Escritas

Lista de Poemas

Eu sinto falta


Eu sinto falta 


Das conversas  num canto da sala... diante da mesa
Agora? Nem o telefone toca, só sinaliza
Eu sinto falta, em dias comuns,
da mesa cheia de gente ruidosa,
a recitar  sonoras liras.
Eu sinto falta
da fila do circo, em dias de espetáculo 
era tudo tão alegre: cores, músicas, picadeiro  

Eu sinto falta
das reuniões da escola
e dos dias  festivos
Quem dera eu pudesse...
Rememoro as  repetições cansativas...
Dia das mães, dos pais, dos aniversários
Lembro dos abraços regados a suor e lágrimas
E o que falar dos preparativos para as viagens?
Agora? Parece que a vida carece de sentido
Se todos os dias são iguais, como fazer renascer novos sentidos?

Fátima Rodrigues. Expedicionários,  João Pessoa,  Paraíba, Brasil em 19 de fevereiro de 2024.
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Palavras em gozo e em agonia


É difícil dizer sobre o dizer
À mim basta o prazer da escuta poética
Lá se vão os sons
deslizando em meus ouvidos 
fazendo-se em melodias e em  porvir
atravessando o cérebro, a garganta e a desaguar em pleno ar
Sons, letras e memórias flutuam
às margens da superfície 
onde se criam e recriam 
Lá se vai a bagagem sonora em movimentos
que se opõem  do bendito e ao  maldito
Ressonâncias dialogam ensimesmadas 
Palavras e sons seguem nos subterrâneos  e veredas
criam  possibilidades
inventam sentidos. distopias e utopias
comunicam e ocultam, libertam e coisificam
manifestam e assimilam, negam e afirmam
 O dizer não tem receita 
tanto se mantem como se desvia
Palavras ?  Transmutam-se-em dores e em alegrias que se conectam na espiral de nós, para além dos contornos da vida. 

Fátima Rodrigues
Expedicionários. João Pessoa., Paraiba, Brasil em 28 de julho de 2023.
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Amor em letra morta

Disfarças a dor de ti mesma
E agarrada a esse átimo
A essa fresta 
A essa chama última 
Te mantens ali
quase sem ar
Sem sonhar
Sem ousar
Sem criar
Sem tu mesma
E  havendo tantas
coisas a dizer
ss palavras ficam borbulhando
na boca amarga
O olhar sedento
o corpo sólido e insano
servido frio
no aço uniforme 
que compõe as peças do banquete 
Em meio as sobras 
da farta ceia
em que fostes parte 
sucumbes para ficar
Empurras a memória ladeira abaixoa
armário a dentro
em letra morta
Ficas no sepulcro 
dos teus achados no Tinder
que pensas guardados só em ti
Ledo engano!
O mundo te olha por ti mesma
sem  te vê
Hoje foi assim
amanhã será de novo
até que exercites o teu ser.

Expedicionarios, João Pessoa, Paraíba, Brasil. Em 20 de abril de 2023

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Guerras globais

As guerras do Norte
transpõem as fronteiras
e as armas da morte
perenes campeiam

Em rotas efêmeras
e por acordos vis
adentram em eras
que nunca se viu 

O sangue transborda
nas redes e nos corpos
Às vidas cansadas
impõe-se o fim 

Memórias  narradas
em acordos horrendos
desfilam empávidas
no gozo do gozo  

Em guerra e sem paz
tem-se apreensão
O acordo se impôe
com incorporação 

Violações e sangrias
em territórios armados
Mulheres açuladas
Corpos devassados 

'- A guerra é de quem?
-  É contra quem?
-  Por quê o combate? 
Todes em escuta! (A resposta não vem).
Fátima Rodrigues, expedicionarios, João Pessoa, Paraíba  Brasil em 15 de abril de 2022.
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Correntezas da alma


Oh, correnteza livre!
corres junto ao mar e paralelo à costa
veloz e em desalinho
sem nenhum tempo a cumprir 

Tua voz rima com a luz e o vento 

Rompes fronteiras 
Teces caminhos 
Acolhes em ti as ondas dos rios
e dos mares 

Vozes em ti silenciam 

Em teu ventre prenhe
ondas se acomodam
e vagam da costa ao fundo das águas
das margens às profundezas 

Protegei-me dos teus repentes 

O teu resvalar sorrateiro
em mim torna-se um caos 
É lá onde o meu eu faz-se poesia
e onde prenuncia-se a minha alma 

Não me acorrentes 

Da fluidez líquida 
onde flutuas livre
brota a minha verdade
pura como um diamante 

Sou como és 

correnteza em desalinho
tempestade em copo d'água
tsunami passageiro
Sou brisa que paira além

sou como és.


