Lista de Poemas
🔴 “Você é fotógrafo ou tomador da minha água?”
Luiz Inácio Lula da Silva, Lula, teve a sua vociferação raivosa interrompida. Um pobre fotógrafo teve sua paz impedida por alguém que suplicou que arrancasse a garrafinha do pré-candidato. O tomador de imagens, atribulado com a difícil tarefa de flagrá-lo com uma aparência bonachona, deve ter tremido de medo, quando o chefe, vermelho como um peru, inchado, suado, fala pastosa e olhos fixos e esbugalhados, perguntou: “Você é fotógrafo ou tomador da minha água?”
O fotógrafo Ricardo Stuckert, em Porto Alegre, representou o povo brasileiro. Tivemos uma difícil oportunidade, antes das eleições, de observar o demiurgo, sem o edulcorante marqueteiro, em estado natural.
Sem dependermos somente das mídias tradicionais, na internet podemos ver (e rever) o petista cometendo seus “sincericídios”: chutando quaisquer números, brigando com sua equipe, reclamando do público etc. Sem a mágica marqueteira, o recém-casado não consegue ser gente boa.
Falando em recém-casado, amando e líder nas pesquisas, ele deveria estar mais alegre. Mas não é isso o que vemos, ao contrário, testemunhamos um sujeito raivoso, de mal com a vida e querendo se vingar da Humanidade. A pergunta é: por quê? Como eu não confio no DataFolha, só me resta botar fé na Janja. Nem a conheço, mas a julgar pela qualidade da garrafa de vinho encontrada em seu lixo, a moça não tem culpa do ódio.
Lula quer fazer uma campanha à Presidência sem o povo. Este, depois de ser furtado pelo ex-presidiário, o recebe sob xingamentos. Tendo mais este motivo para evitar contatos, o partido dos Trabalhadores (PT) tramou e inventou a “Caravana Digital”. Espécie de caravana imóvel, o evento mantém a salubridade de todos. Em ambientes controlados, plateia favorável e jornalistas amigos, o postulante atrabiliário segue intimidando e se escondendo.
Concordo quando dizem que nunca foi tão fácil escolher. Se na campanha é assim, imaginem durante o mandato. O pré-candidato não tem promessas, tem ameaças.
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🔵 Nocaute doméstico
Todo irmãozinho atormenta a vida dos mais velhos. E eu, como um irmão menor comum, cumpri o meu papel, enchi a paciência da minha irmã.
Não sei se o mais irritante era a minha voz infantil ou as “groselhas” que eu disse, também infantis, Eu, exercendo os meus direitos universais de criança, falei até ser neutralizado com um direto de direita. Confesso, fiz uma doação de sangue compulsória. Como a sala de minha casa não era um ambiente apropriado para o que poderia ser interpretado como um gesto altruísta, nem havia o recipiente adequado, o chão recebeu uma enxurrada de A .
Também tenho que admitir, chorei. A cena deve ter sido bem dramática: ajoelhado e chorando, espalhei o líquido vermelho na barra da calça da minha irmã, gastando o meu pequeno dicionário de impropérios.
No meu respeitoso cartel de combates, essa foi a única vez que alguém me deu um soco; pela educação, bem como os modos de minha irmã mais velha, acredito que essa deve ter sido a solitária oportunidade que ela “enfiou a mão na cara” de um outro ser humano. Se bem que eu não era dotado de tanta humanidade assim. Uma criança e uma adolescente pode ser uma combinação explosiva. E foi. Se alguém ali tivesse o mínimo de conhecimento jurídico, eu teria sido recolhido dali direto para a FEBEM (atual Fundação CASA). Porém, fui poupado de mais esta humilhação.
Poderia durar apenas uns dias, entretanto demorou décadas para essa mágoa cicatrizar. Confesso aqui, toda vez que andei armado pensei em me vingar daquele direto de direita. Contudo, não o fiz. Achei que seria deprimente demais confessar o porquê do assassinato e, além de tudo, ser aprendido. Preferi esconder esse rancor, guardar a mágoa e manter o silêncio, acreditando que a outra parte adotaria igual comportamento. Sem testemunhas, botei fé que o ocorrido permaneceria guardado a 7 chaves e enterrado. No entanto, não foi isso o que aconteceu e desde então mantenho conspurcado o meu desempenho nos ringues amadores.
