Pelo nome era Ricardo
Pelo dinheiro ricaço.
Para ainda maior vistaço
Acrescentava o Salgado.
Entre todos afamado
Mais que todos mandante
E o país impetrante
Até lhe beijava os pés.
Mas como pó se desfez
Pese seu metal sonante.
Niso 27.07.2014
Lágrimas
Lágrimas queimadas
Por causas amargas
- A solidão, o desespero
A angústia sem termo
O adeus saudoso
O parto doloroso,
Guardai-as no coração
Esquecê-las é que não.
Lágrimas vertidas
Por falhas cometidas
- o descuido, o desleixo,
O escárneo, o motejo
O ar de desdém
Lançado a alguém,
Acolhei-as no coração
Esquecê-las é que não.
Lágrimas em choro
Por penas sem decoro
A humilhação,
a vil traição
o amor desprezado
ou vilipendiado.
Com elas molhai o rosto
O coração é que não.
Numa jaula de oiro antigo
Um leão está cativo.
O leão é meu amigo
Porque vive, também vivo.
Em tempos era feroz
O meu amigo leão
Amansou-se à minha voz
Hoje é o meu coração.
Beija flor
beija com ardor
bate as asas
com vigor.
Bate
cinquenta vezes porsegundo
as asas coloridas.
de flor em flor
a fundo
colhe o néctar
ás flores plácidas
e enlanguescidas.
Beija flor
beija com ardor
bate as asas
com vigor.
Bate
cinquenta vezes por segundo
as asas coloridas.
de flor em flor
a fundo
colhe o néctar
às flores plácidas
e enlanguescidas.
Beija flor
beija com ardor
bate as asas
com vigor.
Bate
cinquenta vezes por segundo
as asas coloridas.
de flor em flor
a fundo
colhe o néctar
às flores plácidas
e enlanguescidas.
Chuva de verão,
Água fecunda.
Não cai em vão
no solo que inunda.
Vem súbita e inesperada...
Sem prenúncio nem aviso.
Será breve, será demorada
é a pergunta que repiso.
Surpreende-me na noite.
Prolonga-se pela madrugada.
Debaixo de telhas me acoito
desta chuva obstinada.
(Título do artigo escrito pelo político e jornalista republicano João Chagas , em1891,a seguir à revolta falhada no Porto. Com a casa cercada pela polícia desde o começo da noite esperou continuando a escrever para o seu jornal A Republica Portuguesa).
Enquanto eles não vêm
Não me resigno à espera
Toda a minha força se contém
Na forte decisão que a supera
Mais um artigo para o jornal
Enquanto eles não vêm
Esperar não me coíbe
Nem minha inspiração retém.
As horas deixarei passar
Em trabalho empenhado.
Enquanto eles não vêm
Não espero amedrontado
O ideal que me inspira
Grande futuro tem
Nele ocuparei meu tempo
Enquanto eles não vêm
Enquanto eles não vêm
Em nada me vão inibir
As horas vou preencher
E até deles sorrir.
Não ficarei refém
De ansiosa expectativa
Continuarei meu labor
Enquanto ele não vêm
Sejam cinquenta ou cem
O número não conta
Enquanto eles não vêm
O problema não é de monta
Enquanto eles não vêm
sou eu o dono e o senhor
Nem o mais leve temor
Antes algum desdém
Meu trabalho ou repouso
Nada se vai alterar.
Enquanto eles não vêm
Meu tempo é precioso.
A espera me dá ânimo.
Enquanto eles não vêm
A liberdade é minha
e inalienável bem.
Enquanto eles não vêm
Não é um tempo morto
Aproveitá-lo convém
Como meu desforço.
Quanto mais o cerco se aperta
E a hora se aproxima
Enquanto eles não vêm
Vou manter-me alerta.
Seu poder é limitado.
Enquanto eles não vêm
Não me sinto encurralado
Menos prisioneiro de alguém.
Enquanto eles não vêm
Minha vida continua
A força que eles tem
A chama que aquece.
A chama que deslumbra.
O que a natureza oferece
para vencer a penumbra.
A chama que convida
e a que mais atrai
A chama da vida
que em cinza se esvai.
A chama ilumina
em luzeiro de cor
A chama fascina
Símbolo do amor
Pudera eu inflamar
como chama viva
A todos arrebatar
em arte persuasiva
Nomes a mais
Nomes a menos
Nomes que tais
Nomes somenos.
Nomes, nomes só nomes
Nomes e cognomes
Pronomes em vez de nomes.
Por dentro dos nomes,
As coisas que os nomes
Nomeiam.
Renome que nome é?
É apenas o rasto do nome
Que é o nome que é.
Nomes a mais
Nomes a menos.
E se todas as coisas
Fossem iguais
Apesar dos nomes
Batismais?
O nome não afirma
Nem nega
Até pode ser
o pseudo-nome
(pseudónimo)
Que assim
outra face enverga.
E mal se enxerga.