Expedicionários, João Pessoa, Paraíba , Brasil em 09 de março de 2022

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O pacto da palavra

O pacto da palavra 

                                                                      Fátima Rodrigues 

Uma afiada lâmina 
a percorrer os nervos 
e a resvalar a pele
a contra-pêlo 

Um mar de sons, metáforas e de vazios
põem a palavra fustigada 
em desafio 

Confrontos que põem a nu 
metáforas, hipérboles e oxymoros
desvelam os seus 
subterrâneos por inteiro 

E quando o verso cânone
entoa a rima mensageira
a musicalidade no ar vagueia 

Eis que apaziguada 
a palavra faz-se encanto
a espraiar o seu famoso canto 

Nos palcos
Nas catedrais
E nas colheitas 

É assim que ela alimenta a vida
e fortalecida segue as mulheres paridas 
a vicejarem para além dos madrigais 

Alvissareira e ciente ela resiste
regozijada nas mãos dos que a afagam
e que a imortalizam por toda a sua vida.
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em 27 de janeiro de 2022.
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Perto de ti


Perto de ti sou leve como a brisa
me aqueço em tua pele
e me entrego em demasia 

Perto de ti me enterneço sem fim
sucumbo aos teus delirios
até me perder de mim 

Perto de ti floreio como a primavera
e por assim ser rodopio ao teu redor
liberto como um beija-flor 

Perto de ti tudo é festivo
e eu sussurro em teus ouvidos
Mil odes de amor 

Perto de ti os teus braços me aquecem
e os meus  em ti anelo
para que não fujas de mim 

Em sendo assim
finjo ser o teu sopro
e tu a minha vida
num círculo  amoroso sem fim.
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Ora, as margens

Ora, as margens

Duas margens
Uma e outra À revelia
se olham Distantes
se encontram Seus olhares
em outros
pontos cruzam-se
Margeadas
seguem contornando vidas
Um grito da margem ecoa Alguém o proferiu
ao vento
Uma pessoa segue Allheia
à sua própria margem Segue
Tocada pelo sol
Segue
Nada há de extraordinário na margem
onde me encontro
No ordinário
a vida segue.

Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em 22 de janeiro de 2021.
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O eu poético e o vir-a-ser



Quando nasci não teve anjos nem arcanjos a preconizar o meu futuro
Meu pai, apaixonado pelo saber, profetizou:
- Nasceu uma professora!  carregarás bandeiras em dias de luta e receberás troféus em dias de glória!
Cresci com esse bordão na cabeça
e as palavras são a minha armadura,
não as abandono por nada!
De materiais puros vieram os dias de glória
nada em moeda!
Mal sabia que profecia no sertão é destino
Lá, muitas são as mulheres que silenciam
A sina se cumpre quando nela é dado crer

Em dias de chuva fico a pensar nas sementes que irão brotar livremente
assim como voam as gaivotas
Às sextas-feiras recomendo aos meus que atravessem fronteiras
Imagino um chão de estrelas a iluminar os meus passos
Segredo a eles:
- A Geografia não tem limites, e muito menos a imaginação,
obstinadamente eles tentam...
Sempre em torno do mais próximo horizonte

Carrego as dores e as alegrias do mundo
povoada pela maternidade,
sagrada somente para Maria
O amor de mãe me torna plena quando ciente me escuto
Admiro as mulheres que negam os homens por não se responsabilizarem
e entristecida me solidarizo com as que se encolhem
Por assim ser é que milhares de vidas me atravessam

Escolho as viagens subterrâneas
onde somente o ser dar-se conta e se entrega a tudo que a liturgia não recomenda.
Isso meu pai não preconizou
O meu eu é que por assim ser deságua num mar profundo.
Amo ser gauche na vida, mas se isso me bastasse não namoraria.


Nada fundei que tenha concretude
mas o que é o concreto ?
As abstrações são os meus pilares
simbolizo é com o coração, semeando sonhos.


Fátima Rodrigues, Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil 05 de novembro de 2020.
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Percurso

Caminho
entre encontros e reencontros
que me aprazem e me curam
Do estar junto ao estar só
fendas se abrem
Ciência tenho
é nesses pontos indecifráveis
onde me humanizo
Onde tudo é mistérioso e provisório
me refaço e elaboro o viver
Lá, sou Eu e o outro
Ciente de mim me reencontro
na mais pura introspeção
Nesses interstícios
a solidão vira solitude
No diverso é que existo

Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil. Em 14 de dezembro de 2020.



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