Lista de Poemas
Espelho d' água
A imagem refletida no riacho é transversa
e as sombras nele projetadas fazem arte
transmudam-se em bichos de toda natureza
Bruxuleiam
Quando calmo o riacho é regato
Nunca é recatado
e não se ata a nada
Segue toda a vida
Seu barulho arrulha
e embora se contorça não se embaralha
Ao desdobrar-se de si vira reta
e segue plano
Se o relevo se empertiga vira uma queda
Atravessa com força o despenhadeiro
e abraça a moça
despenteia-lhe os cabelos
Faz rodeios para brincar de nada
como criança
Sob a luz é reflexo
espelho fora dos eixos
Tremeluza !
Seus contornos são próprios
e seu chão tem bichos de pedras
gerações inteiras de seixos afogados
sob musgos
em formas surpreendentes
Quando seca vira apoio certo
pedra sobre pedra
Se inverter a rota
me entristece
Sigo é em frente
como diz um parente
Amo o que o compõe e o indefine
Me perco nessa Geografia
E não há lupa que o mostre igual
A sua grandeza é restrita
e sobeja em ser.
Fátima Rodrigues, expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil.
Solidão
Se a solidão te abraça
nos dias mornos de outono
na primavera florida
e nas madrugadas de inverno
acolhe-a como a um poema
a uma flor
ou a um manto
nas voltas que a vida dá
Convide-a a ficar pertinho
aconchegue-a nos teus braços
com as dores e lembranças
tesouros tão bem guardados
que se escondem nos diários
nos sonhos e pesadelos
escutas a voz que a ti chega
nas voltas que a vida dá
Se ela te deixar insone
se te sentires contrito
não a retenha em si
divide-a como puder
no campo
em casa
ou nas urbes
nas voltas que a vida dá
Divide-a com os que virão
contigo dialogar
pois mesmo se a lua míngua
ou se ela brilha inteira
e até mesmo se os amantes
vagueiem quase a ermo
a solidão faz a curva
nas voltas que a vida dá
nos prados e nas montanhas
nos mares e continentes
nos ares e nas cavernas
no espaço cibernético
também nas almas cativas
onde se instala e penetra
ela se apoia e prossegue
nas voltas que a vida dá
Almas em desdita a atraem
que lucidez ela tem !
atrapalhar os amores?
seria mais que insano
por isso escolhe o que é próprio
Para poder indagar
sobre a vida e o ser
nas voltas que a vida dá
Mas se o teu coração sangra
se a falta te acompanha
se isso te interessa
o teu ato em si confessa
e a solidão vê a fundo
de modo que só a entende
quem com ela vaga incerto
nas voltas que a vida dá.
Autora: Fátima Rodrigues
João Pessoa, 07 de abril de 2020.
Os sertões de todos os nós
Os sertões de todos os “nós”
Quando os portugueses chegaram no Brasil
eles não descobriram nada.
Os espanhois já haviam estado por aqui,
mas o verbo descobrir foi posto à prova por uns e outros.
No continente africano e em outros continentes o fato se repetiu.
Como explicar um ato inaugural em civilizações tão avançadas como a dos Incas, Aztecas e Maias ?
Eles estavam lá com suas tecnologias e sua história!
Melhor dizendo: estavam cá!
Aqui no sul, o nosso norte, como bem propôs o artista uruguayo Joaquin Torres García.
Podemos falar de encontros de outros
que deu origem a uma certa invenção dos sertões.
Sobre isso leio, leio, leio a perder de vista,
e quando estou quase a entender adormeço exaurida.
No dia seguinte retomo a minha bendita saga.
Sertam está lá na Carta de Caminha,
refere-se o escrivão aos interiores.
E nós, pessoas comuns fomos nomeando esses nossos interiores
com ações e sonhos ao infinito.
Temos sertão até dentro de nós,
a extravasar a nossa alma,
a secar os nossos rios de lágrimas.
A contar nossa epopeia.
A nos fazer sonhar com um paraíso
aonde jorraria leite e mel, à moda de Dom Sebastião
Sertão de dentro
Sertão de fora
Como dizia Capistrano de Abreu
Um dia ainda seremos um imenso Portugal
Idealiza Chico Buarque, o compositor.
Mas, enquanto as idealizações não se concretizam
morremos de toda espécie de violência, e muitas vezes de tristeza.
Há suicídio indígena nas aldeias e nas beiras de rodovia
Com seus olhares impotentes mirando as suas terras originárias.
Isso, quando a morte não nos chega de improviso
como ocorreu com Macabea personagem de Clarice Lispector
Estória que imita a vida de nordestinas,
presas ao seu destino?
Destino como afirmam alguns sobre Édipo-rei na tragédia grega?
Suicídio indígena é destino?
Eles ocorrem em demasia.
Será destino ?
