Escritas

Lista de Poemas

Acção, Reacção

As mil e uma verdades,
Para mim absolutas,
São mil e uma inverdades,
Para outro resolutas,
As certezas de hoje,
São incertezas amanhã,
A consciência de hoje,
É padecer no amanhã.

A razão de uma vida,
É a morte irracional,
Tudo nela contida,
É sorte transcendental,
Às vezes pura e genial,
Outras indigna e fútil,
Existência bela e emocional,
Ou sombria e inútil.

O ideal desvanecido em sonho,
Numa vida inteira diluído,
Acaba por não vir a ser estranho,
Estar pela sua própria essência possuído,
E que preencherá o meu vazio,
O meu silêncio doloroso,
O meu inconformismo ímpio,
Ao longo de todo o meu caminho tenebroso.

Lx, 12-10-2004
👁️ 700

O Horror

Murmúrios e lamentos vivem comigo,
Lado a lado e por todo o lado,
Vagueiam pelo mundo atolado,
A minha alma oferece-lhes abrigo,
São gerados em silêncio gelado,
Pelas lágrimas do meu chorado,
Libertei de mim o horror guardado.

Gritos dementes ecoam em glória,
Dor lancinante percorre a terra,
Incansável e com vida própria,
Emergindo atroz duma cratera,
Corrompendo tudo à sua passagem,
Tornando o Homem numa miragem,
O horror preencheu toda a paisagem.

A penumbra cobriu-me a esperança,
E os meus sonhos jazem esventrados,
Esconjurei-vos a todos agora degolados,
Que alguém ousou criar à minha semelhança,
Larguei os meus pesadelos ao vento,
Como os vossos carrascos sendo,
O genocídio deu à morte um alento.

Lx, 16-7-2004
👁️ 639

Dunas


Dunas douradas esquecidas,
De areias mil,
A brilhar ao Sol perdidas,
Com o Mar de perfil.

Recebes a teus pés as ondas,
Coroadas de puro branco,
Trazem com elas as conchas,
Que te dão tanto encanto.

Deixas-te pelo vento acariciar,
Quando te sussurra paixão,
Vergas-te à nortada polar,
Quando cometes traição.

E de noite ao luar,
Com o céu iluminado,
De mil estrelas a brilhar,
Recebeste meu corpo inanimado.

Cansado de tanto esperar,
Tão frio e desencantado,
Que até a dor fez chorar,
No meu coração desvanecido.

Lx, 28-6-2005
👁️ 651

Uma Gota de


Uma gota de chuva,
Caída do Céu,
Em Liberdade,
Chorava,
Desencantada.

Uma gota de Luz,
Caída das Estrelas,
Ofuscada,
Vagueava,
Perdida.

Uma gota de mel,
Caída da flor,
Cheia de amor,
Desamparada,
Sonhava,
Angustiada.

Uma gota de fel,
Caída da Alma,
Magoada,
Cansada,
E só.

Lx, 10-11-2007
👁️ 717

Luar

O Luar esbatia-se em mim,
Iluminando toda a seara,
De chuva prateada sem fim,
Rasgando-se em Noite clara.

O Luar dos amantes,
à beirinha dos portos,
O apego do navegantes,
O beijo dos poetas mortos.

O Luar caiu em mim,
Guardado pelas Estrelas,
Fez-me seu Delfim,
Encantado por todas elas.

O Luar dos montes,
Corre pelos caminhos,
Trás formosura às fontes,
Banhando ainda os moinhos.

O Luar da minha infância,
Era tão belo ao meu olhar,
Interpelava-me à distância,
Comovia-se ao ouvir chorar.

Lx, 1-4-2004
👁️ 683

Holocausto


Famintas ali colocadas,
Tão cansadas,
Famílias destroçadas,
Ao frio largadas,
Humilhadas,
Mães e filhos,
Separados,
Despidos,
Açoitados,
À força levados,
Para a morte certa,
Gemidos,
Lamentos,
Gritos lancinantes,
Corpos caídos,
Silêncio estendido,
Loucos soldados,
O bem escarnecido,
Fornos cheios,
Lume acendido,
Fumo perdido,
Almas queridas,
Esvaziadas,
Hoje lembradas,
Amanhã esquecidas.

