Lista de Poemas
Identidades
Por fim deixarei de existir,
Num destes dias iguais,
Deixarei de pensar e sentir,
Incluirei apenas manadas de animais.
Tão só me sinto,
E tão acompanhado,
Sucumbirei pressinto,
Mas tão desamparado.
Dias inteiros de desespero,
Tardes de sufocar o coração,
Noites a soluçar traição,
Manhãs de acordar tão áspero.
A mesquinhez das pessoas,
Associada à sua ignorância,
Distorce a melodia que entoas,
Já só te identifico pela tua fragrância.
Vem e salva-me,
Se ainda tiver cura,
Enluta-me,
Se não estiveres à altura.
Sou eu apenas,
De que estão à espera,
Não tenho escamas, não tenho penas,
Sou de carne e osso e alma austera.
Queriam-me fútil,
Queriam-me boneco,
Mas eu quero ser inútil,
E passar por sem tecto.
Lx, 17-11-1995
👁️ 575
O Fim
Pareço viver desde o início dos tempos,
As minhas lágrimas criaram os mares,
Porque me abandonaste sem alentos,
Valia mais me cruxificares.
Deixaste-me angustiadamente só,
Nem o vento me acaricia os cabelos,
Nem o sol me aquece a alma em dó,
Nem a fonte sacia os meus apelos.
Trago a Humanidade aos ombros,
Nasci Poeta fatalista,
Sofro pela Humanidade aos tombos,
Morro Poeta idealista.
Nem as colinas do monte,
Nem as ondas do mar,
Nem a moça de fronte,
Me fazem encantar.
Lx, 24-7-2000
👁️ 643
Desencontros
Porque vieram á cidade,
Quando Eu andava a escalar montanhas,
A navegar em mar alto,
A pescar no rio,
A passear no bosque,
A correr por montados,
A ouvir as aves,
A sentir o vento soprar,
Porque foram embora agora,
Quando fico sentado na tumba pela noite fora,
Alvoroçado pelo alvorecer da aurora.
Lx, 21-7-2000
👁️ 624
Musa Divina
Musa divina envolvente e pura,
Inclui-me nos teus sonhos de mulher,
Luxúria de perfumes e carne prematura,
Do teu regaço brotem rosas para só eu colher.
Desejo saborear teus lábios maduros,
Pelo Sol radioso de mil Primaveras,
O vento trespassa teus cabelos dourados,
Desnudando teu rosto de mil quimeras.
Teus olhos de verde-esmeralda,
Enfeitiçaram-me eternamente,
Meu coração está cativo minha fada,
Liberta-me e recebe meu fogo envolvente.
Deleito-me com a tua figura esbelta,
Recortada onde quer que passes serena,
Curvilínea com formas de mulher feita,
Desejar-te-ei continuamente minha pequena.
Deixa-me desflorar-te todos os dias meu amor,
Embalar-te em meus braços até dormires,
Partilhar contigo todo o teu fervor,
Idolatrar-te para sempre até partires.
Lx, 16-5-1995
👁️ 661
Alienados
Jantares corridos,
Sob silêncios enaltecidos,
Encarcerados para sempre,
Cativos pelo Luar,
Vozes ecoam a soar,
Fora de abrigos,
São chilreios entristecidos.
Acordo embriagado,
Pela cabeça pendurado,
Degolado para sempre,
Puzzle dum último patamar,
Esquecido para amar,
Desprotegido sem afago,
Vestiram-me de camuflado.
Sons dum rio a chapinhar,
Avivam-me como um troar,
Por mim desfalecido chamam,
Andorinhas vagueiam nas margens,
Os campos parem verdes vagens,
Dissolvo-me em fétido ar,
A Natureza insiste em me purificar.
Lx, 13-4-1995
👁️ 637
Só Em Corpo e Alma
I
Onde estás tu sinto-me tão só,
Tanta dor chego a meter dó,
Vem afagar-me com carinhos,
Vestida de fada com brancos linhos,
És a minha Estrela Polar,
A mais brilhante ao luar,
Ofuscas tudo ao teu redor,
Uma rainha no seu esplendor,
Cabelos dourados soltos ao vento,
Como trigais maduros ao relento,
Olhos azuis de águas cristalinas,
Saltitam como duas bailarinas,
Peitos altivos anseiam criar vida,
Pululam no teu corpo dão guarida,á
A tua boca de lábios tumescentes,
Procuram os meus saudosos e carentes,
A tua pele macia de um branco divinal,
Espera por mim para a acariciar como tal,
Cintura fina de linhas esbeltas,
Precede ancas largas de paixões maternas,
E pernas torneadas sempre alertas,
Encontra-me e satisfaz meus anseios perenes.
