Lista de Poemas
Silêncio
Mariposas, calai o voo incerto,
cessai co’esse barulho na vidraça.
Meu amado chegou e está tão perto,
e como é bom o jeito que me abraça!
Na boca tenho a sede de um deserto,
tal a fome de beijos que não passa,
e um desejo sensual, enfim liberto,
que segue sem licença qual devassa.
Silêncio para ouvir a pulsação,
o caminho do sangue que incendeia.
Silêncio, pois só nele as almas vão
viver em plenitude as horas cheias
e, quem sabe, encontrar a remissão
da esperança que o sonho ali semeia.
Nilza Azzi
cessai co’esse barulho na vidraça.
Meu amado chegou e está tão perto,
e como é bom o jeito que me abraça!
Na boca tenho a sede de um deserto,
tal a fome de beijos que não passa,
e um desejo sensual, enfim liberto,
que segue sem licença qual devassa.
Silêncio para ouvir a pulsação,
o caminho do sangue que incendeia.
Silêncio, pois só nele as almas vão
viver em plenitude as horas cheias
e, quem sabe, encontrar a remissão
da esperança que o sonho ali semeia.
Nilza Azzi
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Estava Antônio
Estava Antônio a olhar a Lua, ausente,
perdido em sonhos vagos sobre a amada,
a auréola do crescente nacarada,
enquanto divagava, a sua mente.
Queria tê-la junto a si, mais nada,
a doce Filomena, simplesmente,
porque com todo amor que Antônio sente,
não pode nem sonhar vê-la apartada.
Enfim, quer ver a jovem, toda sua,
perder-se no calor do seu regaço
e exclama: ― Já nem sei mais o que faço!
Então toma uma corda e a prende à Lua,
segura numa ponta e dá um salto
e alcança Filomena, Antônio, incauto.
Nilza Azzi
👁️ 854
Adeus tristeza
É nas horas tristíssimas da tarde,
quando o dia demora em se acabar
e a luz do sol desperta outro lugar,
que essa dor faz o seu maior alarde...
Era assim, fosse dentro do meu lar
ou na rua, onde a luz, embora tarde,
reverbera, incendeia, abrasa e arde,
em fantasmagoria singular...
Mas um dia aprendi de alguém querido,
que esse fim pode ter outro sentido,
em que a dor sói doer mais passageira:
— Que lição é viver de outra maneira! —
Atrás do fim, caminha um novo início
interminavelmente vitalício.
Nilza Azzi
👁️ 1 143
Pedaço de intenção
A rua azul do sonho era perfeita
e pura na paisagem, estirada,
ao sul do meu olhar, pela direita,
findava por perder-se em outra estrada.
No azul do teu olhar, minh’alma deita
desejos de findar a caminhada
– livrar-se de seu medo e da suspeita –
morrer-se por um susto, um quase nada.
No alto desse céu, onde voava
apenas um pedaço de intenção,
abriu-se um precipício – cores fingem...
Faíscas, pigmentos, luz escrava,
em rápidos lampejos passam, dão,
um jeito de esvair-se na vertigem.
Nilza Azzi
👁️ 1 524
Autorretrato
A juventude passou, foi embora;
maturidade chegou. Mas que bom!
Toda experiência nos cobra penhora,
saber viver, — agradeço esse dom.
o tal chapéu preto, o xale marrom...
Imposições não me valem agora:
— São minhas vestes! — Escolho seu tom.
Mas não serei uma falsa sereia,
a esconder de mim mesma a verdade.
De veleidade esta vida está cheia!
Uma certeza, apenas, me invade:
A poesia me corre nas veias,
— hoje melhor do que em tenra idade.
Nilza Azzi
👁️ 1 486
Desastre
Escrevo este soneto tempestade,
pesado como chuva de verão.
Em gotas, caem fortes, pelo chão,
palavras proferidas com vontade
de escorrer como a água, quando invade
e leva tudo em forte aluvião.
Depois, do que sobrou, a liberdade
de escolha, entre os escombros, pois dirão
que a Lua sempre brilha após a chuva...
Assim, qualquer poema vale a pena,
ainda que não fale. − Que bobagem!
A rima segue à toa e sem vantagem,
desgosto que acompanha a cantilena,
embora já não pense no que devo.
Nilza Azzi
👁️ 27
Inverno
Os dias me parecem sonhos longos,
durante o inverno, quando é cedo escuro,
enquanto o tempo escorre sem futuro
e nos mosteiros repercutem gongos...
E as noites de um tecido vasto e puro,
tecem contornos rútilos e oblongos
nos telhados escuros, nos prolongos,
e o mundo é uma tristeza sem seguro.
O frio, sempre esse frio estranho e mau
que me vara as entranhas, fundo, é tal,
é fruto da distância e da carência
da fonte, a principal luminescência...
E as noites se confundem com os dias,
sem qualquer tepidez, noites vazias...
Nilza Azzi
👁️ 540
Meus cuidados
Num mundo translúcido, eu vou caminhando,
na vaga procura de um elo perdido,
de um tempo distante do qual não me olvido;
a busca empreendida do como e do quando
perdi meu destino, esqueci do comando,
caminhos desfeitos do sonho de amar.
É clara a noção do que vale um bom par,
no imenso oceano, na estrada da vida;
o quanto é importante seguir destemida,
pisar nessa areia, a caminho do mar.
Ao longo da praia eu procuro o teu vulto,
mas nem mesmo a sombra eu encontro; vou só.
A areia resseca, é ardente, eu fiz nó
das minhas lembranças e não mais consulto
a alma que (pobre!) procura um indulto
e não se fatiga do seu caminhar.
Só escapa um lamento que ecoa no ar
e é dele que todos vivemos rodeados...
Mas quando te encontro, lá vão meus cuidados;
te alcanço em meu sonho... eis-me à beira do mar.
Nilza Azzi
👁️ 23
Saturnina
Quando o vento soprava quase rente
e as folhas mais rasteiras agitava,
em meu canto pensava complacente
nos deuses que mantêm a vida escrava.
Se a alma não permite, não consente
ser perturbada ao tempo de uma oitava,
decerto não lhe é indiferente
a força com que a algema se lhe crava.
Vagando pelo mundo, é eremita,
caminha apoiada em seu cajado,
carrega uma lanterna e exercita
viver sem ter alguém sempre a seu lado.
Da convivência humana, que ela evita,
renega o tal viver equivocado.
Nilza Azzi
👁️ 27
Torpor
Já não há para mim qualquer poesia;
não sei, nem mesmo, se ainda existe prosa
ou se a mente findou tola e vazia,
sem mais lembrar que fora habilidosa.
Não há palavra que me valha um dia,
nem há rimar, nem rima milagrosa,
que vá curar a dor mais arredia,
esta tristeza que ora me desposa.
Que vida é essa? Vida que afeiçoa
a imensa força sobre todos nós,
mas não nos diz o que fazer, após
ter sucumbido aos seus ardis e loas...
– Por que me prende a este mundo lasso
e assim me faz saber do meu fracasso?
Nilza Azzi
👁️ 31
Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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