Escritas

Lista de Poemas

NEGLIGENCIADOS

Como se faz com os segredos
Quando já está evidente
Que se não cuidar explodem

A mente é esse disfarce que pode
De repente causar prazeres
Mas vive das evidências no medo

Vivemos trancafiados em nossas casas
Bloqueados nas ruas desconfiando
De que sempre erramos a estrada

Apesar de tão interligados conectamos
Nosso presente ao mesmo tempo
Ao futuro e passado onde vivemos

Mas não sabemos de onde viemos
Para onde vamos e porque somos
Assim tão negligentes irresponsáveis

A nós todos não nos falta fé
Na verdade as incertezas evidenciam que
Estamos sim carentes de generosidade
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ATABALHOADO

                           Paulo Sérgio Rosseto

Perco você como quem se atrapalha nos vagões do metrô
Em plena metrópole
Perco você como quem se embrenha no cerne oculto
Da mata espessa escura
Perco você como quem desaparece repentinamente
No meio da densa multidão
Perco você como se perdem os holofotes 
Cansados do decaído artista
Perco você como perde o rumo
O navio sem bússola
Perco você como quem perde
A noção do tempo espaço

Perco você porque sobretudo nunca me encontrei
Tão fútil atabalhoado
Perco você porque talvez ainda
Nunca tenha me achado

E se nunca a tive, como posso perdê-la?

@psrosseto

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STREET VIEWS

(Pesquisei pelo lugar onde nasci; a conhecida e gentil voz do Google Maps
pausadamente assim descreveu):

“ - Subir devagarinho a Nossa Senhora da Aparecida
Vai-se a casa sete nove cinco.
Existe muita história ali!
Lá ainda está o pequeno alpendre de pilastras azuis
Aonde nosso pai no final do dia
Escondia bombocados de depois do jantar.
Nos degraus dos jardins
Ainda deve haver cheiro de gerânios rosas e espirradeiras
Porém já não há mais o abacateiro  do quintal vizinho.

- A caixa d’agua azul e branca ao fundo da matriz
A torre esguia do relógio da  Getulio Vargas
O clube de bocha da Nagib Asseis
A tinda tinda da arborizada  pracinha
O colégio Valeriano  Fonseca
A escolinha ao  lado  da velha estação ferroviária
O eterno laticínio Tânia da esquina da João Machado

- Tudo se encontra magistralmente  no mesmo lugar. 

Não  mais achei o Bar do Julio
A Farmácia do Maroca
O  Bar  da Esquina
O Bazar de Oshiro
Nem o Salão São Paulo...
Mas isso é tão relativo que a essa altura da vida
Muito pouco importa.

- Inclusive as portas são as mesmas e se
encontram abertas no mesmo lugar há seis décadas.

- Sinto cheiro de café na Albino de Geovane junto ao começo da Raul Furquim.  
Joãozinho ajuda Maria a embrulhar balas de coco e Vera corrige as provas da escola.

- Certamente Guaraçai não cabe em apenas um poema. ”
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A ARTE DE SER AMIGO

Canto só
Onde ninguém possa
Me ouvir cantar.
Canto assim na solidão do meu canto
Somente porque gosto de toda canção
E eu mesmo de mim sou meu fã.

Penso se me ouço e amo meu som
Que me importa você me escutar.
A musica que faço me transforma
Enleva, sublima, alivia minha alma
E me faz reticente cantarolar.

Mas tem dia que me vejo mudo imundo
Na deserta aridez do espirito
Onde nem eu mesmo ouso ouvir minha voz
E em lugar nenhum caibo estar.

Nessa hora solto o meu grito
Busco em seu ombro aboiar.
Generosamente você encanta comigo
E o que cantamos reconforta, renasce.

