Escritas

Lista de Poemas

NOITE FRIA

Desconheço qualquer tecido que aqueça
Mais que a força do viço selvagem do cio
O desejo imoderado pedindo abraço
A boca medindo a volúpia do beijo
O corpo desmesuradamente languido
Suando sentindo prazer e arrepio
Por mais incerta que esteja a noite fria

Gosto de sentir tua convexa forma
Voluptuosa e sensual buscando gozo
Se insinuando por gestos e sinais
Que as mãos mapeiem suaves planícies
Tateiem incertas ocupando espaços
Explorando as pétalas dos girassóis
Desenhados na seda que satisfaça
A maciez das tuas claras vontades

Depois tudo vira sonho e calmaria
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OUSADO AMOR

Impossível tentar entender
Porque cuidas assim de mim
Essa afinidade que nos prende
Esse olhar brilhante cativo
Esse carinho e cuidados sem fim

Desnecessário ousar definir
Certamente será generosidade
Resultado da grandeza
Que habita teu coração
E a repartes a meu favor

Quando penso que nada sou
Que pouco significo em teu ser
Teu silêncio me chama e inflama
Tua voz vem feito oração
E me tomas com intensidade

Então nos tornamos melhores
Maiores, Intensos, idênticos
Mística íris de todas as cores
Âncora de ouro que nos prende
Nos elos desse ousado amor
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POUSO

Meu poema quando pronto
Voa silencioso
Enquanto eu cansado da lida
Da escrita repouso
Despreocupado de seu pouso

Aninha-se entre mãos pequeninas
Mergulha em mares revoltos
Se estende ante olhos cansados
Faz-se decorado pelo idoso
Recitado nos recitais
Cantado pelos corais
Sonhado pelas meninas

Ousado faz excitar
Rezado reverencia
Odiado encabula e magoa
Guardado literatura

Meu poema quando pousa
Diz verdades faz balburdia
Acalenta ilusões
Depois dorme feito menino
Dentro do teu coração
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VÁ! MAS VOLTE

Corre ainda que não queira
Fuja mesmo que teime não ir
Saia apesar da destemperança
Segue sacode a teimosia
Desprenda sabendo que irá doer
Desobedece só assim desvincula
Some nem deixe pegadas
Voe é mais rápido esquecer
Desapega nem olhe atrás
Busque possíveis horizontes
Procura nem lembrar que esteve
Desencante é muito mais prático
Ignore ciente do sofrimento
Parte antes que seja tarde
Separe torne pedaços
 
Mas se quebrar-se apenas metade
Vá, mas volte
Para que te complete
E me torne repleta
Como antes
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SELVAGEM

De todos os poemas
Escolhe o mais arteiro e atrevido
Aquele que melhor te despertar a libido

Pensa quando fora escrito
Imagina as intenções
Advinha o motivo de ter sido feito
Depois de singela análise
Medrando o quanto fora selvagem e difícil
Esse ato de esconder entre palavras
A premente vontade de um abraço

Depois sorria e disfarce
Como eu disfarço
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TERRA MOLHADA

Não é cheiro de talco e bebe
Nem café fresco
Nem perfume 212 de Carolina Herrera
Ou algo tão doce que a tudo isso
Assemelhe

É cheiro de adolescência
De infância e ocultos prazeres
Vindo do alto dos morros ou pé das ladeiras
Entre ocas da aldeia

Puro e saboroso perfume
Da cobiçada areia vermelha
Do barro pisado
Torrões do enlameado terreno
Varrida gleba penteada
Misto de pó e poeira
Resto de vento reboco
Gotas de chuva recente

Desmedida e mensurada terra molhada
Assim é teu cheiro amada
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VENTANIA

Vieste repleta e de repente
Tomaste assento em meu peito

Fizeste-me trovador e poeta
Destes cantantes que se perdem
No ardor dos raros instantes

Vidente e profeta
Mendigo das letras
Lavrador de palavras
Contumaz caçador de fina estampa
Magico dos verbos e tempos
Que dentre versos se encaixam
E encantam

Tornaste-me manso e mansamente
Um vento confesso

Quisera soubesses desse
Amor que professo
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DOIS QUARTOS

Minha casa tem dois quartos
Um voltado ao nascente
Outro a oeste onde o sol some

Divido-me diariamente
Entre dois saborosos instantes
O de quando ele nasce
E o de quando se deita no horizonte
E dorme

Assim assisto a madrugada
Do quarto em que ascende
E à tarde do quarto em que morre

Também eu tenho dois momentos
Dois ciclos duas fases
A vida que ficou em minha vida
Ambos feitos de espera-la

Um quando você sai
Outro quando volta
Porem pela mesma porta da sala
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PASSAGEIRA

Vem do mar essa vontade adiante
Insistente, pegajosa, desertora
Intermitente
Às vezes condutora
Por vezes repentina
Jamais passageira

Vontade de querer-te
Aqui na terra, na lua, em marte
Amar-te terna e docemente
Eternamente
Semelhante à valsa
Que termina e não passa
Permanece inconsciente
Consistente
Qual perfume instigante
Deliciando prazeres

Se quiseres senti-la
Deixe que o mar te encontre
👁️ 200

ULTIMO POEMA

Jamais saberei se é esta a ultima refeição
A derradeira vez em que ouço tua voz
O momento final de olhar o indefinido mar
O extremo da ponte que me dará o infinito
Terminante centelha que vi cintilar
Notas cansadas de um piano que fecha
Preservando suas alvas e as negras teclas
Para as mãos do maestro que as soube tocar

Deito-me agarrado a esse meu ultimo poema
E caso não consiga acordar para escrever o próximo
Terá sido por certo causa desse derradeiro sono
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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!