Lista de Poemas
Acção, Reacção
Para mim absolutas,
São mil e uma inverdades,
Para outro resolutas,
As certezas de hoje,
São incertezas amanhã,
A consciência de hoje,
É padecer no amanhã.
A razão de uma vida,
É a morte irracional,
Tudo nela contida,
É sorte transcendental,
Às vezes pura e genial,
Outras indigna e fútil,
Existência bela e emocional,
Ou sombria e inútil.
O ideal desvanecido em sonho,
Numa vida inteira diluído,
Acaba por não vir a ser estranho,
Estar pela sua própria essência possuído,
E que preencherá o meu vazio,
O meu silêncio doloroso,
O meu inconformismo ímpio,
Ao longo de todo o meu caminho tenebroso.
Lx, 12-10-2004
O Horror
Lado a lado e por todo o lado,
Vagueiam pelo mundo atolado,
A minha alma oferece-lhes abrigo,
São gerados em silêncio gelado,
Pelas lágrimas do meu chorado,
Libertei de mim o horror guardado.
Gritos dementes ecoam em glória,
Dor lancinante percorre a terra,
Incansável e com vida própria,
Emergindo atroz duma cratera,
Corrompendo tudo à sua passagem,
Tornando o Homem numa miragem,
O horror preencheu toda a paisagem.
A penumbra cobriu-me a esperança,
E os meus sonhos jazem esventrados,
Esconjurei-vos a todos agora degolados,
Que alguém ousou criar à minha semelhança,
Larguei os meus pesadelos ao vento,
Como os vossos carrascos sendo,
O genocídio deu à morte um alento.
Lx, 16-7-2004
Dunas
Dunas douradas esquecidas,
De areias mil,
A brilhar ao Sol perdidas,
Com o Mar de perfil.
Recebes a teus pés as ondas,
Coroadas de puro branco,
Trazem com elas as conchas,
Que te dão tanto encanto.
Deixas-te pelo vento acariciar,
Quando te sussurra paixão,
Vergas-te à nortada polar,
Quando cometes traição.
E de noite ao luar,
Com o céu iluminado,
De mil estrelas a brilhar,
Recebeste meu corpo inanimado.
Cansado de tanto esperar,
Tão frio e desencantado,
Que até a dor fez chorar,
No meu coração desvanecido.
Lx, 28-6-2005
Uma Gota de
Uma gota de chuva,
Caída do Céu,
Em Liberdade,
Chorava,
Desencantada.
Uma gota de Luz,
Caída das Estrelas,
Ofuscada,
Vagueava,
Perdida.
Uma gota de mel,
Caída da flor,
Cheia de amor,
Desamparada,
Sonhava,
Angustiada.
Uma gota de fel,
Caída da Alma,
Magoada,
Cansada,
E só.
Lx, 10-11-2007
Luar
Iluminando toda a seara,
De chuva prateada sem fim,
Rasgando-se em Noite clara.
O Luar dos amantes,
à beirinha dos portos,
O apego do navegantes,
O beijo dos poetas mortos.
O Luar caiu em mim,
Guardado pelas Estrelas,
Fez-me seu Delfim,
Encantado por todas elas.
O Luar dos montes,
Corre pelos caminhos,
Trás formosura às fontes,
Banhando ainda os moinhos.
O Luar da minha infância,
Era tão belo ao meu olhar,
Interpelava-me à distância,
Comovia-se ao ouvir chorar.
Lx, 1-4-2004
Holocausto
Famintas ali colocadas,
Tão cansadas,
Famílias destroçadas,
Ao frio largadas,
Humilhadas,
Mães e filhos,
Separados,
Despidos,
Açoitados,
À força levados,
Para a morte certa,
Gemidos,
Lamentos,
Gritos lancinantes,
Corpos caídos,
Silêncio estendido,
Loucos soldados,
O bem escarnecido,
Fornos cheios,
Lume acendido,
Fumo perdido,
Almas queridas,
Esvaziadas,
Hoje lembradas,
Amanhã esquecidas.
Lx, 12-5-2005
Singularidades
Na mais profunda singularidade vazia e ténue, onde se esbatem os desejos mais enternecedores e acolhedores, brota uma paz duradoura e fulminante.