Lx, 4-7-1995
👁️ 632
Cidades
Florestas de cimento, encheis meu horizonte,
De um vazio estonteante, assimétrico,
Quero apenas cardos e giestas pela frente,
Banhar-me em água cristalina, frenético.
Porque tenho de viver acompanhado,
De mil figuras ridículas e mesquinhas,
Quem me dera andar por aí largado,
Correr por montados, campas minhas.
Coberto de sombras sem luz natural,
Definho encarcerado em quatro paredes,
Anseio por céus estrelados e odor natural,
Longe destes fétidos e repugnantes enredos.
Inalo o cheiro a terra molhada,
Como se fosse a última vez,
Aguardo a derradeira alvorada,
Em que me entregarei de vez.
Lx. 1-6-1995
👁️ 663
Vales Encantados
Vales verdes tão férteis e húmidos,
Recebeis todas as lágrimas vertidas,
De todos os cumes dos Mundos,
Tão enriquecidos de terras ávidas.
São o Paraíso verde Terrestre,
De tempo ameno e odores frescos,
À custa do cume estéril campestre,
Tão agreste e pobre de ventos secos.
Piscinas de água cristalina azul clara,
Com relvados bem conservados e verdes,
Com gente de bem regateando e cara,
Tão egocêntrica de tantas ignobilidades.
Sugam o próximo lentamente até ao tutano,
Escravizam o semelhante até à exaustão,
Mas é nos cumes altos que durante o ano,
Ao Sol as neves eternas resistem à combustão.
Que asco as pessoas tão quotidianas e fúteis,
Tão despovoadas na sua desprezibilidade,
Que dor as pessoas tão puritanas e inúteis,
Tão hostis e carentes na sua sociabilidade.
Lx, 28-6-1995
👁️ 605
O Último Baile
Tristes valsas dançantes,
Violinos tocam sonantes,
Bailarinos bailem, bailem,
A última dança, a do Além.
A sala do baile esvaziou,
O anfitrião sussurrou,
Violinos calaram-se roucos,
As portas fecharam-se aos poucos.
A festa acabou há muito tempo,
O salão arruinado com o tempo,
Os foliões finaram-se há tempos,
Esquecidos ao longo dos tempos.
Que bom saber ao nascer,
Saber-mos ir morrer,
Todos os dias um pouco mais,
E não haver excepção aos demais.
Lx, 22-10-1999
👁️ 596
Só Em corpo e Alma (2ª Parte)
II
Agradam-me os teus sorrisos em código,
Unicamente e só para mim decifráveis,
Quero despertar eternamente contigo,
Envelhecendo juntos por anos inviáveis,
Quero acompanhado por ti sonhar acordado,
Desejar-te platonicamente endiabrado,
Acaba com a minha ansiedade febril,
Preenche-me a vida estéril e senil,
Com os teus gestos meigos,
E lábios de mulher leigos,
Cativas meu coração comprometido,
Com a luz aureolar do teu corpo prometido,
Confessar-te-ei a essência do meu "Eu",
E tu acolher-me-ás, meu espírito renasceu,
E jurou amor eterno com fervor,
És a minha diva e meu mentor,
Seremos almas gémeas afortunadas,
Na paixão mútua enclausuradas,
Seremos somente nós dois apenas,
Guiados pelo vento como duas leves penas,
Partilharemos as dores e tormentos,
Pareceremos em prantos e lamentos.
Lx, 13-7-1995
👁️ 630
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António Azevedo - Vila do Conde
2024-05-28
Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.
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http://www.lulu.com/shop/search.ep?type=&keyWords=paulo+gil&sitesearch=lulu.com&q=&x=8&y=9
Reservados Todos os Direitos de Autor
“ Poesia Eterna Parte I”
Registado em www.safecreative.org sob o nº 1208142122416
A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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