Aniquilados estão os indígenas com o seu manifesto contra o agronegócio
Mas não esqueçamos da Necropolítica de todo dia,
da Transamazônica à Belo Monte
Nem da dizimação de crianças e jovens negras nas periferias.
Na cinelândia
No aterro do flamengo
na Candelária (....)
Tudo isso é validado do alto da nossa insana filosofia terraplanista.
Digo nossa porque envolve alguns
Da minha parte acredito na existência de um analfabetismo político
em registro ao que nos legou Bertold Brecht
E os sertões?
Melhor interpretá-lo antes que se transforme em desertos verdes.
Em imensos canteiros do agro pop
com seus fertilizantes artificiais, agrotóxicos e colheitadeiras gigantes.
Parafraseando o dramaturgo ateniense Sófocles
o Brasil clama aos brasileiros: decifra-me ou vos devoro!
Fátima Rodrigues – em 04 de outubro de 2020.
Delírios poéticos
Um pai falou para a filha que cabeça de vento é quem vive a inventar estórias
e que a cabeça do escritor Jorge Amado era cheia de vento
A menina quis conhecer o autor cabeça de vento e leu toda a sua obra
Da leitura concluiu:
- como o vento é imaginativo !
E até hoje ela sonha em ser cabeça de vento. Todas as manhãs respira com prazer a brisa do mar e agradece-lhe por aconduzí-la à escrita que tanto ama.
E o pai, embora desconfiado da ingenuidade da filha, rir-se de soslaio
Os dois levam a vida a imaginar, a contar e a escrever estórias fascinantes
- E o vento ?
Preencheu mais um espaço
por meio de uma matáfora.
Escrita e liberdade
A escrita estava pronta
A estrada estava dada
Sem temor
se fez a história
Não há prisões para a palavra
Ela canta, ela voa, ela sangra
Na palavra me faço e me refaço
Na escrita perdôo, crio e transbordo!
A palavra liberta !
Em 06 de setembro de 2020.
Angústia
contido na garganta
que se desloca
e nos atravessa inteiros
Uma dor que sangra
sem tréguas
nas entranhas
gestando um grito
contido lá no peito
Um silêncio
que fala para dentro
a emitir palavras
sem nenhum efeito
Um sentimento
assim tão oceânico
com tanta força
a afetar os nervos
tudo que faz
é tornar-se desengano
Para quem vive
as causas e os seus efeitos
Bagagens, viagens e sonhos
contou os dias no calendário
e começou a separar objetos
Pôs tudo em cima da cama
para nada esquecer
Nada deveria faltar
A cada instante lembrava algo a mais
e quanto mais acrescia à bagagem
mais objetos lembrava
Indagava-se amiúde sobre as necessidades
mas questionava as próprias escolhas
Imaginava prevenir-se dos imprevistos
Supria as demandas por antecipação como se a vida fosse previsível
A certo instante
reavaliou seus pesos
ao entender que viajar
exige leveza
e assim seguiu
Sua bagagem?
Somente os próprios sonhos!
O indizível dos afetos
Um amuleto encontrei
que a tudo se adequa
e por isso me acompanha
em dias alegres e tristes
Amigo, amiga tem nome
Dá-me paz e emoção
força e inspiração
segurança e proteção
afeto e aconchego
À noite ou à luz do dia
É dádida que todos almejam
Seu nome tem cinco letras
e vale mais que milhões
Amiga e amigo são
e me fazem companhia
e comigo compartilham o pão
No uno e no divisível
no dito e no indizível
Na parte e no todo
quando juntos somos nós
e somos também amor.
Plenitude de si
Viver é ser capaz de se recompor a cada pôr-do-sol
e se as sombras da noite não refrescarem a alma
mergulhar sem medo no labirinto de si
até a plenitude.
O tempo e o rio
O rio assemelha-se ao tempo
as vezes corre lento
as vezes apressado
Em seu natural correr
desenha o próprio traçado
As vezes sobe
As vezes desce
As vezes enche até vazar
As vezes escasseia
Faz correnteza
derruba barreiras
estagna
Corre em várias direções
e abraça o mar
em seu desaguar
E o tempo?
Qual é o seu movimento?
As vezes é absoluto
As vezes é relativo
As vezes acelera
Segue e altera seu ritmo
no eterno acontecer
O tempo também descansa
para se reinventar
ou se afoba
e volta a acelerar
Tempo de saudades
dos que se encantaram
Tempo do amor
do nascer
do encontrar-se
de casar
e de se reinventar!
E ainda que o tempo seja dono de si
fala-se em "dar tempo ao tempo",
em busca de um crédito
para amadurecer
ou de se superar
para esquecer ou
para lembrar
para criar, procriar e amar
(....)
O tempo é contínuo e descontínuo
O tempo implica em devir, vir e no que se foi.
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