Escritas

Ser ou não Ser

Paulo Jorge

Inquietudeque me tormentas,

Diae noite, de manhã, à noitinha,

Sobo peso da consciência lamentas,

Invocaram-menuma ladainha.

Almaenclausurada e escondida,

Commedo da luz das trevas,

Insultada,ultrajada e perdida,

Diluiu-senuma aurora em névoa.

Fuià sua procura um dia,

Demoreitempos afim, uma vida,

Procureiem vales onde me perdia,

Só,chorei a perda sofrida.

Deixaste-mepara sempre só,

Nãolevaste contigo o pensar,

Elevai-me consumir até ser pó,

Pensamentoso Fim hão-de lembrar.

Acambalear o caminho prossigo,

Nãosei o destino, ao que vou,

Imploreiao vento um abrigo,

Sussurroue as folhas com ele levou.

Continuoa minha busca incessante,

Subomontes, procuro-te no céu,

Ospassos conduzem-me avante,

Ovento cessou, só a chuva permaneceu.

Ocorpo envelheceu devagar,

Cobertode sofrimento atroz,

Cansadode tanto procurar,

Ousouum dia ser um albatroz.

Parapoder voar sobre o Mar,

Vaguearpor entre as nuvens,

Eternamentesustentado pelo ar,

Apeleià Lua por ti, mas não vens.

Porfim o pavio esfumou-se,

Porfim o trilho esgotou-se,

Porfim a alma esgueirou-se,

Porfim a resposta materializou-se.

Afinala Alma era Eu próprio,

Finalera Eu a sombra existencial,

Afinalera Eu poeira sideral,

AfinalDeus era Eu próprio.

LX, 7-9-2001

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