Sei que esse embaraçoso episódio foi vergonhoso o bastante para ser eternizado numa crônica, mas finalmente me livrei desse fardo. Agora eu me sinto bem mais leve. Já era tempo. Graças a Deus...
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🔵 Sai, capeta
Um sábado de noite. Uma pista de dança. Músicas com vozes guturais. Uma tribo urbana: os góticos. A casa noturna tinha um nome pouco convidativo: Morcegóvia, o figurino da galera dava credibilidade ao nome da casa. Entretanto, o nome anterior da lendária casa noturna era bem mais assustador: Madame Satã.
Frequentei algumas vezes o lugar, de modo que os góticos começaram a ficar mais parecidos com os humanos, e as garotas vestidas com roupas emulando o século XIX (Inglaterra Vitoriana), contrastando com meu “jeans” e camiseta, eram bem interessantes.
O som facilmente transportava para um estado alterado de consciência, e a atenção focada nas danças repetitivas geravam noção periférica restrita. O conjunto de estímulos facilmente levava muitos a um estado de transe. A farta oferta de álcool completava o serviço imundo. Pronto, um bando de jovens com os dois pés em outra dimensão e “abraçados” com entidades obsessoras. Nesse clima, iluminado apenas pela luz estroboscópica, tive a impressão de que o porão, que servia de pista de dança, estava mais frequentado do que meus olhos podiam enxergar.
Estava tudo armado para ocorrer o que de fato aconteceu. Uma moça linda, com um vestido preto e badulaques, entrou no centro do porão (pista) e iniciou alguns movimentos muito particulares. Ela era uma bruxinha moderna ou, no mínimo, uma praticante da religião neopagã “Wicca”. Foi como se a bruxa caísse ajoelhada, se contorcendo no centro de um pentagrama cercado por velas. Os frequentadores da casa, como fiéis, idolatraram a moça convertida a uma divindade. Eu, entre eles, inocentemente poderia estar invocando forças ocultas.
Ainda não cheguei à conclusão se aquilo foi um ritual pagão ou uma dança macabra, só sei que fui cooptado e, compulsoriamente, celebrei o que pode ter sido uma missa negra. Já não me surpreenderia se um sacerdote do Mal adentrasse o recinto carregando um cálice e servisse sangue humano. Se eu bebesse, fatalmente estaria entregue ao Reino das Sombras.
Um evento dá legitimidade ao ocorrido e corrobora a desconfiança de que aquilo não era mais uma pista de dança, e as forças presentes não eram positivas. Meu amigo usou esta história como “Testemunho” para se converter para uma igreja evangélica.
Definitivamente, esta não foi uma noite de sábado qualquer, e aprendi a não seguir qualquer canto de sereia.
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🔵 Figuras
Acordar no sábado e descobrir que seus amigos começaram uma coleção de figurinhas de futebol sem te avisar é considerado alta traição. Como forca, cadeira elétrica ou injeção letal, além de não utilizados no Brasil, são castigos incompatíveis com o delito, as penas não foram aplicadas. Preferi adquirir, mesmo depois, o álbum e algumas figurinhas.
O meu senso de qualidade e valor financeiro ainda não estavam apurados, talvez por causa do orgulho infantil de obter “a grande novidade”. O fato é que: os cromos eram porcamente impressos, o álbum era interminável, havia times insignificantes, como o Tuna Luso e “prêmios” como: utilidades domésticas incompletáveis. Não bastasse a péssima qualidade do produto, o nome daquilo era... ‘Trá-lá-lá de Ouro’. O “de Ouro” talvez fosse para agregar valor à porcaria toda. Funcionou.
Viramos escravos do lixo e, pior, só pretendíamos largar aquela coisa quando terminássemos a coleção. Isso não se faz com uma criança, neste caso, três. Como todo estelionato, esse, atraiu pela cobiça.
