Escritas

Lista de Poemas

Nós outros


Tu me acreditas e eu sou mentira;
tu me duvidas, sou verdadeira.
Vasto mergulho – a mente delira –
e vou adiante, queira ou não queira.
Tu vens a mim e dons eu concedo;
abro-te as portas de outras esferas,
porém não caias no engano ledo:
– não saberás mais quem antes eras...
Se em mim procuras a fantasia,
da realidade, negas a herança.
Bem mais perturba e nos suplicia,
a perfeição que nunca se alcança.

Espelho opaco frente ao porvir,
tua presença é meu refletir...

Nilza Azzi
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Linha quebrada


"Nenhum grande amor tem uma história reta."
(Fernando Pessoa)

Sonhei seguir a estrada em linha reta,
mas tu dobraste a curva do poema.
Não sei se fiz a escolha mais correta
− o verdadeiro amor jamais algema!

Dizer-te sim, seria a minha meta,
porém, como solver o meu dilema?
Sonhei seguir a estrada em linha reta,
mas tu dobraste a curva do poema.

Se no meu coração a flecha espeta,
repete-se a canção e o velho tema,
entende a alma triste do poeta,
perder-te pode ser a dor suprema.

Sonhei seguir a estrada em linha reta...

Nilza_Azzi_Rondel
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'té hoje


'té hoje, a conversadeira
depende de uma janela,
mas não pode haver floreiras
e nem perfumes, na tela...

Nilza Azzi
 
 
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Morro do José Menino


Procura-se um lugar
um pouco abaixo do céu
um pouco acima da terra
bastante perto do mar
com lembranças da infância
num entardecer perdido
e aquele navio ao largo
piscar de luzes distante.

Nilza Azzi
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Ritmo cinzento


Não foi da solidão que me escapou a voz;
se canto a desventura, é porque sou incauta
e o verso fugitivo é aquele que não falta,
pois cumpre o seu papel e faz menos atroz

o eterno isolamento e o branco desta pauta.
A voz surgiu do além, bem antes, não após
a vida revelar que há multidão em nós
e a vida, quando quer, assusta e nos assalta.

E assim vem deste som a cor e a fantasia,
a força natural e o ritmo cinzento
da ave que se eleva e voa à revelia;

entrega o seu cantar ao vasto firmamento,
que pelo espaço irrompe e súbito irradia,
mas cala ao refletir a pausa em que me adentro.

Nilza Azzi
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A meia-lua


A meia-lua no alto
parece um queijo de Minas.
Menina de olhar incauto,
o que do amor tu me ensinas?

Nilza Azzi
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Nos olhos...


Nos olhos do meu amor
duas lágrimas brilharam...
Teu cheiro de água de flor:
nossas bocas se encontraram.

Nilza Azzi
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Além da Porta



A cor do céu já é a cor do inverno
e muda o mapa aos poucos de aparência.
O vento esfria e o frio parece eterno;
a luz boceja, esvai-se em indolência.

A noite guarda em sonho a minha essência,
a solidão escura o mundo interno;
traz a quimera, a dor que ninguém vence
e a confusão das formas mal governo.

Além da porta, além dos velhos muros,
onde andará o meu amor de outrora,
olhos de mar em dias de ressaca?

Vive a lembrança cada vez mais fraca;
na ideia esquiva a busca se demora.
Oh, luz noturna, vastos céus escuros!

Nilza Azzi
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Dizem


Hoje dizem que poesia é isso
um fluxo de pensamento
sem amarras
uma explosão de sons
uma corrente calma
sem a história errante de um amor perdido
uma questão engajada

Hoje dizem que a poesia é livre
e perambula solta pelas linhas
sem aceitar medidas coercitivas
alucinante desde o festival de Verão

Nasça ela do coração ou da mente
deve crescer sem freios
explorar formas desavisadas
esmiuçar as novas propostas
rolar como a água entre as pedras
versar um conteúdo insípido
mas que possa embeber as pautas e suprimir delírios

Hoje dizem que a poesia esperta é moderna
não quer saber da fonte em que nasceu
de onde bebeu a lírica selvagem
e transformou a imagem para sempre
não quer a teoria necessária
a prova de toque da pureza
serve a si mesma e a seu poeta

Cansada dos rigores das escolas
dizem ter ela incitado um movimento
murmuram que partiu
achou em Safo a voz tão procurada

Dizem que inventa a si mesma a cada verso
e isso basta

Mas eu que sigo a regra empedernida
e vi valor nas vozes dos meus mestres
acredito no ritmo e na rima confortando meus ouvidos
nessa ilusão em contraponto à lucidez
uma artimanha para expor-me à verdade

Hoje dizem que já não sou poeta
dizem que repito a mim mesma a cada verso
e isso não basta

Nilza Azzi
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Chegam as luzes...


Chegam as luzes do outono,
frouxas, incertas e mornas;
entre as cobertas ressono,
enquanto o dia não torna.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!