Na mais ínfima fracção de tempo, vigora o nada remanescente e eterno, complemento de tudo, elemento absorvente e aniquilador de todas as existências erráticas.
No fim do horizonte apaziguador e terno, ciente do seu minimalismo singular e arrebatador, está inerte o silêncio filantrópico milenar, onde toda a acção se esbate e definha no infinito, eterno e incomensurável, sem consciência da sua própria identidade.
Na mais ínfima fracção da noite, ousou um dia fazer-se luz, que logo se fez sombra e se tornou pesadelo irreversível, apenas solúvel na paz arrebatadora do vazio transcendental.
Alucinação intemporal e paranóica do vazio relativo, fez-nos um certo dia ganhar consciência num circo de marionetas onde a tristeza reina absolutamente.
Uma exaltação do Cosmos deu-nos a conhecer a nossa irrelevância mesquinha, como resposta à sua própria irreverência metafísica.
Um dia espalhados os nossos elementos pelo vazio do Universo, tal e qual poeira cósmica ao sabor dos ventos solares, vagueando sem destino, sem rumo, sem história, sem recordações, nem desejos, nem ambições, apenas sós, errantes, eternos, apaziguados, serenos e inatingíveis.
Voltarão a ser sábios inatos, preenchidos pela ausência de porquês, onde os dias serão sempre iguais, silenciosos e distantes num sono idílico, purificador e criogénico, onde o Ser intrínseco hiberna rumo ao Infinito e com Ele se extinguirá, para se tornar em nada por Fim.
Lx, 18-8-2003
Rapaziadas
Porque
te deram consciência um dia,
Não
seria para teres noção de ti mesmo,
Porque
te encharcas de perfume,
O
mau cheiro que exalas não alivia,
Porque
olhas de soslaio tão pasmo,
Não
tens a escola toda dos energúmenos.
Continuas
a ver novelas baratas,
E
a tua vida já vai no enésimo episódio,
Continuas
a defecar nas matas,
Não
o levas contigo por lhe teres ódio,
Continuas
a cantar-lhes serenatas,
Não
vês que já todos chegaram ao pódio.
Conduzes-te
de carro até ao café,
Mas
não vês da tua casa,
Que
ainda não fizeram Drive in,
Levei-te
comigo ao pontapé,
Fiz-te
uma cova abrigada,
Acreditaste
idiota ser o Holiday in.
LX,
19-3-2002
Antítese
Um
certo dia nasceu a luz,
Antecedeu-lhe
a sua identidade,
Gerada
das trevas como pus,
Fez
jus à sua luminosidade.
Um
certo dia nasceu a música,
Desafiou
o silêncio instalado,
Ecoou
por aí evasiva e mítica,
Quebrou
o meu coração gelado.
Um
certo dia nasceu a consciência,
Ávida
por respostas a tudo,
Criou
o entendimento da aparência,
Vingou
o caos do existencialismo mudo.
A
vida não passa duma ilusão Universal,
Um
certo dia extinguir-se-á sozinha,
A
noite eterna virá silenciosa como tal,
O
sonho da criação desvanece e definha.
As
trevas instalar-se-ão devagar,
A
música deixará de se ouvir,
Os
músicos há muito deixaram de tocar,
E
a vela do candelabro deixou de luzir.
Lá longe em casa
Dos
confins do Universo,
Ouço
um ligeiro fervilhar,
Gerou-se
um dia adverso,
Ousou
o horizonte perfilhar.
Matéria
incandescente por moldar,
A
eternidade dos elementos sós,
Energia
em rodos por soltar,
Perdeu-se
algures o feiticeiro de Oz.
Os
Planetas rodopiam sem cessar,
Em
redor do Sol tão iluminados,
Sabem
o caminho a tomar,
Até
que de Luz fiquem inundados.
Sistemas
bi-Solares,
Luas
prateadas,
Ou
de cor grená,
Ventos
solares,
Montanhas
paradas,
Calotes
Polares,
Por
Mar cercadas,
Florestas
ancestrais,
Coros
angelicais,
Não
reparais.
LX, 19-3-2002
Comentários (1)
Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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