A coleção foi bem, até certo ponto. Mas as horríveis panela de pressão, batedeira e liquidificador, enfim as utilidades domésticas, nunca completavam. A perspicácia tardia nos ajudou a concluir que havíamos sido enganados. Para dramatizar mais a situação, não encontramos mais ninguém com o material. A qualidade era tão desprezível, que não havia comércio, nem troca, nem “bafo” (jogo). “Morremos” com o material... Ir à banca de jornal e pedir o reembolso não era uma opção. A solução mais sensata foi admitir a derrota e abandonar o álbum incompleto.
Enquanto eu torrava meus surrados trocados no álbum de figurinhas pessimamente acabado, ridiculamente impresso e grudado porcamente com uma tóxica cola escolar, minha irmã desfilava com os impecavelmente acabados, cuidadosamente impressos e minuciosamente colados (autocolantes), mas enfadonhos ‘Amar é...’ e ‘Bem Me Quer’. Era muita humilhação.
Por mais que eu desqualificasse os álbuns femininos, faltavam argumentos para defender um produto de estelionato que chamava... ‘Trá-lá-lá de Ouro’.
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🔴 Fazendas aqui, florestas lá
EUA — a agricultura “invade” áreas de conservação ambiental.
Alemanha — destrói floresta de 12.000 anos para extração de carvão; alguns vilarejos, que estavam no caminho, também não foram poupados.
Não só faltou quórum, como houve falta de “tweets”, também faltou o barquinho da Greta e o deslocamento da brava lancha do Greenpeace. Algo tão grave, e o que se viu foi o ensurdecedor silêncio dos “lacradores” de ocasião. Esses “lacradores” (que eu citarei os nomes), além das suas respectivas profissões, encontraram no falso ambientalismo um meio de vida. A perseguição travestida de preocupação ambiental garante a subsistência desses aproveitadores. É um meio de vida e a sinalização de virtude num só tuíte.
ONGs, ambientalistas, Emmanuel Macron, Leonardo DiCaprio e Greta Thunberg ficam calados. Devem estar cansados de se meter na Amazônia. Ora preservando “nossas girafas, ora postando fotos antigas de queimadas, esses personagens aproveitam os dividendos de acenar para uma falsa preocupação e de quebra mostram para o mundo que são anti-Bolsonaro. Nunca foi para salvar o planeta, se fosse, a poluição provocada pela China e os mega-incêndios ao redor do mundo incomodariam e acionariam os ativistas citados. No entanto, eles só se interessam pelo Brasil. Por quê?
Com a pandemia e a guerra, nossos “heróis” tomaram um choque de realidade, pararam de tentar mudar o mundo e se ensimesmaram. O instinto de sobrevivência se impôs sobre uma agenda secundária. Certas reivindicações voltaram a ser supérfluas. Quem vivia de “lutar” por pautas claramente secundárias, como banheiros trans, assustaram-se, pois a realidade se impôs como uma bigorna. E agora, fazer o quê?
Se você pensa que está livre da choradeira de Emmanuel Macron, dos discursos teleguiados, na ONU, da manipulada Greta Thunberg, dos “posts” alarmistas de Leonardo DiCaprio, do pedido de socorro enganador de muitas ONGs (sem o “N”) e ambientalistas, não se engane, quando tudo retornar àquela calmaria, a Organização das Nações Unidas (ONU) sacará a Agenda 2030.
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⚫️ Sucesso internacional
Ouvi que a cantora Anitta é sucesso internacional. Parabéns. O sucesso, atualmente, é medido por visualizações; vendas, esqueça. Dizem que a Anitta (a equipe dela) impulsionou o número de visualizações. Não precisava. Por curiosidade, eu talvez escute alguma composição musical da cantora. Talvez.
Ouvindo Quincy Jones no Spotify, trombei com a canção Desafinado de Newton Mendonça e Antonio Carlos Jobim. Isso, sim, é sucesso internacional. Eu já tive a feliz experiência de ver e ouvir alguém da Bossa Nova sendo paparicado pelos “gringos”, não o contrário. Agora, no Spotify, estava ouvindo música americana, de repente toca uma música brasileira de 1959.
