Escritas

Lista de Poemas

PROFUNDO OCEANO

Mergulho destemido pelos mares em teu oceano
Nado em tuas águas, saboreio teu sal e algas
Convivo com as ambíguas criaturas descabidas

Navego ao sabor das ondas e dos ventos surdos
Afloro das tuas estranhas profundezas cardas
Um tempo submerso, outro submergido ao avesso

Me tranco em ti totalmente próximo e íntimo
Sou a tua ilha, baía, teu quinhão de pedra e argila
Tua praia recomposta de areia e terra amalgama

Teu lodo e lama, tua cama de calcário e brita
Fértil mangue que margeia as bordas das Américas
E todos os demais Continentes destas vastas costas

De tanta agua lubrifico, giro e modifico o mundo
De tão vasto comando e comungo tuas entranhas
Porem mínimo sou só um pensamento que te agita
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GARGANTA

Se descer pela nua perna
Qualquer unguento viscoso
Saberás certamente ser desejoso
Fruto da malícia que te provoca
Na pronúncia de minha língua
A delícia de minha boca

Se escorrer entre a pele e a roupa
O orvalho da tua fruta
Tocarás sobre a leve renda
Os teus dedos bem de mansinho
Sentindo-te secar a garganta
Tão úmida estará tua gruta

Se ao roçar com os pés o falo
Embrulhados em brancas meias
Sentirás o que imagino ser
A maciez desse doce sonho
Enlouquecido pela nudez
Embevecendo o prazer puro

E se na penumbra do quarto
Largada e lânguida de vontades
Te debruçares por sobre a cama
Chamarás a chama que arde
Como se me ouvisses dizer: te amo
Gozarás ao chamar meu nome
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JANELA

Teus olhos enamoram a lua
Tornando prata a noite bela
Fotografa, filma, prende
A imagem única à figura
Como vela que atraca
Ao cais do coração
Presa pela proa
No infinito vidro límpido
Da janela

Fico aqui imaginando
Onde estará a maior beleza
Se à frente ou por trás dela
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SUAVE

Cede-me um jarro
Uma taça ou cálice
Qualquer gota que reste
Desse vinho doce celeste
Desde que cesse
Essa minha sede de você

E se nada desse
Um suave beijo desses
Me arrefece
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FOGUEIRA

Tanto faz estar
Na barranca de um rio
No encosto da estrada
No meio do mato do nada
Na praia da beira do mar
Quando a noite faz frio de se abandonar
Ajuntamos gravetos e folhas de papel até
Ou qualquer outra coisa que houver
Para aquecer o relento e iluminar
Sem ferir o lume das estrelas ou luar

Tanto faz estar
No macio recosto de um sofá
No tapete estendido na sala
Na rede da varanda
Ou sobre a cama debaixo das cobertas
Entre lençóis e cumplices travesseiros
Ajuntamos desejos e todos os anseios
Afagos, carinhos, suspiros e sentimentos
Para aquecer os amores
Pouco importando se irá durar

A natureza da fogueira prenuncia
Entre o sonho, a necessidade e a beleza
Em tudo que o calor da brasa ousar
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REPÚBLICA

O tempo desistiu de entrar ali
Não reconstruiu
Passou por tras, preferiu as vicinais
E o beco morreu
Escondeu, encolheu, estagnou-se

Mas as moscas daquela rua sem saída
Guardaram nas asas
Alguns punhados de estrelas
Então juntas hastearam-nas em bandeiras
E tudo parecia diferente

Porem se perderam ao vento
Sem eira nem beira
E tudo voltou à mesmice
Infelizmente
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TERNURA

Desconfio que ao teu coração faço algum bem
Pois recolho teu gratuito sorriso quando escolho
Passar uns momentos grudado em teus olhos

Não consigo te imaginar longe dos meus planos
Fora até mesmo dos santos demônios
Que atiçam perpendicularmente minha imaginação

Conheço-te melhor que a mim e te preciso
De todas as maneiras inclusive as blindadas
Pelo sofrimento indesejável do inesperado

Aprendemos a repartir os sentimentos
Os gostos pelos prazeres suaves da natureza
De nos reconhecermos nos apegos mínimos

Onde se aclara a saudade que acabamos sentindo
Há uma doce ternura religando toda essa certeza
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PASSO

Pequenos gestos a qualquer momento e lugar
Desde o dormir ao passear pelos sonhos
Dependurado no dorso de uma nuvem rala
Vendo chover ouvindo o piar dos pássaros
As mãos aparando a leve fumaça do café
Borbulhas do espumante brincando no cristal da taça
Minha criança dançando balé
Caminhar quieto em direção à praça
Depois voltar no tempo e reler as cartas
Que te escrevia com palavras sem nexo e graça

Tenho tudo abastado repleto dos prazeres raros
Completo como se completa
Meu ciclo a cada dia

Por isso não envelheço
Apenas passo
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PARA SEMPRE

Quando se deixar de amar
Por onde o amor se vai ousar prender
Novamente acender feito semente para brotar
Se ausente ele estará distante da gente?

Quando se perder o amor
Quem o irá reencontrar de repente
Quando se partir o amor
Quando se negará amar
Quando se prover do amor reticente
Quem o irá retomar?

Mas se morrermos de amor
Viveremos amando
Amados para sempre
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ABISMO

Jamais temi abismos
É das profundezas que brotam também as grandes inspirações
Dos escarpados nascem inesperadas e saudáveis decisões
Do íngreme surge a versatilidade da renovação
Do inexplorado o lado maleável da versão

No fundo partilhamos as melhores experiências
E recolhemos gratificantes os resultados do que buscamos

Enquanto lamentam ausência de luz
Sigo de olhos fechados instintivo como um furacão
Seguro em suas mãos
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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!