Escritas

Lista de Poemas

INDEPENDENTE

Meu ousado coração insistente
Vive permanentemente em festa
Trabalha contente, bate cantando, pulsa o sangue
Com tamanho vigor e desenvoltura que por vezes
Destoa das regras intrínsecas
Da vida que o corpo leva
- Nem parece que tem a idade
Instigante a que se presta

Enquanto isso vou cuidando de mim o quanto posso
Porque bem sei do pouco tempo que ainda tenho
E da chance de sobrevida que me resta
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ESTES MEUS VERSOS

Coloquei meus poemas em livros
E juntos saímos livres a passeio.
Primeiro andamos pelas praças
Debaixo de pequenos arvoredos
Colhendo flores, contando estrelas
Observando as singelezas da vida.

Depois dividimos ao meio as vicissitudes
As inquietudes e os pensamentos surreais.
Uns enxergaram-se singelos e feios
Outros mais completos, complexos e bonitos
Mas todos esmerilhados em sentimentos
Ainda que com motes abruptos ou aflitos.

E graças às vezes que os escrevo
E você decifra estes meus versos
Torno-me ainda mais fútil e passageiro
E eles ousadamente infinitos.
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UM TECIDO QUALQUER

Apesar de ter sido um tecido qualquer
Um pedaço de pano que serviu no passado
Para enxugar teu corpo, limpar os teus pés
Forrar tua cama, proteger tua mesa
Recobrir teu sexo, colorir teu sofá
Secar tuas xícaras, guardar tua boca
Lustrar tuas botas, recolher tua lágrima
Teimosa que insistia verter na cheirosa
Fronha macia e alva do travesseiro

Acredito ter sido a tua camisa de linho,
Vestido de seda, chita xadrez
Meia de algodão, lenço de cambraia
Cobertor, colcha e lençol
Fina renda de lingerie, calça de tricoline
Panos elementares tão próximos de ti
Que causavam ciúmes e pensamentos infames
Às ideias quando secavas os teus cabelos
Com as felpudas toalhas de lã

Hoje quieto esfarelo as barras
Amarrotado, dobrado ao meio
Sem propósitos, mas ainda inteiro
Quem sabe um dia necessites de mim
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RESOLVIDOS

Fica
Podemos falar
Não precisam palavras certas
Saberemos escutar, entender

Sabe
Ficar e dizer
Vai renovar, bendizer
O que precisa ser ouvido
E retirar o que não apaga

Senta aqui
Do lado de cá
Depois resolvidos
Seguimos
Juntos ou opostos

O sentido é um só
Ou para ali, ou para lá
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ATITUDE

Meu boi inacabado
Estourou o cercado
Mugiu de amigo
Mijou e se foi...

Podia ter ficado
Ou ido comigo!
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ANSEIOS

Um ultimo gole me persegue
No copo transparente das intenções
Que arfam e ardem num copo de tequila

Melhor dormir antes que a tarde finde
Senão endoida a palavra
E nada mais me controla
Pendurado naquilo que desejo
E que me falta e falha

Uma eternidade profana
Dentro de uma dose mal tomada
Escrito no idioma úmido de quem te olha
Absolutamente vive de anseios
E nada fala
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A LUA

Tanta coisa se aclara com a lua
Até mesmo as emoções todas afloram
Na penumbra fina da luz rala
Entre silhuetas de fantasmas magricelas
Flana a passeio sobre vapores e velas
Atracada às ondas calmas e inquietas
Onde a indecisão e a certeza se resvalam
E fica horas sobre o monte a olha-las

Não se abala, adormece ou cala a noite
Martela nas profundezas ostras e pedras
Distorce as correntes, assusta corais
Remexe os silêncios, iguala as regras
Solta as amarras dos barcos nos cais
Fria, ri das calmarias, instiga os canais

Depois se desmancha pudica e indecente
Entre as risíveis falsas juras dos casais
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COM OUTROS OLHOS

Deveria existir um controle remoto
Que retornasse os giros da terra

Pudéssemos escolher determinadas cenas
Retroceder um a um seus quadros
Dentro de um espaço de tempo gravado

Ganharíamos a chance de releituras
Da redescoberta de algum detalhe
Marcante que talvez se escondesse
Ou deixara de estar revelado
E porventura já estivesse perdido
Da memória
 
Sinceramente escolheria rever
Quando ainda a via com outros olhos
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PODERIAM

Era tarde e ela nem sentia
Que o poema no fundo da noite ardia

Ambos sabiam, entretanto
Que velavam vontades
Pressentiam inquietos
As artimanhas e lembranças
Amenas do dia

Quando se soldam os quereres
Indomáveis com poesia
Pouco importa se podem
Ou num repente deveriam ou não
Fazer de inesperadas miragens
Os manjares que queriam

Adolescer é desmanchar-se
Esfarelado e sem propósito
Assistindo no passar da idade
Veloz que se distancia
Ousar por falta de coragem
Pecar por não ter ousadia

Enorme a cama, tão farta a carne
Insana insônia que a solidão silencia
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DESEJO

O desejo
De muita sílica anônima
Seria transformar-se
Em venerável vidro
Deixar de ser puramente
Cálcio e sódio
Soldar-se mansa
À ponta de um cadinho
Moldar-se em multiformes cores surreais

Ser para-brisa de carro
Copo americano, litro de cachaça
Travessa resistente, vitral de igreja
Janela de prédio, porta giratória
Gude de cristal, jarra para sucos
Tampa de farol, pote de geleia
Lente para óculos de grau

Depois de frágil massa
Transparente e dura
Cometer o risco
De mudar-se em farelo
Quebrada em mil caquinhos
Pela própria criatura
E se não conseguir voltar a ser óxido
Ao menos um átomo em algum milênio
De pó de mico levada pelo vento num sopro
De poeira sobre um móvel no quintal
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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!