A Anitta está garimpando o espaço dela. Ainda que seja numa dancinha do Neymar, na bandeira de escanteio, depois de um gol; no”Brazilian Day”; num festival (categoria “World Music”); até mesmo ganhando o “Grammy” de música latina, a cantora tem méritos. Mas impulsionar o número de visualizações é covardia. Chega a dar saudade da entrega de disco de ouro no Cassino do Chacrinha.
Meu “sucessômetro” é sintonizar o rádio e ser obrigado a ouvir uma música que você odeia; ligar a TV e deparar com a apresentação ao vivo daquele grupo que você não quer ver; passar em frente a Casas Bahia e ter que aguentar a canção antes, durante e depois da passagem em frente à loja; e ir dormir lembrando toda a melodia. Não tem como fugir nem negar, a música chiclete, isso é sucesso.
Visualizações não significam sucesso, muito menos talento. É muito comum algum vídeo “trash” render uma enxurrada de cliques atrás de boas risadas: quem se lembra de Rebecca Black e seu “hit” Friday? Justamente, a má qualidade pode atrair audiência.
Os LP’s e CD’s eternizaram o fenômeno de levar às lojas quem realmente curtia alguma faixa do disco; diferentemente, o clique não custa nada, isso gera distorções.
Sinceramente, só conheço uma canção da Anitta, antiga. Atual, não conheço nenhuma nem estou com vontade de escutar alguma no Spotify ou Deezer. Talvez eu espere uma dancinha do Neymar ou algum “hit” grudar na minha cabeça.
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⚫️ Emojis ou emoticons
Não, ninguém deve ficar contente ou triste, ou melhor, dotado de ataraxia, não deve reagir ao receber o aparentemente inofensivo “emoji” Os emojis tem a nobre função de simplificar um pensamento. Com uma, quase infantil, imagem, o emissor exerce seu poder de concisão, desde a ofensa até o elogio.
O emoji do cocô, ao qual me refiro, cumpre esta função, mas vai além; ofende, carregando o eufemismo patente ao exibir olhos e boca amigáveis. Quem envia a figura revela, ao mesmo tempo, covardia de enfiar a mão na cara e a intenção de rejeitar a pessoa ou o que ela diz.
Às vezes, a pessoa não tem o menor traquejo para zombar de outro ser vivo. Porém, essa criatura, que sempre foi vista como alguém incapaz de pisar numa formiguinha, destrói uma vida apenas com um desenho simples.
Seja para depreciação, seja para elogio, o envio da figurinha resolve dois problemas: o primeiro, dá coragem para ofender qualquer um e segurança, ao evitar o tapa imediato; o segundo, também traz a súbita coragem, entretanto, impossibilita um rápido “feedback”.
Em tempos de Rivotril, Dormonid, Diazepan e demais remédios “tarja preta”, bem como os tratamentos infantis, tentam aplacar o estrago que um emoji pode causar.
Entretanto, existe a ‘carinha feliz’ para salvar tudo. Esta outra figurinha traz consigo o poder de salvar o dia ou a vida de uma pessoa. Se “like” ou “deslike” tem o poder de liberar neurotransmissores responsáveis pelo prazer, os emojis “do bem”, dependendo de quem envia, exercem um resultado muito mais satisfatório.
A existência era mais simples com os emoticons. Bastavam alguns caracteres para gritar para o mundo o seu estado de espírito: alegre :-) e triste :-( . Havia outras modalidades, mas essas, apesar da tosquice extrema, não elevavam a baixa autoestima de ninguém.
Esta filosofia de boteco é um exercício sobre algo não levado a sério, até ignorado, mas que revela muito da alma humana. Muito parecido com o que já representaram os ‘bichinhos virtuais’ (Tamagochi) e os ‘caçadores de Pokemons’
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🔴 “Dá que eu te dou outra”
Bolsoringa, corruptela das palavras Bolsonaro e Coringa, traduz o comportamento destruidor do Capitão. Cansado de ser enganado por políticos polidos, fala mansa, ternos bem cortados e respeitadores da chamada liturgia do cargo, articulando às escondidas, ciosamente costurando exitosos acordos e dialogando com a oposição, queria um presidente que chegasse chutando a porta, voando com os dois pés no peito, malucão, boquirroto e com um portfólio de piadas ruins (tiozão do churrasco).
