Lista de Poemas

Tinta

No íntimo as cores desbotando.
O olhar ofuscado no labirinto.
Tinta do teto no chão pingando.
Pigmentando um pensamento limpo.

Sem brilho viver não é sorrir.
Se não esta no olhar onde estará?
Umedecida a dor começa a cair.
Peito destituído ao corpo voltará?

Liberdade sem amor é prisão.
É provar um veneno letal.
É parada fora da estação.
Alma esculpida na lápide em metal.

Desamor é placa de contramão.
Entrada na via infernal.
Rua sem retorno ou conversão.
Ruela escura do bosque lateral.

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Vai

Vai.
Esconde-se em mim agora.
Só assim, me salvará em outra hora.
Eu te preciso e você sabe.
Nunca nos enganamos,
Sempre, assim nos aceitamos.
Vai.
Invade também minha alma.
Contamina-me o espírito.
Domina minha mente.
Deixa meu cérebro dormente.
Vai.
Desce pelo meu corpo.
Instiga meus desejos de sedutor.
Faça amor sem nenhum pudor,
Suspira embaixo do cobertor.
Vai.
Faça com que eu tenha medo,
Prometa revelar nosso segredo,
Me deixa chupando o dedo
Parta de manhã bem cedo.
Vai.
Não gosto de despedida.
Quero ainda te ver despida.
Ao sair só abane
Com a mão erguida.
Vai.
Aumente esta ferida,
Finja que é pra toda vida,
Mantenha esta postura atrevida,
Se a saudade bater, me acorda ou me liga.
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Cardio

Pretensiosos estes cardiologistas. Pensam entender de coração.
Tenham a santa paciência! Por acaso são poetas?
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O SEQUESTRO

Após o sequestro fui roubado.
Levaram-me a vontade de escrever.
As rimas.
Os versos.
O poema da poesia.

Dureza foi ver a inspiração
Sendo carregada sem dó.
Eu que a preservava tanto.
Mas eles, pra meu espanto.
Consumiram-lhe em uma vez só.

Meu último poema
Foi arrastado ainda inconcluso.
Puxaram-no pela perna.
Ainda estava tão frágil,
Tinha versos pela metade.

Sem título definitivo.
Não entendo tal maldade.
Um bebê em gestação.
Rodando pela cidade.
Que ato de crueldade!

Não existia motivo.
A maior atrocidade.
Nunca saberei a razão.
Despi-me de vaidades
Pra fazer o pedido de prisão.

Por favor, prendam estes bandidos.
Eles foram muito ousados.
Levaram um poema inacabado.
E mantiveram o poeta silenciado.

Pensando por outro lado,
Talvez nem sejam tão culpados.
Eu tenho sido descuidado,
Ando muito distraído
Melhor perdoar estes indivíduos.
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Música da vitória

O melhor do jogo é ganhar.
O vencedor é aplaudido.
Sobe ao pódio, é premiado.
O perdedor nem será lembrado.

A vitória faz amigos
Bajuladores em profusão.
Perder faz ser esquecido.
Ninguém pra te dar a mão.

Triunfar vale a taça.
E uma princesa pra valsa.
Fracassar não tem valor.
Apenas mais um sonhador.

Sem o primeiro lugar
Nunca farás história.
Não terás par pra dançar
A música da vitória.

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Dores

Bom era quando as dores vinham das pancadas.
Das pisadas em pregos.
Do braço quebrado.
Dedo queimado.
Das enroscadas em unhas de gato.
Das caídas em barrancos.
Das picadas de insetos.

Era um tempo em que a cura não demorava.

As dores de hoje atingem a alma.
Degeneram o cérebro.
E não tem medicação.
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Bomba

Armei uma bomba
No meio do mundo
E quando explodiu
Parti-me em dois.

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Na próxima página

Manuseio com o cuidado de quem ama.
Folha por folha. Uma por vez.
A formiguinha do Quintana.
Encontrarei logo ali, talvez.

A próxima página tem um grito.
Um risco. Um rabisco. Gerúndios.
Olhos espiando, café esfriando.
Um poeta aflito gestando.

Tem a ilha querendo sair.
O rio que entra no mar.
A lua começando a surgir.
E um beija-flor no pomar.

Vinícius compondo sonetos.
Olavo ouvindo uma estrela.
Carlos e seus anjos tortos.
Em Pasárgada, amando, Bandeira.

Dias escutando o sabiá.
Drummond consolando José,
Nos versos íntimos Augusto.
Na bola! Adivinha que é?

Romeu acariciando Julieta,
Titanic começando a afundar.
A baderna do boi da cara preta.
E um sofá pra Beethoven sentar.

Mona Lisa sempre sorridente.
Letras de poetas expoentes.
Comédia divina de Dante.
O Quixote Miguel de Cervantes.

Não sei o lado certo onde esta.
Com a mania que até hoje tenho,
De traz pra frente venho
Folhando de lá pra cá.
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NEM SEI

Construí imaginários sobrados,
Os mesmos antigos.
Enormes abrigos.
E fiz jardim
Ao fundo.
O mundo de branco,
Pintei.
E te encontrei
Entre cervejas
Que foram abraços.
Foram beijos e desejos.
E te paguei.
Quanto? Nem sei.
E agora,
Estou envergonhado.
Por ter comprado
O que não dei.

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O FUMANTISMO

Admiro incansável o escritor. Este colega do dia-a-dia. Conta
suas produções com tal entusiasmo que me excita a escrever algo. Qualquer coisa. Se sair em linhas subtraídas chamo poesia, se extenso, conto.
Tarefa guerreira é escrever. Às vezes uma palavra atira-se em outra e quebra a muralha destruindo a frase. Não a recomponho. Se esta, por ventura, vier a ser tombada pelo patrimônio histórico literário, os historiadores que a reelaborem. Pior mesmo, e isto é o mais provável, se não tiver nenhum valor. É enrolar o papel o lotar o balde de lixo. Para mim há uma saída quando faltam palavras. Ascendo um cigarro e elas emergem em meio a fumaça. Mas os escritores (ou não) que não fumam? Deve ser terrível. Talvez consumam 'chicletes' ou sei lá o que fazem. Agora, uma coisa é certa: nada melhor que a fumaça do cigarro para trazer ideias brilhantes. Não importa se o pulmão está cancerígeno. Se a garganta incha, se o coração dispara. Afinal, o escritor não precisa destes em pleno funcionamento, sua tarefa é apenas escrever.
Portanto o escritor pode ser fumante. Se morrer jovem ótimo. Se for vítima do cigarro, excelente. Não e mais fácil à obra fazer sucesso após a morte de seu criador?
Então, fumemos colegas 'escritorinhos'. Fumemo-nos mutuamente, até o dia em que os críticos cedam e reconheçam este novo movimento literário: O FUMANTISMO.'

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