Repartir a música é viver a arte
De ser amigo.
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O PARTICULAR UNIVERSO DE CADA UM

Trabalha incansável ao meio dia o dedicado pedreiro
Erguendo sobre alicerces entre andaimes
As torres gigantes da catedral
Dentro do particular universo de cada um

Eu, humilde servente a servir-lhe a massa
Entrego-lhe também a colher, o prumo, nível e cinzel
E meço contente o produto que torna
Símbolo do perfeito na justa medida
Do que fora traçado pelo arquiteto em papel
Para o particular universo de cada um

Eis a arte real que sob o sol floresce e se espalha
Pedra sobre pedra lapidada por incansáveis mãos
Que unidas abraçam o mundo e beijam o solo
Do particular universo de cada um
 
Se preciso for, lhe corrijo as falhas
E também ele a mim me adverte em tempo
Aprendemos com a vida no trabalho mútuo
Construindo em conjunto um único templo
No particular universo de cada um
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PÁGINA ESCRITA

Perto das expectativas mora uma garota bonita
Tem cabelos crespos, olhos instigantes
Lábios incandescentes, mãos de raro veludo
Anda devagarinho, por vezes serelepe
Fala sobre as histórias e experiências
Que vivenciou no presente que vivera os instantes

Chama-se Página Escrita
Por onde tua leitura passeia e decifra
Imagina, viaja, aprende, crê
Ou faz de conta que acredita
E vira, como se vira um dia em horas
No horizonte
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POESIA

Não sei bem se faço poemas
Sei que transcrevo os versos das canções
Que a tua presença impõe
Para que meu coração cante
Meu espírito louve
E minha alma te aclame
Intensamente dona de mim

Qual oração que recito
Medito, bendigo todas as formas
De ao rezar estar junto a ti
Num final de noite de outono
Quando a insônia e o abandono
Torna a poesia mais exata
O silêncio mais puro
O sussurro um enorme grito
Nos bilhões de anos luz
Do abismo infinito dos sonhos

Já não sei mais em qual planeta
Vivo, para onde irei ou venho
Apenas sei que te componho
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NEM SEMPRE É POR FRIO

Quando o pelo eriça nem sempre é por frio.
Na maioria das vezes é a preguiça,
O pensamento vadio,
E a própria delicia que se apropriam da gente,
E traz por todo o corpo um suave arrepio.

Pode ser a incontrolável vontade de explodir
O vazio que causa a saudade.
Pode ser a maldade dos anjos
Brincando de esconde-esconde com nosso brio.
Talvez a espera do alguém distante em sintonia
Ou o estrago que causa engolir palavras
Que não possam ser ditas quando a gente entedia.

Imensa casa em que tudo inquieta em seu lugar.
Meus pés pelo chão gelado, deserto, estéril
Procuram teus rastros, teus saltos, as migalhas do teu andar.
E na moldura da noite no perfume do quarto onde estás
Parece que vejo descansar inocente na fria cama
A fina roupa que adornou teu corpo e aqueceu tua pele
Agora nua, solta, viva, sedenta de amar.
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NÃO LEMBRO, NEM SEI

O que seria tão intenso
A ponto de tornar-se renúncia
Tão imenso quase que prenúncio
E tão claro que somente
Se pudesse descrever como se pronuncia?

O que seria tão fácil de acontecer
Que jamais pudesse entravar
Intensificaria todas as maneiras de entender
E a gente não se alteraria
Nem se martirizaria por ainda não saber?

Apenas o que com o que a vida
Possa nos presentear
Porque meu ontem já o ignorei
E o meu passado – ah
Desse não lembro, nem sei!
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VELHOS DITADOS

              Paulo Sérgio Rosseto

Não há boca tão bela
Quanto a escarlate da noite
Nem queda tão doce
Quanto o cair da tarde
Um azul celeste
Quanto o do céu ao meio dia
Um azar tremendo
Quanto ser bode expiatório
Um risco iminente
O de bater o rabo na cerca
Ou a tremenda mancada
Em ter comprado gato por lebre

Por sequer um minuto
Ter dormido no ponto
Necessidade maior
Que a de mudar da água ao vinho
Oportunidade ímpar
Em botar as cartas na mesa
E se preciso por fim
Por as barbas de molho
Ousar prometer mundos e fundos
E depois fazer tempestades em copo d’agua
 
Esperar sentado que uma mão lave a outra
Riscar com giz as impossibilidades do mapa
Assuntar assombração sem pés nem cabeça
Resolver as ranhuras pondo os pingos nos is
E por resposta receber baldes de água fria
 
Seria o mesmo que ignorar completa
A rosa aberta pelo perfume que emana
Ao desejar na língua o gosto do orvalho
Que encharca suave o veludo da pétala

@psrosseto

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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!