O sujeito sem modos, até engraçado, de um autoritarismo folclórico, anacrônico é o presidente. O frequentador de programas “trash”, como o SuperPop, e zoado no CQC, chegou lá. No início, achei bem cômico aquele militar sisudo e mal ajambrado, nos aeroportos, sendo carregado nos ombros aos gritos de “1,2,3... 4,5mil... queremos Bolsonaro, presidente do Brasil”. Sinceramente, achei que era curtição da molecada a fim de colher algumas boas fotografias para o Facebook. Engano. O cara estava sendo conduzido ao “trono”. “Trono” que, segundo ele, só Deus tira ele de lá.
Tirá-lo de lá, ou pelo menos evitar sua reeleição, é a razão de viver (“leitmotiv”) de muitos. Supremo Tribunal Federal (STF), Tribunal Superior Eleitoral (TSE), velha imprensa e pessoas que ficam mais felizes quando chega o motoboy trazendo uma “meia frango com Catupiry, meia quatro queijos” do que quando chega água no Nordeste.
A resistência de ministros do STF, que esticam seus tentáculos ao TSE, joga o obscuro sistema eleitoral ainda mais em suspeita. Pavimentando o caminho para os antiBolsonaro e complicando a vida dos apoiadores do Bolsonaro, os ministros fazem conluios, propagandas, reuniões e jantares com a oposição. Os conluios, manobras e muitas ilegalidades vão sendo realizadas escondidas nas frases contendo as palavras e expressões “democracia” (e derivadas), “republicano” e “Estado democrático de direito”.
A situação nunca esteve boa, e agora observamos a olho nu uma força-tarefa e a oposição se movimentando para sabotar e derrubar o governo atual. Com essas investidas, o maior prejudicado é o povo. E eles não estão nem aí. Por isso tem que ter alguém malucão lá: Bolsoringa.
Bolsonaro não só é refratário a todo tipo de ofensa, como cresce em popularidade. Como não surtiu o efeito esperado, as ofensas são dirigidas aos seus eleitores. Recentemente, Paola Carosella chamou-os de “burros e escrotos”; Joice Hasselmann, usando a mesma tática desesperada e suicida, classificou-os como “asquerosos e lixo em forma de gente”. Todo esse “ódio do bem” revela o desespero, principalmente da política Joice.
Antes, acreditávamos na infiltração de bandidos (disfarçados) utilizando as instituições a serviço do crime; hoje, ficamos surpresos com a “bandidolatria”. Eles estão aí.
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🔵 Eu poderia estar roubando, matando...
Eu apenas preciso que o transporte me leve do ponto A para o ponto B. Mas não é isso o que acontece. Sobretudo nos trens, vendedores oferecem comidas — à base de corante, aromatizante, conservante, acidulante e gordura vegetal — vencidas em troca do meu sagrado dinheirinho.
Eles surgem por baixo das catracas dos ônibus ou do fundo do vagão do Metrô ou trem ameaçando os passageiros com o seguinte discurso: “Eu poderia estar roubando, poderia estar matando, mas estou vendendo estas balas…”. Para despertar alguma empatia, a desgraça não podia ser pouca, então ele elencou um combo de mazelas para todos os seus familiares. Exemplos: unha encravada, câncer, desemprego e dívidas. De cara, sou levado a pensar: Que cara legal! Depois, penso: Que azar, mas ao menos ele tem alternativas, eu sou obrigado a cumprir meu horário na empresa. Finalmente, raciocino melhor e concluo: se ele poderia estar roubando ou matando, a vítima poderia ser eu. Isso foi uma ameaça.
