Escritas

Lista de Poemas

A lua


Bela ela brilha e reina no céu.
deixa seu rastro em sinais de luz.
Quando se esconde, perde-se, é fato,
grande beleza em noites escuras,
onde se esconde a ave e a caça.
 
Falte o luar, então, nem por graça,
pode-se achar o rastro cruel,
de um sorrateiro lobo que aduz,
a perseguir as pobres criaturas
com aguçado ouvido e olfato.
 
Mas se um poeta ama de fato
e a lua cheia, pelo céu passa,
a inspiração se agita e reluz:
e não escapa tinta e papel
que não descreva suas agruras.
 
Se a companheira, pelas alturas,
sabe que a dor sentida é um fato,
o sonhador não faz escarcéu
e, disfarçando, bebe da taça:
bebida estranha, sabe a alcaçuz...
 
Lua formosa, minha fé pus, 
busquei azeite e doces canduras;
deixei as flores, lá onde grassa
água da fonte. Não falte o tato.
Ao meu amado, o pote de mel.
 
Nilza Azzi
#cinquina
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Selo


À tarde, quando o Outono bate à porta
e o vento sopra baixo, agita as folhas,
se vens falar de amor, a mim não tolhas,
nem faças dessa via a rua torta,

na qual eu vá seguir sem ter perdão.
Os ares já permitem ver encantos,
nas vestes mais charmosas, ou nos mantos
que aquecem corpos... Quero a ti, então,

a fonte mais real que traz prazer
à vida interna, ao mundo azul do centro,
às formas tão intensas, quando adentro
a inércia frágil, própria a todo ser.

Mas, caro, não me beije à luz de velas,
se o nosso amor, de fato, tu não selas...

Nilza Azzi
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Tolices


Ah, se de fato não se consentisse
que nada se dissesse assim, à toa,
por vaidade, até mesmo por tolice,
ou só porque o silêncio descorçoa.

E se da voz, o som não mais se ouvissse,
levando essa canção que só destoa, 
a mesma loa em forma de sandice,
a frase que compõe qualquer pessoa.

Reservaria um tanto dos meus sonhos,
poemas que jamais escreveria,
os ninhos de algodão, meus pensamentos.

E como os anjos, róseos e risonhos,
viveria nas nuvens, noite e dia,
bem longe deste mundo barulhento.

Nilza Azzi
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Retrato de alguém


Sou assim sem graça, sem glamour ou dramas
o que em mim se passa, guardo lá nas tramas
de um pensar distante.
Nada por dizer, passo a voz adiante.

Meu modo de ser desafia a norma
pouco sei de mim
do que me transforma nesse ser que, enfim
arrebenta a casca e quer redefinir
aquilo em que se enrasca...

Nilza Azzi

 
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Príncipe do amor

Sem lembrar que a vida é plena de amor,
morri sem querer, me  esqueci de tudo.
Deslizei no limbo... Era furta-cor

toda a sensação desse espaço mudo
− minha alma oca estava confusa −
uma concha seca era seu escudo.

Uma sugestão, quase uma recusa,
um desequilíbrio, o dia desperta.
Uma nova linha... Uma ideia cruza

a estranha dormência, sinal de alerta.
Era o meu herói num cavalo branco?
Só o coração, a verdade, acerta:

– Mas que reação... Mas que solavanco!
Sinais da paixão, quase a perecer,
era a exaltação em estado franco.

Príncipe do Amor, sonho do meu ser,
acenas ao longe, de ti preciso...
Não sei o que fiz por te merecer,

por entrar contigo no paraíso,
no mundo perfeito das terras altas,
de horizontes vastos, que além diviso.

Se meu corpo avisa que tu me faltas
e minh’alma busca o amor distante,
entre nós se ajusta uma nova pauta:

– Sei que vou te amar... Que seja o bastante!

Nilza Azzi #terzarima

 
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Bucólica


A sombra da mangueira compensava
o peso do calor.  Era agradável
notar que além do voo de uma ave
o céu era imutável como estava.

A luz do sol cegava de tão forte.
O lago cintilava. Ao longe o gado
bebia a água com algum enfado,
o vento não soprava mais do Norte.

Os olhos descansavam sonolentos,
nas garças brancas por ali perdidas,
as formas adelgadas e compridas,

o mundo a espiar por um momento.
O ronco de um trovão feriu a cena
− A paz não perdurou, foi tão pequena.

Nilza Azzi
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O impossível nós


Quando contempla a sucessão dos dias,

esse rosário de infinitas contas,
que lhe escorregam pelas mãos vazias,
por dedos pasmos, ante as horas tontas,

guarda a tristeza das ave-marias,
das ilusões e das certezas prontas...
Se redescobre o amor e as fantasias,
como afastar as dúvidas e afrontas?

Livra ao silêncio um grito sufocado,
de extrema rebelião, pelo pecado
de amar assim a quem amar não deve.

Mas o inimigo é sempre mais feroz,
tempo suspenso  que lhe cala a voz,
pelo impossível desse sonho breve.

Nilza Azzi

 
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Borboletas


E se não mais houvesse as borboletas
azuis, riscando o ar no céu de agosto?
Seguidas de monarcas, por suposto,
em pretas e amarelas piruetas...

Vacila o pensamento, predisposto
a crer nesses ardis, fazer gazeta,
deixar que a forma inerte se derreta,
cair na realidade, a contragosto.

Se mesmo aquelas simples e amarelas
fugissem dos recantos do jardim,
teria o meu olhar, quais alegrias?

— Apenas as crisálidas vazias,
a imaginar que a vida é mesmo assim,
um campo de passagem, sem sequelas.

Nilza Azzi
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Lógica


Ali, aos pés de Deus, estava uma criança
que olhava tão curiosa a sua barba branca.
Se com ingenuidade, ideias ela avança,
o Pai com seu poder, perguntas não lhe estanca.


E eis que vai lhe arguir, com toda confiança,
na prática infantil, que sabe ser bem franca,
por que é que a cor do céu é branca? E lhe afiança,
bondoso, o nosso Pai: – É a paz que nos descansa!

Com toda seriedade e brilhos pelo olhar,
pensa que o Criador as cores escondeu...
Relembra o seu estojo e os lápis de pintar

e escolhe que prefere o mundo abaixo, seus
espaços em que a cor enfeita terra e mar,
e não pode entender a lógica de Deus!

Nilza Azzi
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Avesso


A poesia, quando nasce, as rimas finas
esparrama pelo vão das entrelinhas.
A saudade já não cresce mais sozinha;
pelo tempo, uma esperança descortina,

num futuro que procura, que adivinha.
Ao dormir e ao despertar qualquer menina
tem um sonho e um coração que não combina
com o cinza do borralho da cozinha.

Quando a rama já vai longe e bem viçosa,
batatinhas são colhidas com cuidado
e se enxutas vão render um bom purê...

Adormece o coração e ninguém vê
que o poema tem avesso, um outro lado:
— certo humor que a desventura enfrenta e glosa.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!