Lista de Poemas
Pedaço de madeira
Jogaram-me num poço e eu não sabia nadar.
Aquilo que um jogador de futebol faz
Para cabecear uma bola no terceiro andar
Eu fazia para respirar.
Os espectadores festejavam.
Não sei quantas bolas cabeceei.
Por estarem saciados
Ou para o festival não dar errado,
Puxaram-me da água.
Os risos rolaram pelo chão.
Depois todos foram nadar.
Do meu lado ficou apenas um pedaço de madeira,
Com o qual eu me armei
E nenhum outro menino percebeu.
Com os sentimentos que me esmagavam
Lancei o troço na cabeça de um deles.
Começou a corrida.
Enquanto eles saíam da água
Eu abri uns trinta metros.
Mas havia meninos maiores, mais velozes.
Então, invadi a área dos cansanções.
Na roça era comum ser sapecado por urtiga bebê.
Mas o cansanção deve ser coisa do demônio.
Não foi o bom Deus quem criou aquela planta.
Os perseguidores desistiram de mim.
Mas eu conheci o fogo do inferno.
Pergunto ao meu eu,
Por que fazemos com o outro
O que não gostaríamos que o outro nos fizesse?
Miro o fundo da minha alma,
O fim do horizonte,
Tudo que é e não é meu
E me perco nesse breu.
Zé Preto
Jogaram o Zé Preto no lixo.
Envergaram a coluna do Zé.
Nunca vi nada igual.
Deve existir por aí, mas eu nunca vi.
Subindo uma ladeira,
O Zé, se quisesse andar de quatro pé,
Era só estender os braços para onde o nariz apontava.
Ele tinha que fazer contorcionismo
Era pra olhar pro céu.
O Zé Preto era um homem envergado
Pelo peso nas costas de seus ascendentes.
Lançar o recém-nascido no lixo
É a continuação de uma história.
Os proprietários da mãe do Zé
Precisavam de comida na mesa,
Roupa lavada e casa arrumada.
Jogaram o Zé Preto no lixo.
O Pássaro da praça
Não é o leão, não é o não.
Feroz é o pássaro da praça
Que se empanturra com a desgraça.
O pássaro da praça agita a fauna e garfa a alma
Dos que comem na palma de sua mão:
Quase toda a fauna.
O pássaro da praça causa trauma,
Dirige na escuridão e joga a pedra e esconde a mão.
O pássaro da praça cisca, belisca e atiça a agitação.
Agita porque se explodir ele ganha com a explosão.
Se não explodir ele ganha com a decantação.
O pássaro da praça não é gente não,
Transforma a vida em uma corrida pelo pão.
O pássaro da praça para colecionar castelos
Esfarela a alma da minha aldeia e semeia flagelo.
O pássaro da praça precisa encher o infinito de alpiste
E pra isso: ele mata e desmata para matar a fome que não existe.
O sono
O sono me puxa
Pelos cabelos que não tenho.
Desperto um pouco,
Vejo-me no meu lugar,
Que eu não sei onde é.
Perco-me em um labirinto que está dentro de mim.
Corro com uma faca nos dentes
Para não sair da minha mão,
Que eu não sei se é minha.
O sono dá um tempo para mim.
Um tempo como todo tempo,
Com presente, futuro e passado
Correndo abraçados.
O relógio não para.
No meu pulso ainda vejo alguma coisa.
Na luz do dia nada vejo.
O sono passa e leva com ele
Algo que é meu.
Meus olhos, meus ouvidos,
Todos os sentidos,
Pelo sono atingidos.
O sono adormece o meu ser,
Põe a minha alma no mar,
Para deixá-la sem peso,
Para ser facilmente levada pelos ventos.
O sono antes de pegar o corpo
Tira a alma pra dançar.
O sono dá razão à falta de razão.
O sono da razão é um pesadelo,
Que embrulha os sentidos em um novelo
Que rola de ladeira abaixo.
Linhas da minha mão
No mundo das linhas da minha mão,
Vejo tudo em cima de um balcão.
Estou sem óculos e é ruim a iluminação.
