Lista de Poemas
PIEDADE
Flanam alto
Buscando longínquas correntes
Cardumes seguem
Dançando determinados
No profundo fluxo das aguas
E eu aqui solitário
Com os pés fincados nos medos
Versejando a deriva abobalhado
Achando que recolho e espalho
As mais incríveis e inusitadas emoções
Céus e mares tenham de mim piedade!
AO CAIR DA TARDE
Lapidadas canções
Para o vento cantar
Lá pelos mares da lua
Nas geleiras o Ártico
Sobre as dunas dos desertos
Entre as linhas dos Trópicos
Ao meio dia ou no meio da noite
Mas o que ela ouve mesmo
São alguns tímidos versos
Que me passam despercebidos
Ao cair da tarde
No porvir da manhã
Enquanto a frágil brisa
Lhe desmancha os cabelos
E o sussurro que alisa
A saudade que lhe arde
REMENDOS
Troco a capa e o aspecto
No entanto pouco me esforço
Em agir diferente.
Ainda que limpo e cheiroso
De vestes mundanas
Fico me repetindo a cada segundo
Como se a novidade pouco viesse
Ao meu mundo além dos panos
E não reciclasse o que penso
Porque nunca apreendo.
Nenhum plano me repreende
Somente a nudez me põe ousado.
Não compreendo afinal
Porque desaprendo
Como o tecido que se desgasta.
Talvez não calcule o que estudo
Não absorva o que leio
Não leia o que estimule
A passar ileso
Por esse circo de comédia.
Porem acredito ser possível
Consumir entre remendos
A rotina que me entedia.
SOMBRA E LUZ
Debaixo, de lado, de costas.
Vive comigo de ameia
Seguindo por onde sigo
Entre altos e baixos e extremos
Acostumada ao entremeio
Sem desmanchar-se dos rastros
Resmungo ou desdenho
Do que consigo ou daquilo
Que de mim se desprende
Retrai, inflama ou liberta
E por onde meu existir alerta
Inconsistente conduz.
De repente pode amanhecer sem sol
E me desvencilho do escuro
Ao acender o pavio mesmo de tenra vela.
Ei-la presente, viva, mansa, colada
Como elemento supremo
Intangível, sem importar-se da cor
Ou som que amiúde e insigne
Qualquer sóbria matiz produz.
Companheira inquieta, perfeita, parceira
Em todos os movimentos ou imóvel
Sempre além de ângulos e vertentes
A renovada sombra intermedia
Ainda que ignore ou não consiga vê-la
Constante debaixo do nariz.
Vivemos todos iluminados
E a existência é a sequência
Dessa dúbia insistente verdade
Calcada entre um vulto e a luz.
POR UM MOTIVO QUALQUER
Não terei mais tempo de ver uma aurora boreal
Não visitarei nenhuma catedral de Roma
Não estarei hospedado em nenhuma suíte presidencial
Não irei pilotar um Fórmula Indy ou Learjet
Não tocarei nas bases da Torre Eiffel
Nem irei lavar os olhos nas aguas do Sena
Não apertarei as mãos do Papa
Não serei recebido com honrarias na Casa Branca
Nem pisarei as areias no entorno de nenhuma pirâmide egípcia
Não farei um show no Madson Square Garden
Não concluirei curso algum em Harvard
Nem irei seduzir uma jovem atriz global
Não serei diretor da Império Serrano
Não apitarei um jogo qualquer da Seleção do Brasil
Nem cantarei no Lyric Opera Of Chicago
Nem terei a dádiva de conduzir a Orquestra Sinfônica de Berlim
Nem brincar entre os divertidos pinguins no Polo Sul
Nem voarei até a Estação Espacial
E outras pequenas coisas mais
Certamente deve ser por algum motivo torpe
Que nada disso poderá se dar
Mas o que realmente importa é que você leu esse poema
ACORDADA
Que silêncio fez
Naquela madrugada
Não se ouvia ninguém
Nem se via nada
As horas pararam de passar
Os minutos deixaram de existir
As portas permaneceram trancadas
Ninguém levantou nem saiu
Nem voltou pra aldeia
Mas aquela menina insone
Estava acordada
Não me pergunte o motivo
Não faço ideia
Nem sei de nada
SEM RESERVAS
Não veio trazida pelo orvalhado véu
Nem foi velada pela vazante da maré.
Não ache que de repente apareceu do nada
E por nada cansou de ser densa
Como a criança que pensa que alguém
A esquecera na escola ou na porta da sala.
É oriunda do fogo que lambeu a mata
Ferveu riacho, incinerou raiz
Cremou insetos, expulsou a vida.
Agora, já passado esse tempo de estio
Sei que surgirão dentre os aceros
Ruelas e avenidas naquelas moitas cinzentas
Metros e metros de madeiras, lotes e glebas
A serem destocadas e vendidas
Como brilhantes raros nas prateleiras
Além de ampliar as áreas do seu sítio
Sem pecado e sem reservas
CRISTAIS
Tornando ainda mais perigosos os viáveis caminhos.
Entre certezas de proteção e tropeços
Cabe a cada um decidir enfurnar-se em redoma
Ou enfrentar a vida ainda que decorra o risco
De assistir ativo ou não ver
Como o mundo nos perfaz ou decompõe.
Das tantas coisas que evitamos fazer
Temendo o desconforto e o caos
Aprisionamos as vontades nas cristaleiras
Como fossem raras taças para protege-las
Das displicentes alças estabanadas
De nossas inseguras e trêmulas mãos.
Outros entendem serem translúcidos os vidros
Da alma em forma de sentimentos
Ainda quando porventura alquebrados.
- Este o mote dos fortes.
Brindemos pois com nobres vinhos
Nos mais refinados cristais
Os carinhos e as dádivas que tornam possíveis
Nossos sonhos e vontades reais
POUCO ANTES DA MENTIRA
Houve a notícia de que
Seria veracidade
Não pode!
Então por favor não minta
Ou desminta
Com maior propriedade
Se acaso não possas
Lamentar a falsidade
Invente com retidão
Sentirás quão difícil é
Reverter o que se noticia
Por mera leviandade
E se por fim em nada der
Tua falta de verdade
Confessa-te à consciência
Depois morda a língua
Antes que esta te lamba
Sem indulgência
SABOREIE
Dentro de um pote de geleias
Ali ficaram hermeticamente fechados
Durante anos a fio. Cristalizaram
Mas não perderam o prazo de validade
Porque foram sempre verdadeiros
Atemporais, simples, muito particulares
Ficarem reclusos não fora em vão;
Madureceram, tornaram-se densos
Menos tensos, mais humanos
Cordiais e amenos apesar de duros
E singelos desde a origem
Continuam transparentes
Ligeiramente ariscos, corteses com a vida
E módicos comigo
Estão agora sobre a mesa
Sirvo-os livres sobre o pão da vida
Saboreie
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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