Escritas

Lista de Poemas

CONCRETAS

Durmo estirado no chão
Fora desse colchão sem graça
Prefiro a pedra fria que me acolhe
Do que a macia espuma que finge que forra meus ossos
Que até aquece mas não me envolve e nem abraça

Descanso num banco de granito
Exposto ao relento na praça
Colado à calçada onde apressado você passa e nem nota
E se apercebe finge que não vê e se olha ainda faz troça
Ou desvia por temor a minha provável ameaça

Balanço na rede dependurada entre o piso o teto e a parede
Por ganchos de anzóis presos ao nada
Parafusados em buchas espremidas em concretas certezas
De que entre o pó do cimento a agua e a areia calcada
Existe apenas a vontade e o cuidado
Em não me soltarem no vazio da palavra

Assim vou ensaiando meu jeito tardio de entender
Que tudo o que faço além e batalho acima da contínua lavra
Permanecerá à flor da terra mesmo que virtualizado
Enquanto esse corpo que já mal ouve e quase nem fala
Cessará sob a lápide somado a qualquer punhado de terra
Mas não diferente do que o amanhã também te espera


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CURA

Já não envelheço tanto a cada dia
Aliás percebo horas sem envelhecer
Acontece quando determinadamente
Consigo poupar a língua
De inefáveis momentos de desdéns

Sinto indo embora a irremediável pressa do dia
Deixando de vomitar vontades por desatar enjoos
Mesmo o espelho agora me enxerga pequenino
Pois me apreende a entender o que ficou aquém

Paro enfim zombando de uma ou outra desventura
Acho que a nostalgia valoriza sinuosidades
E a idade cura onde nem mesmo a imagem
Atreveu-se a ferir ao colocar a mão e não estancou
Diminuindo tensões sem pressa de reduzir voltagens
Sem machucar por bobagens ao perder de vistas
Sem descontar na poesia o que não se desvendou

Ando envelhecendo menos a cada estendido dia
Pela expectativa obvia de ainda não ter vivido

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LÁ FORA

Bem sei que lá fora há riscos evidentes
Porem a ânsia do noturno fascina e clama

Entretanto não voo por temor mas razão frágil  
Permaneço quieto enquanto escuro
Ainda que as asas esgueiram-se ágeis
Entre galhos, lençóis e travesseiros
Às vezes passados, outras em frangalhos
Dobrados justapostos pela casa
Camuflado ninho de penas e folhas

Contenho ao ímpeto que me chama
Tão insone como tantas vezes faço
Equilibro imóvel como toda ave
Até que o sol em consideração
Volte dúbio num pio um raio à forra
Nesta vasta e ampla liberdade de sonho
Que não me tolhe e sim acolhe e ampara

São assim os limites de quem ama
Soturnas as amarras ainda que pense
Por não ser recíproco a quem lhe possa
Recolhe-se por amor à própria sorte
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MANGA MADURA

A secreta procura está no tato
No passear leve dos dedos
Sobre a forma e a textura da fruta
E no sentir arrepiar-se pelo cheiro

Na ronda da língua entre os dentes
E na espera da pele pelo lábio
No entreabrir da boca provando a casca
Âmago lambendo desejo e êxtase
Hiato de ruído e silêncio - polpa e amêndoa

A candura verte evidente
Mel e bálsamo escorrendo a esmo
Minando a fonte
Banhando a face da semente
Umedecendo o dorso
Contraponto catarse
Em contato ao frescor olhar
Como suave brisa que alivia

Mormente quem sente esse íntimo desejo
Da cobiça a uma bela manga madura
Degusta a avidez da fome como se beijasse
Padecendo dessa doce sedução mística loucura
Que somente sara e sacia
Ante ao gesto ávido de mordê-la

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CERTAMENTE MORREREI

Certamente morrerei mais tantas vezes
Pois meu orgulho poderá não desaparecer
E exigirá que me repita nesse ato final
O quanto necessário precise padecer

Já morri de amores, de imediato contentamento
Saudade, alegria, felicidade plena, frio e de rir
De inveja, medo, prazeres, desconfiança e sono
Na prescrição das dores que me fazem reviver

De repente a morte continue seu laboratório
E se experimente mais em minha espiritualidade
Aprimorando seu oficio em me matar por onde for

Apenas não gostaria de viver no abandono
De quem não sentirá pesar algum estando ausente
Ao recobrir na terra aberta meu ultimo momento
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BAGUNÇA

Houve fina garoa sobre a poça
Que até então já aquietada
Sossegara brincando após
O primeiro chuvisco na praça

E assim enchendo-se novamente de chuva
Dessa vez na calmaria da rua
Transbordou vagarosa pelo declive
Ensopando as falhas entre as pedras
Cantante e desperta como toda água
Mansa, esguia, boa, límpida e fria

E lá embaixo depois de alguma andança
Espalhando-se feito enxurrada
Na lama do paralelo ao pé da calçada
De novo em descanso deu de cara com a lua
Espelhando-se em si de felicidade
Toda melada em risadas descontraída

Entra o vento apressado afeito criança
Nessa profusão de imagens fazendo bagunça
Rodopia e sacode lambendo a paisagem
Tremulando áspero entre ondas
As surpresas amigas que entredizem

- A que ponto chegamos, querida!
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QUEM NÃO ERRA

A lida às vezes navega
Por barcos sem mastros
Desprovidos de velas
Navios sem lastros
Sem cordas nem âncoras
Timões em proas sem rumos
Barcos calados na areia
Aportados em baías
Degredados

A sorte às vezes recende de mágoas
Tal qual vela sem pavio
Cela sem dorso nem doma
Chinelo quebrado pisando descalços

Ainda assim os mares continuam
Acolhendo os seus rios
E os rios galopando percalços
Nos tomam nos braços
Acolhem nossas naus
Amenizam nossos passos
Restituem-nos pacientemente a vida

O cotidiano é a soma de esperas
Expectando acertos
Mas quem não erra?
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NO FERVOR DA MADRUGADA

Essa tua ousada libido
Mora num lugar tão quieto e calmo
Que ate mesmo qualquer vento perdido
Deitando-se em teu colo cheiroso
Inventaria de não mais ventar
Somente pra te ver suada

Mas esse indiscreto arzinho
Desperto de gula e prazeres
Eriça e te rebuliça os mamilos
Revira teus olhos bonitos
Desabrocha teu danado risinho
Põe-te do avesso acordada
Adentra a tua vontade faceira
E arteiro se esconde mansinho
Por entre os teus pelos macios

No fervor da madrugada
Quem não cobiça e se atiça
Após a insônia do cio
Aos apelos da geladeira?
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BOA PRAIA

Johw, você dormiu?

Não, ninguém mais consegue dormir em Taperapuan!

Estranho isso, amigo Toddy, uma madrugada de sexta que teve início ainda na noite da quinta, seria propícia para um bom sono, mas não se consegue relaxar com esse som altíssimo.

Mas Johw, é Gustavo Lima quem estava cantando, é bonito.

Sim, Toddy, também gostei, o som dele é mesmo bonito. Difícil foi aguentar os gritos dos escrachados animadores achando que faziam um ‘esquenta’ pra Gustavo.

Pior ainda foram os rojões, Johw.

Verdade, Toddy.

O que esses caras têm na cabeça? Soltam bombas à meia noite, às duas da madrugada, às quadro da matina... quanto desrespeito humano.

Humano e animal, cara!

Estou com o rabo entre as pernas de tanto medo até agora, amigo.

Sorte sua, Toddy. Eu nem isso tenho para enfiar em lugar nenhum.

Chegou o sol, irmão.

Chegou, mano.

Vou dormir e você?

Vou à praia virar latas.

Au au, então boa beach!
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SONETO DO AMOR MADURO

Esperamos algumas dobras aprendendo mansidão
Depois, nos mesmos espaços a fio tivemos por lição
As certezas do intrépido desafio em vencermos
A vastidão dos doídos encantos indomados do mundo.

Outro tempo nos fora gasto no cotidiano desbaste
Daquilo que se desvendara com o surgir das verdades
Tão distintas quanto translúcidas com o passar da idade
Tão carismáticas a ponto de tornarem-se cumplicidade.

Fomos assim perseguindo ilusões e vencendo vaidades
Conquistando a amizade, obedecendo raras vontades
Distantes da subserviência, do ócio, das tolas paixões.

Tornamo-nos generosos, íntimos, prósperos e próximos
Tão comuns como apropriados são os doces sentimentos.
Então descobri que a amara desde o primeiro momento
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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!