Entretanto, enquanto eu fiquei filosofando, o vendedor — que tão generosamente optou por trabalhar em vez de roubar e matar —, ligeiramente, equilibrou um pacote de balas sobre minha coxa esquerda. Eu observei aquilo, confesso, ignorando a desastrosa estratégia de venda, esperando que o objeto fosse recolhido ou minha estação chegasse. Mas resolvi examinar a embalagem. Além de exibir um vencimento digno de interdição da Anvisa, o pacotinho denunciava que o doce viajou, em diversos colos, do Tucuruvi ao Jabaquara umas quatro vezes.
Dirigindo, também não escapo dos ambulantes. Percebo que não há nada por perto, quando sou retido pelo semáforo (sinaleira) vermelho. Durante algum tempo, foi uma coqueluche em São Paulo os circos-escolas. A iniciativa foi boa, contudo o que se viu foi a proliferação de mendigos malabaristas nos semáforos. Começaram a aparecer mímicos. Bastava acender a luz vermelha para a faixa de pedestres virar um picadeiro. No início, até que era legal, os mímicos, com a cara cheia de pó-de-arroz e usando um chapéu coco, coloriam o dia com ares de Cirque du Soleil; mas, pouco tempo depois, eu tinha vontade de, quando o farol verde abrisse, sair como um carro de Fórmula 1.
No trânsito, nas Marginais ou nas rodovias, por mais isolado que seja o local, sempre surge, do nada, um vendedor de videogame ou carregador de celular. Eu me pergunto: quem compra um videogame Polystation nessa situação (os em qualquer outra)? Nunca me passou pela cabeça, alguém resolvendo comprar um videogame no trânsito. Tem que ser muito desavisado e ter muita fé para crer que um aparelho da Polystation, adquirido nessas condições, vai funcionar.
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🔵 Colheita maldita
Não é recomendável nenhum jeito para se começar a fumar, entretanto eu descobri na prática como não se deve tentar aprender. Pensando bem, é possível que essa experiência tenha afastado toda a tendência de viver viciado em tabaco.
Foi numa cidadezinha nas montanhas do Rio Grande do Sul. É um perigo passar as férias, com um moleque de 14 anos, numa fazenda com plantação de fumo. Parece óbvio que, com a curiosidade intrínseca à idade, o pirralho quererá consumir o produto “in natura”.
Um garoto da cidade vivendo o turismo rural e com uma farta oferta de entorpecente era uma combinação explosiva. O que antes eu apenas presenciara nos caixas de padarias, agora poderia ser calculado em hectares.
Ah, as belezas da natureza e as delícias da fazenda! Contudo o perigo estava lá, dia e noite, plantado, defumando, me provocando quando desfila num carro de boi. Mas chegaria a hora em que eu e a matéria-prima da Souza Cruz nos encontraríamos.
Certo dia, cansado da rotina do campo a ponto de sentir saudade do prédio da Fiesp, depois de cortar lenha a machadadas, eu e meu amigo resolvemos visitar as folhas de fumo que descansavam no defumador. No nosso mal-formado juízo, o produto já estava pronto para consumo.
Abrindo aquele cômodo, foi legal ver aquelas folhas, que recheariam os cigarros, enfileiradas. Confesso que eu ainda preferiria encontrar aquela salinha cheia de biscoitos São Luiz. Mas era chegado o momento de eu virar um “adulto” na marra. Ter ido passar as férias cercado por um latifúndio de tabaco, só poderia ser um sinal do destino!
Escolhemos o vegetal, enrolamos e acendemos o “charuto”. Que mal poderia fazer se era uma erva natural? Traguei como o cowboy da Marlboro, e tossi como eu mesmo. Abruptamente, voltei a realidade e, achando a erva muito amarga e tóxica, comecei a achar o chimarrão palatável.
O que tinha tudo pra ser um rito de passagem perfeito, marcando exatamente o final da infância e o início da vida adulta, foi um episódio traumático. Depois, vim a saber que nenhuma forma de aprender a fumar é interessante. Talvez, a terrível aventura tenha servido para encerrar a curiosidade. Ah, eu continuei viciado em biscoitos São Luiz.
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