Escritas

Lista de Poemas

MESTRE

Então agora sou mestre!
No entanto impressão que trago
É a de que nada tenho e quão pouco dei
De mim, pois poderia ter feito mais
Dessas jornadas intensas por onde fui
Cruzando de sul a norte pelo ocidente
As primorosas estradas por onde andei
Seguindo ordens, observando a vida
Que se transformara sob os meus pés

E das certezas de que cheguei
Ao olhar por onde estive e caminhei
Guiado, seguido, amparado
Generosamente sem reservas
Por todos que de mim se acercaram
Tornam-me também ciente de que fiz
Desmesuradamente por merecer

E se após desbravar tanto viés
Desfruto estar onde conquistei
Ah, mestre então permanecerei
Aprendendo sempre
Do que ainda tão pouco sei
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SOMENTE UMA VEZ

Morrer dói somente uma vez.
Viver sim seria muito mais sofrido.

Quando desapareces dos meus olhos
E te desprendes do meu abraço
Quando os teus passos se rebelam
E foges por caminhos que ignoro
Quando teus lábios não me dão consolo
E teu cheiro te ausenta de mim
Quando tua imagem não mais reflete
A luz que brilha em meu espelho
Quando a solidão me embriaga
Ao invés da tua doce companhia

Viver é muito mais sofrido.
Morrer sim doeria somente uma vez.
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MATILHA

Quanta fome tem o mundo
Tanta gente não come
Sem gosto na boca
Nem com os olhos
Porque a barriga e as mãos andam cruas
As bacias emborcadas vazias
Sem tempero algum nas vasilhas
Escassas de sonho e alimentos

Muita sede tem os lábios ressequidos
E a ausência da agua seca todas as veias
Das almas mais nobres que sejam
Mergulhadas na pobreza

Não carrego a tristeza das cidades
Mas sinto o que se sofre
Pela imaturidade cruel de quem rouba
E tira o que pode do pouco que nada tem
E ainda ri guloso e satisfeito da nossa cara

Insana matilha essa que nunca se abala
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DESACORDADO

Raramente sei quando durmo
Por onde ando.
Às vezes lembro os sonhos
Devem ser indícios
Das fugas que cometo
Quando acordo e venho
De qualquer outro espaço
Ou diferente mundo

Então me fico perguntando
Por que ter ido
Para lugar tão estranho
A ponto de ver perdido
Os restos de memória
Que ainda detenho
Ao estar novamente de volta
Enfim acordado

Seria como viver a experiência
De estar sedado
E não sentir qualquer arrepio
Nem de orgasmo
Nem mesmo de emoção
Vertigem ou desafio
Abobalhado e embevecido
De paixão permanente

Você que gosta e sabe
O que é dormir tanto
Por favor explica.
Talvez desperte
E me surpreenda
Quando agora deite
E lá na frente pela metade
Inteiro e sonolento levante
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SEMINUA

Uma nuvem maluquinha
Endoidecida de vontades de chover
Derreteu-se inteira sobre a Cidadela

O que era uma chuvinha descuidada
Alagou quintais, telhados e avenida
Deixando ensopada também
A moça que de branco vestia
Os sonhos de alguém

Da janela embaçada e amorfa
Somente meu poema a notara
Encharcada de cantigas
Ardendo-se em chuvas
Seminua de alegria
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CONFIDENTES

Vivendo vamos tomando liberdades
E assim cada vez mais
Deixando de ser livres

Íntimos dos planos vindouros
Próximos das filas do acaso
Pertos das armadilhas dos segredos
Junto das inescrupulosas correntezas
Confidentes dos inacreditáveis complexos
Confessores de pecados rechaçados
Sabedores de incuráveis culpas
Conselheiros de promessas desmedidas

Nessa corda de nós que nos prende a alma
As intenções e a paixão nos tomam por guias

E quando percebemos estamos soltos
Porque são esses gestos que nos içam
E dão sentido aos nossos dias
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ESCOLHA

À flor da terra
Ao invés da areia
Aprisionamos na redoma
Porções de tempo presente
Em cinzas ou labaredas

Essa alquimia de brasas
Produz chama incandescente
No translúcido vidro
Que ofusca ou aclara
O caminho às avessas

Se conseguir passar
Repartimos no tênue brilho
Convites para que outros venham

Em não vindo
Seguimos sentinelas
Ao menos iluminando

Arautos de lâmpadas acesas
Aguardamos que os eternos laços
Os chamem
Ou os matem as incertezas

Depende a escolha!
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ATREVIDO

Meu menino aduaneiro
Mistura de propósito as conversas
E eu avô experiente
Mais propenso a ser criança
Sem noção fazemos o dia
Ferver às avessas

Servimo-nos das mesmas travessas
O alimento que permeia
Espremer-se pelo leito
Alimenta nossa vida travessa
E a hora pregressa e perversa
Que nos enche com promessa
De nada ou pouco adianta
Suporta ou contenta

A priori nos fartamos das verdades
Desafiamos cada uma das tardes
A nos transportarem para a noite

Há quem não chegue nem dormir
E tantos que nem acordar consegue
Porque a vida nem mais pulsa
Ainda que o pulso peleje

Isso tudo é mesmo uma bagunça
Ainda que nos aliemos ao tempo
Esse atrevido insano
No cotidiano se amoita
Impiedosamente de seu espaço
Nos expulsa
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INCÔMODA

Na menor porção
Esconde-se a grandeza do átomo
Com paciência
Infinitamente eterna
Onde o olho nu não alcança
Enxergar ainda que tente

Também eu não consigo ver
A debilidade que me rende
Apesar de gigante e imensa
A mediocridade que me prende
Ante as minhas despojadas
Incertezas que me tornam míope

Evidente que você não entende
Porque fico assim ilhado
E sempre aqui aguardando
A clarividência de sua fina lente
- Sou tão dependente de ti
Que me torno seu sobrevivente

Admito que não haveria momento
Se a vida um dia deixasse de ser
Tão docemente incômoda.  Lamento!
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PIQUENIQUE

Por onde olhávamos víamos ramas
Quarando feito roupas pelo chão
Aguinha escorrendo lá no brejo
As bocas salivando por um beijo
E a vontade de pegar em sua mão

Havia troca de olhares e sorrisos
Despertavam tortas pontas de inveja
Você aqui e eu ali do outro lado
Como em uma tela grande de cinema
No meio de um fim de semana

Qualquer lugar e momento passamos
Levando nas cestas as vontades
Nos bolsos encomendas sutis
As mãos cheias da esperança
Que assim sentíamos a imensidão

Quem ainda hoje canta uma seresta
Se prestaria a uma tarde se houvesse bosque
Para um piquenique longe dos estresses
Levando as nuvens apaixonadas
Para namorar gostosamente num parque?
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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!