Escritas

Lista de Poemas

FLOR DESPETALADA

Alguém machucou
seu coração dizendo-lhe que
me viu cachorrando
por aí.

Com a singra no peito,
ela foi averiguar o maldito dito,
e me viu cachorrando
por aí.

E eu, que realmente
a amo, mesmo cachorrando
dissimuladamente
por aí,

e que me escondia
para não fazê-la sofrer, só queria saber
quem foi o grande filha da puta
que lhe contou isso.
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MANEQUIM

Foram de líquido
as sublimes palavras de tua boca,
por isso desaguaram nos rasos
precipícios dos mares;

foram de pluma
os cândidos sonhos de tuas insensatezes,
por isso sumiram às rajadas
vazantes dos ventos;

foram de reticências
as pálidas tessituras de tua mente,
por isso se desenharam em insanas
concupiscências às telas
mambembes;

foram de chumbo
as imanentes vesanias de teu cerne,
por isso nos conduziram
a torrenciais chuvas
de fogo,

e à odiosa
e inexorável morte - em mim -
de tuas faustas e infames
asas.
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UMA VITÓRIA APÓS A MORTE!

E atravessaram,
enfim - poeta e poetisa -, as frias
e voláteis grades das
verbalizações;

e se amaram - onírica,
silente e distantemente - com versos secretos,
corpos ausentes e fulgurosas
imaginações;

e com tal fulgor
que não esperaram sequer serem servidos
do doce e infinito cântaro
de sublime união;

logo eles, conhecedores
do quão difícil seria voltarem à laiva
e dura realidade, com suas almas
em exausta desilusão.
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EU VI

Sim,
de esguelha,
eu vi por entre as horas
e as ondas incertas:

há sonhos e esperanças
aos jardins outonais, há desejos
e concupiscências aos leitos
caudais;

lendas e mitos
vão colher frutas nos pomares,
homens vão cair com seus
lumes bipolares.
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MUTAÇÕES

Ao alvorecer,
entre as coisas singras
do mundo,

aprendi a fertilizar
vazios, com as incautas salivas
do verbo.

Ao entardecer,
entre as metamorfoses dos pássaros
e das borboletas,

já era céus,
mares e sonhos no disfarce
plácido.

Ao crepúsculo,
pela primeira vez, resolvi contemplar
meu envilecido reflexo

e percebi que era,
na verdade, um penhasco
taciturno.

À noite,
fria e insone, com o cálice vazio
entre destroços e cinzas
rupestres,

ando-me a esperar,
em convulsões íntimas, meu definitivo
estio de mim

no apagar-se
das faustas e degeneradas
luzes do palco.
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O PULSO

Pulsa o hieróglifo
da existência:
os soberbos pássaros
- que colecionam imagens, sonhos,
pedras e musgos - não estão
libertos em seus viveiros
de ouro.

Há ecos de dor entre
as paredes:

por isso mandem livros
aos prisioneiros, contando-lhes
as estórias dos poetas, das lendas
e dos cancioneiros.

Mas, para que
não morram na alfama,
não deixem que descubram
a grande verdade:

de que são aves
absolutamente planas,
e de que as grades são feitas
de ebriedades

originadas de suas
mentes insanas e de suas salivas
humanas.
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O BAILE CHEGOU AO FIM

Pensei que um dia
descansaríamos em caminhos
que não se convergissem
em chuvas de fogo,

ausentes da rigorosa
complexidade de nossos cernes,
dos malfazejos versos
de nossas bocas,

dos rútilos devaneios
de nossas mentes, dos inalcançáveis silêncios
de nossos sonhos e das afiadas lâminas
de nossas fantasias.

Mas, de minha falésia
ao árido deserto, onde não mais podes
me escorrer tua seiva, e de onde
não mais posso descortinar
teus véus,

ainda guardo reminiscências
de teu cântaro esquálido, de tua alma
nevoenta, de tuas enigmáticas
reticências

e de tuas sílabas juncas
a forjarem alvos arrebóis em itinerários
de pseudoliberdade, onde tantas
e tantas vezes te caías
camuflada.

Ainda bem que outros pássaros,
também puristas como tu, apaziguaram-te
com novos sonhos, alegorias, versos,
concupiscências e salivas
ébrias;

ainda bem que não mais
podes me ver com tempestades na retina,
a lutar, enquanto não se extingue o dia,
contra minhas próprias
apocrifias,

que tantas vezes
me conduziram a soberbos voos
e cruciantes quedas - junto com meus
semelhantes sapiens -

nas dissimuladas coreografias
da vida.
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O CIRCO CHEGOU!

Neandertais amanhecem
embriagaos em ondulações lumes,
a descobrirem os pálidos véus
das sombras inocentes

e a adornarem os vazios ermos
com plenitudes figuradas.

Pelos chãos pavimentados
de melodias chilreadas por pássaros
azuis e de cheiros aspergidos
por flores madrigais,

caminho buscando
algum sentido em cada ato
e em cada passo entre o estranho
magnetismo da coisas,

não obstante
sempre me afogando em algum rio
de turvas águas, ou em alguma
viela escura e alagada.
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LOUR

Quero esconder-me
nas paredes da nova casa,

a casa que aguardou meu regresso,
com meu fiel espelho pendurado
na sala;

quero retornar
à casa nova com nossas noites de amor,
de chuvas de fogo, de incontroláveis
desejos e também de severos
pesadelos.

Não quero mais ficar
adoecido da sepultada, qnquanto me aguarda
e me acolhe a casa nova,

que, como eu,
não acredita em amores infinitos,
mas que sabe fazer com que o momento
se torne perpétuo!
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CHUVAS QUE LAVAM AS ALMAS

Gosto de quando chove
e os homens ficam quietos
nos parâmetros faustos
do mundo.

Gosto de quando chove
e se afastam de mim os vestígios púmbleos
dos contínuos ciclos abnormais
salpicados nos desalinhos.

Gosto de quando chove
e me escondo em meu canto,
anoitecendo-me em claustro silêncio,
de onde não posso ver nem atuar
nos entrevados palcos
de concretos.

Gosto de quando chove,
porque tento me desfazer - em vão - também
de meus próprios vestígios espúrios,
lançando-os às enxurradas
dos precipícios.

Mas, quando a chuva para,
perco com o líquido o momento onírico
e retorno à coleção de imagens
e de superficialidades
cimentais,

com minhas performances
dissimuladas e com meus versos
escumalhados.
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Comentários (7)

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fernanda_xerez
fernanda_xerez
2018-08-17

SEMPRE SUSPREENDE-ME COM TUA INESGOTÁVEL INSPIRAÇÃO. AMO TEUS POEMAS PARA A FLOR DE INVERNO, sinceramente. Saudações Alenarinas da Flor*

fernanda_xerez
fernanda_xerez
2018-02-26

Por tudo, mais uma vez, obrigada! ¨¨¨¨¨Beijo_Flor*

Trivium
Trivium
2018-01-09

Olá, cara. Gostei bastante desta poesia tua. Você com partilha suas poesias em algum outro site que não este?

fernanda_xerez
fernanda_xerez
2017-12-23

E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.

fernanda_xerez
fernanda_xerez
2017-12-23

Lindo e provocante!