E a cigana que me ensinou a ler
Se perdeu dentro de mim.
Fico sem saber
Onde pôr os pés no meu jardim.
Olho para frente
Vejo apenas as minhas mãos com um presente indecente,
Embrulhado de ontem.
Ontem mal embrulhado,
Com o lacre violado,
Com o endereço errado,
Com a validade vencida.
Quem toca o presente
Não sente a minha vida.
Não quer saber de nada,
Nem de mim nem de ninguém.
Diz que o outro é uma escada
E dos anjos ouve “amém”.
Nas linhas das minhas mãos,
Vejo que não tenho tempo
Pra apurar a minha visão
E saborear meus alimentos.
Meu avô
Parei para ouvir dois repentistas,
Que davam alma a uma feira camponesa.
Ao lado de frutas, verduras e legumes orgânicos,
Coisa boa para o corpo,
Ofereciam coisas para a alma.
Com tudo na ponta da língua, relampeavam as palavras,
Desenhavam um quadro do mundo rural.
Ali viajei pra minha infância.
Senti o vento, vi o baile das árvores,
Ouvi os pássaros festejarem o amanhecer.
Vi os aboios do meu avô,
Que cantava e contava o que via.
Ele não sabia apreciar pratos chiques,
Degustar Beethoven, Picasso, Camões.
Mas não alimentava a alma com alimentos enlatados,
Temperados ao gosto de quem perdeu o paladar
E de quem só é capaz de sentir quando põe a mão no bolso.
Meu avô gostava de pôr os pés no chão,
Equilibrar a cabeça, montar e galopar sem se curvar,
Sem seguir os ventos que arrastam tudo para o mesmo lugar.
Não abria mão de ser dono do próprio nariz.
De outro modo, não se sentiria feliz.
Aboiava, cavalgava, cantava, contava, escrevia cordéis...
Gostava de usar a voz para desatar seus nós.
Fazia e refazia os seus papéis.
Corria para onde queria,
Dentro dos limites que havia.
Livre até os ossos... é um sonho ou pesadelo.
A verdade também está nesse novelo.
Mas meu avô dizia que depois dos filhos e da mulher,
Buscar um barquinho de verdade
Era o que o mantinha de pé,
Para balançar o esqueleto
Sem ser balançado, lançado nas ondas
Para que a elas responda como o eco à voz.
Estando na rede sendo apenas um dos nós
Que não amarra nem solta, apenas conecta.
Apenas um conector.
Isso nunca seria o meu avô.
Ele sempre soube onde queria estar.
E eu sei que ele está em algum lugar.
Apesar das chamadas de vídeo, do envio de áudios...
O meu avô gosta de receber cartas.
E eu escrevo para o meu avô.
Não há tempo
Ganhamos tempo com a máquina de lavar,
Com liquidificador, com o avião...
Da cozinha às vias de comunicação,
Ganhamos tempo.
Ganhamos tempo com os robôs, com a internet,
Com a linha de produção...
Ganhamos tempo, ganhamos tempo.
A distância e o tempo nos estendem as mãos.
Há ganho de tempo.
Mas eu não tenho tempo, não sobra tempo para mim.
Há ganho de tempo, mas... enfim:
Não há tempo para os filhos.
Não há tempo para os pais.
Não há tempo pra dona Maria José da Paz.
Não há tempo para empatia...
O dia a dia escorre na correria.
Não há tempo para ir ao médico, ao dentista, ao cabeleireiro...
Às vezes falta tempo até para ir ao banheiro.
Não há tempo para dar as mãos.
Não há tempo para um irmão.
Não há tempo para combater a fome,
Também não há para saborear o que se come.
Não há tempo para sonhar, enxergar, caminhar...
Não há tempo pra pensar!
Pra pensar!
Meu Deus! Onde vamos parar!
Não há tempo pra ver as estrelas, a lua
Ou pra respirar embaixo de uma árvore no meio da rua.
Não há tempo fora do tempo de servir.
Servir o tempo todo.
Não só de segunda a sexta;
Sábados, domingos, férias e feriados.
Servir aos bens, serviços e seriados.
