermêio”


Lula não está confiando nas pesquisas eleitorais. Para constatar isso, basta observar sua movimentação pelos gabinetes pouco iluminados da política inconfessável. Fazendo uma caravana sem povo, Lula vem encontrando figuras que, há pouco tempo, ele mesmo recusaria ser flagrado junto.

Em, até há pouco, improvável, portanto inconfiável, aproximação, ele ameaçou oferecer a Alckmin o Ministério da Agricultura de porteira fechada. O ex-governador de São Paulo não se fez de rogado e querendo exibir algum talento relacionado à Pasta, postou um vídeo seu “capinando” um terreno.

Sinceramente, o outrora concorrente do petista não me pareceu nada convincente. Ele por ter julgado ser fácil engambelar o pré-candidato do PT, pois Dilma Rousseff chegou à Presidência porque sabia operar um “notebook”. 

Alckmin tem razão em correr demonstrar seu “talento”, afinal, não é todo dia que um ministério cai do céu. Entretanto, eu não provaria nem um pé-de-alface plantado pelo anestesista do Morumbi. Além de tudo, ter Alckmin (PSDB) por perto traz tanta segurança quanto ter Michel Temer como vice-presidente.

Contudo, não tiro a razão de Geraldo Alckmin. Se eu fosse contemplado com um ministério novinho e só meu, faria exatamente a mesma coisa. Se o Ministério da Pesca me fosse prometido, não pensaria duas vezes até arranjar um retrato meu num pesque-pague; se a oferta for a Pasta da Saúde, a única solução será um registro meu engolindo um comprimido para dor de cabeça; para o Ministério do Meio Ambiente, sacarei a perpetuação de um momento que eu usei uma sacola de pano do “Greenpeace” (confeccionada com fibras de cânhamo) para ir ao supermercado. Essa fotografia seria fundamental, pois além de provar minha aptidão (no estilo Alckmin) para o cargo, daria uma bela “lacrada”, bem do jeito que essa turma gosta.

Unindo o desespero do PT para se apoderar da máquina pública e o desespero de “servidores públicos” para ocupar qualquer cargo no Estado, vale tudo, até tentar a sorte lançando um retrato “pegando no pesado”. 

Provimento técnico é isso?
👁️ 55

Nobre vagabundo 🔵

Seres imaginários, habitantes de um universo paralelo, apenas quem não quer nada ou aqueles que ousam romper com a sociedade.

O Homem do Saco parecia ser tudo isso. Saído diretamente de alguma mente fértil ou de algum conto dos Irmãos Grimm, esse personagem foi inventado pelos antigos para assustar crianças. Segundo a lenda urbana, esta figura raptava as crianças, colocava num saco e sumia no mundo. Coisa leve para ameaçar o próprio filho. O andarilho estava personificado e parecia bem real, porque ele aglutinava as mazelas brasileiras numa pessoa só. Todo o temor atribuído a tão triste figura era injusto. Tinha uma barba de anos, cabelos desgrenhados e uma cor amarelada,  dos pés à cabeça, devido a uma duradoura falta de banho. Eu nunca o vi ameaçando ninguém, confesso que até me causava dó. O sujeito tinha o azar de carregar um velho saco de estopa nas costas. Isso era o suficiente para corroborar a antiga lenda, apavorando a sociedade. Ele tinha um olhar triste, mas não uma tristeza com os rumos dele e sim da Humanidade.

O  Bráz* não poderia ter o nome mais apropriado. Negro, cabelos brancos, aparência de um “Preto Velho”, carregava, como uma maldição, várias mazelas brasileiras: trabalhava o dia inteiro e, no caminho de casa, enchia a cara, ficando muito louco. Era fácil identificá-lo, lá no fim (e no meio) da rua ele vinha gritando: “ó”. Nunca o vi pronunciar outra coisa. O Bráz morreu atropelado por um ônibus no fim da rua onde eu morava. Provavelmente, ele estava no meio da rua e gritando “ó”.

Fuscão Preto, não se sabe de onde vinha, para onde ia ou o que fazia.  Um dia, ele “colou” na turminha e cantou a música “Fuscão Preto”, do Almir Rogério. Pronto, foi o suficiente para a molecada cair na gargalhada e o sujeito sair de lá batizado.

O Lokinho da Lata* era o único maluco que não era beleza. Acho que era louco patológico, do  tipo que necessitava de intervenção manicomial. Agressivo, esse cara transportava latas conseguidas não sei onde. Esse comportamento impedia qualquer aproximação, sob o risco de ser alvejado por uma embalagem de extrato de tomate Elefante ou de ervilha Jurema.

Eu me lembro de algumas figuras que tiveram uma passagem fugaz e, aparentemente, sem importância. No entanto, por mais rápida e repelente que a simples presença representava, eles geraram reflexão sobre a vida... e esta crônica.




* Bráz e Lokinho, tomei a liberdade de escrever da maneira que eu imaginei.
👁️ 69

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments