Escritas

Lista de Poemas

PERDER-SE NO CEGO AMOR

              Paulo Sérgio Rosseto

O amor sempre acaba na hora incerta
Como botijão que seca no fazer do almoço
Como água que falta em meio ao banho
Net que falha na transação do boleto
E Deus que ignora fazendo-se moco

Em resumo nada mais estranho eu
Nem acho ser desprezo a chama que apaga
Nem relaxo a omissão em lavar-se
Ou pretexto deixar de quitar a dívida
Ou Deus postar-se indiferente e tolo

Porém o amor esvair-se não perdoo
Quisera que voltasse acondicionado
Em cápsulas compactas ou compressas
Ou que o usássemos como pomada
Para cicatrizar tantas fissuras abertas

Quisera que o amor fosse ainda pano
E suportasse os ventos loucos nas velas
Sem importar-se com a textura do tecido
E as tatuagens riscadas nas rusgas da pele
Falseada pelos tantos tempos idos

E que não pudéssemos enganar-nos da perda
Dilaceradora da alma putrefata moída
Sendo assim desenganar-se da própria dor sofrida
Ao sustentar que amar é o maior dom da vida
Retrataria perder-se no cego amor seria merda

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EU TANTO DISSE TE AMO

               Paulo Sérgio Rosseto

Eu tanto disse te amo 
Porém a tão poucas 
Que a minha boca passou a omitir 
A pronúncia dessa oração

Acostumou-se a ficar calada 
Para não ser repetitiva oração
Afinal com qual propósito tanto dizer 
Uma óbvia expressão a um único par de ouvidos 
Já sabedor do que viria escutar

Chegou um tempo em que sequer os lábios balbuciavam
E outro tempo cujos pensamentos e coração
Disso nem mais se ocupavam

Até que os meus tímpanos lá no íntimo do martelo
Souberam auscultar na meada da imprudência
De ti o que a minha língua silenciara

Hoje
Todo  esse meu ser te fala

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VENTANIAS

                              Paulo Sérgio Rosseto

Tão fraca essa chuva desacompanhada de vento
Proveio certamente de alguma nuvem dispersa
Fugidia da madrugada de alguma noite sem graça
Estanque sobre o telhado acima da minha cabeça

Não que não mereça que meu derredor se molhe
Com essa calmaria própria dos bem-aventurados
Porém estou acostumado a solavancos constantes
Tanto que me estranha tamanha bonança repentina

Sou eu afeito de trovões e ventanias da montanha
Que sacolejam e soçobram insanos restolhos de asas
Absurdamente inconstantes entre abas e serpentinas

Ousaria dizer que minha casa é de pedra incólume bruta
Plantada sobre sólidos e poderosos alicerces da lida
Mas oh - despreparada à suave nudez de uma brisa!

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O QUE DEFENDO PORQUE CREIO

Convença-me com qualquer palavra
Peça com veemência
A ti disporei todos os sentidos
Ouvidos
Para que inteire da tua sentença

Somente não exija que compadeça
Não há complacência quando se força
A teimosia insensata em acreditar
Consentir
Nem que adiante se arrependa

Hoje talvez conceba certos arroubos
Diferentemente do que outrora entendia
Damo-nos ao direito de repensar
Antever
Essa surtada e disforme dicotomia

Somos todos imperfeição de conceitos
O que defendo porque creio
Não deveria colocar-me acima
Sobreposto
Ao oposto dos teus preceitos

Quando será que dissolveremos
Essa farsa açodada
Sufocante cegueira de cadafalsos
Dissimulados
Que nos põem tão pequenos descalços

Por isso tenho medo de dormir
Em dias semelhantes e tão iguais
Que afugentam nossas historias
Experiências
Ato supremo da razão do existir


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TRÊS LAGOAS

Era eu menino e moravam caudalosos rios à minha frente
Tão longos, intermitentes, profusos, infindos e soltos
Em cujas margens verdes de silêncio ouvíamos absortos
O passar das horas nos longos trens sobre os nossos brios

Era eu crescido em meio às desertas largas ruas de areias
Que de uma calçada à outra mal se ouviam os clamores do futuro
Incompreendíamos os porquês de tanta luz e a tatearmos no escuro
À procura dos sonhos que regessem as nossas jovens veias

Agora longe, atrás do tempo que escoara por aqueles trilhos
Ancorei meu barco num falso porto refestelado de saudades
Onde tudo é pedra, pressa, asfalto, agito, instância sem volta

Ainda existem rios porem não mais com as mesmas aguas
Permanecem as ruas mas estas ignoram toscas verdades
De que envelhecem os olhos mas as valsas ainda sonham-te

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👁️ 125

CERTAS VONTADES

Tenho certas vontades
Que ninguém acreditaria se as contasse
Tão inimagináveis que certamente surpreenderia

Mas o que seriam os anseios
Senão se evidentes o viço para a imaginação fértil
O alimento essencial da curiosidade alheia

No entanto tudo deixa de ser desejo
Quando calo as suas possibilidades
Ao primeiro pasmo que sobeja

Fervilha em mim qualquer coisa razoável
Dessas que instigam e incendeiam
Pelo simples fato de tornar-se exposta

Ante ao que sonho e vivencio
Há um abismo de considerações falhas
E é por elas que vivo buscando respostas


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ABELHINHA PEQUETELLA

Você me olha cochilar?

Claro olho
Por todos os lados do colo
Observo teu sono

Se eu dormir você olhará também meus sonhos?

Ah
Os dormidos serão sempre vossos
E talvez não os enxergue
Exceto se conta-los

Então vê
Porque agora vou sonhar
Depois te falo
Para que sejam nossos

Aninho em teu colo
No cantinho dos teus braços
Adormeço
Cada sono é um carinho
De ninar
De recomeço

Fico pensando se mereço
 
Merecemos!

Dormimos assim
Sempre vigiados viajamos
Subindo e descendo
Os degraus de uma escada
Por entre os caminhos
Do nada

Do nada?
Então teu colo feito um leito
De rio límpido e manso
Onde descanso colado ao teu peito
Nada seria?

A um momento
O abraço fecundo transborda o futuro
Depois acordamos
E os braços se abrem
Arrebentam os muros
Nos dão passagem para o mundo

Precisaria mais dois mil anos
Para entender essa luz
E bilhões de relâmpagos
Todos acesos no breu
Para brilhar agora mais que os olhos teus

Fecha-os
Nana
Que a existência é lâmina
Intensa chama
Reluz
Ilumina

Me diz sem poesia
Felicidade é isso?
Quase choro
Vê a lágrima de alegria...

Sim é isso

Mas virão também incertos dias
Que passarão ardendo

Eu ainda não conheço as cidades tristes
Dizem que elas existem
Alguém me falou delas
Onde os adultos se divertem zombando os pequeninos

São cidades sem estrelas
Sem portas e janelas
Onde as ruas desconhecem as esquinas

Mas eu não tenho medo das cidades tristes
Porque penso que todo mundo lá dentro
É bem maior que elas

O milagre da vida não é somente
O cerne de uma célula
E sim um grão de todo amor que houver
No entorno dela

Então entendemos as idas e vindas
Tristezas e alegrias
Encontros e perdas
Fome e fartura
As fraquezas
A coragem
Menos dos insanos e da covardia

Precisaria de mais corações então
Para guardar tantas imagens
Armazenar as emoções
Preservar a vida
Os exemplos maus e bons

Pois a vida é quem nos grava
E nos leva a passeio nessa esfera

Quando acordar e sair do teu colo
Me levarás pela mão pelos céus
Pelos mares
Nos caminhos?

Se a minha mão não te levar
Os teus sonhos te levarão
E neles poderás assegurar as certezas
Postas em teu coração
E aprenderás a caminhar sozinha

Você tem asinhas
Voa para onde quer no planeta
Deve conhecer toda a terra
Os jardins mais belos
Todas as flores
E o encantamento das cores

Ih
Eu não sou sozinha
Tenho colméia
Além disso trabalho
Eu não sou rainha
E ainda que fosse
Trabalharia
A vida não são só passeios

Continue sonhando
Depois vá brincar

Estarei aqui enquanto dormes
Com meus ferrões a postos
A te vigiar
Quando acordar volto pra rua
Atrás de flores
Polinizar

Você tem asinhas
Me voaria até a lua?
Queria ver de perto as estrelas
Devem ser ainda mais belas
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TEU VENTRE

Teu ventre arde feito o sol do meio dia
Sobre as areias lisas
Sobre as matas densas
Sobre as aguas mansas
Sobre a solidão dos desejos

Teu ventre queima feito o gelo na pele
Teu fogo queima feito o olho da gente
Teu beijo é sol de fogo
E me consome impunemente


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EU TOCO UM INSTRUMENTO

Eu toco um instrumento belo
Pela forma e pela corda
De sopro ou fole que assopra
Que tange rebomba reverbera
Com a boca as mãos os pés
O coração

Meu corpo é esse instrumento único
Uníssono
Por vezes desafinado
Mas que ainda produz boa musica

Então todas as notas curvam-se a estes sons
Que a minha alma orquestra


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DEPOIS DE EXTINTA A HUMANIDADE

Depois de extinta por completo a humanidade
A miséria e a riqueza reconheceram duas verdades
Que jamais houvera de ambas necessidade
Que a necessidade extirpara pobres e fartos

Agora que deixara de haver míseros e abastados
Feneceram por terem impróprios se tornados
O planeta retomara seus brios e do caos se livrara
Como se refaz reconstroi e se renova o inabitado

De todos os insetos fora ele o mais nocivo
De todos os animais fora ele o mais perverso
De todas as tormentas fora ele a mais devassa

O mundo sim voltara a ser o centro do universo
Não mais aquele protótipo de deus chamado homem
Que sequer soube de si nem a origem da própria raça


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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!