Lx, 12-5-2005
👁️ 656

Singularidades


Na mais profunda singularidade vazia e ténue, onde se esbatem os desejos mais enternecedores e acolhedores, brota uma paz duradoura e fulminante.
Na mais ínfima fracção de tempo, vigora o nada remanescente e eterno, complemento de tudo, elemento absorvente e aniquilador de todas as existências erráticas.
No fim do horizonte apaziguador e terno, ciente do seu minimalismo singular e arrebatador, está inerte o silêncio filantrópico milenar, onde toda a acção se esbate e definha no infinito, eterno e incomensurável, sem consciência da sua própria identidade.
Na mais ínfima fracção da noite, ousou um dia fazer-se luz, que logo se fez sombra e se tornou pesadelo irreversível, apenas solúvel na paz arrebatadora do vazio transcendental.
Alucinação intemporal e paranóica do vazio relativo, fez-nos um certo dia ganhar consciência num circo de marionetas onde a tristeza reina absolutamente.
Uma exaltação do Cosmos deu-nos a conhecer a nossa irrelevância mesquinha, como resposta à sua própria irreverência metafísica.
Um dia espalhados os nossos elementos pelo vazio do Universo, tal e qual poeira cósmica ao sabor dos ventos solares, vagueando sem destino, sem rumo, sem história, sem recordações, nem desejos, nem ambições, apenas sós, errantes, eternos, apaziguados, serenos e inatingíveis.
Voltarão a ser sábios inatos, preenchidos pela ausência de porquês, onde os dias serão sempre iguais, silenciosos e distantes num sono idílico, purificador e criogénico, onde o Ser intrínseco hiberna rumo ao Infinito e com Ele se extinguirá, para se tornar em nada por Fim.

Lx, 18-8-2003
👁️ 645

Rapaziadas

Porque te deram consciência um dia,

Não seria para teres noção de ti mesmo,

Porque te encharcas de perfume,

O mau cheiro que exalas não alivia,

Porque olhas de soslaio tão pasmo,

Não tens a escola toda dos energúmenos.

Continuas a ver novelas baratas,

E a tua vida já vai no enésimo episódio,

Continuas a defecar nas matas,

Não o levas contigo por lhe teres ódio,

Continuas a cantar-lhes serenatas,

Não vês que já todos chegaram ao pódio.

Conduzes-te de carro até ao café,

Mas não vês da tua casa,

Que ainda não fizeram Drive in,

Levei-te comigo ao pontapé,

Fiz-te uma cova abrigada,

Acreditaste idiota ser o Holiday in.

LX, 19-3-2002

👁️ 728

Antítese

Um certo dia nasceu a luz,

Antecedeu-lhe a sua identidade,

Gerada das trevas como pus,

Fez jus à sua luminosidade.

Um certo dia nasceu a música,

Desafiou o silêncio instalado,

Ecoou por aí evasiva e mítica,

Quebrou o meu coração gelado.

Um certo dia nasceu a consciência,

Ávida por respostas a tudo,

Criou o entendimento da aparência,

Vingou o caos do existencialismo mudo.

A vida não passa duma ilusão Universal,

Um certo dia extinguir-se-á sozinha,

A noite eterna virá silenciosa como tal,

O sonho da criação desvanece e definha.

As trevas instalar-se-ão devagar,

A música deixará de se ouvir,

Os músicos há muito deixaram de tocar,

E a vela do candelabro deixou de luzir.

LX, 17-11-2001
👁️ 776

Lá longe em casa

Dos confins do Universo,

Ouço um ligeiro fervilhar,

Gerou-se um dia adverso,

Ousou o horizonte perfilhar.

Matéria incandescente por moldar,

A eternidade dos elementos sós,

Energia em rodos por soltar,

Perdeu-se algures o feiticeiro de Oz.

Os Planetas rodopiam sem cessar,

Em redor do Sol tão iluminados,

Sabem o caminho a tomar,

Até que de Luz fiquem inundados.

Sistemas bi-Solares,

Luas prateadas,

Ou de cor grená,

Ventos solares,

Montanhas paradas,

Calotes Polares,

Por Mar cercadas,

Florestas ancestrais,

Coros angelicais,

Não reparais.

LX, 19-3-2002

👁️ 748

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António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde
2024-05-28

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.