Não há tempo a perder.
Todo o tempo é pra correr.
Correr como um trem
Na linha e sem saber pra quê ou pra quem.
Há ganho de tempo em todo lugar,
Mas ele é arrastado pelas águas que correm para o mar.
Quanto vale a vida?
Ontem algumas vozes diziam que o homem vale o que tem.
Hoje é a aparência a maquinista desse trem.
Quem da maquinista não se declarar devoto,
Ousar não consumir pra aparecer na foto,
Nos olhos da maquinista não vai poder se ver.
O ter engoliu o ser e vomitou o parecer.
O parecer não tem nada a ver com o que é verificado.
O endereço certo é o errado.
Quanto vale a vida
Nessa corrida sem chegada e sem saída?
A vida é um passeio
Que meu coração não quer que acabe,
Mas sabe que vai acabar.
– É preciso aproveitar enquanto durar.
Não sei bem o que é aproveitar.
Consumir?
Olhar pra câmera e sorrir?
Pôr o passeio na bolsa ou no mercado?
Ser mais um produto enlatado?
O passeio passa como um passarinho
Que cruza o espaço azulzinho.
Não quero passar o passeio correndo pra chegar a algum lugar.
Quero ver, ouvir e sentir o vento e tudo que me toca.
Quero saborear a minha pipoca.
Quero falar o que eu penso,
Quero usar o meu lenço.
Meu passeio não cabe na bolsa nem no mercado
Se eu trocar o passeio por uns trocados
Gasto o tempo todo, pra ganhar a vida.
Gasto a vida para ter outra vida.
Que vida? A vendida, a comprada?
Mas a vida é uma só.
E assim as duas vidas em vida viram pó.
José
Enquanto um gato tirava uma lagartixa pra dançar,
Seu José apreciava a brincadeira com um sorriso no olhar.
Um olhar indiferente à agonia do brinquedo.
Pensei em pôr a mão ou apontar o dedo,
Mas seu José era o dono da casa e do gato.
A conveniência e a covardia apagam a luz do dia.
Isso propicia a alegria dos ratos.
O gato não queria se alimentar,
Queria brincar.
Brincou, brincou e largou o brinquedo,
Que não sentia mais medo,
Não sentia mais nada.
A escuridão dentro de mim ameaçava a parte iluminada.
Eu não sei o que é certo ou errado pro seu José.
Parece que ele é de outro mundo!
Ou esse é o mundo de seu José?
Cada gole de café
Quero evoluir.
Quero me aproximar dos loucos
Que falam nos muros, nas passarelas,
Nas celas de uma prisão,
Utilizando tintas ou o que tiverem em mãos.
Deixam lá sua expressão,
Seu espírito, seu coração…
Expõem o presente.
Tocam sem moeda de troca.
Tocam no presente,
Tocam o barco, seguem
Sem lançar os olhos para trás ou para frente.
Tocam no presente,
Sem nada saber, mas sabendo que é gente.
Esses loucos desde as cavernas
Sabem que pode se sustentar nas próprias pernas.
Quero me aproximar dos loucos.
Na literatura dessas criaturas a Terra é redonda.
Quero a minha prancha nessa onda,
Não na lama da Terra plana.
Quero me aproximar dos loucos
Que gritam nos muros,
Que veem uma tela em celas invisíveis.
O louco consegue desfrutar do que faz,
Sem precisar de algo mais.
Quero me aproximar dos loucos.
Quero essa vibração.
Isso não é ser indiferente à aprovação, à apreciação…
Não, não é isso não!
É apenas não escravizar o coração.
Encanta-me as vozes dos poetas de banheiro.
Encanta-me os passos do seu João Oleiro,
Que ganhava a vida com telhas e tijolos.
Mas dizia que vivia quando fazia o que não vendia,
Quando tirava do barro pássaros, vaso e pessoas,
Que eram os filhos que ele não teve.
Uma voz me diz que o amor mora longe dessas loucuras.
O amor!
Quem desenhou a face do amor?
Que fantasia deram para ele?
Quem disse que ele precisa de caracterização?
Quem pode duvidar do amor de seu João
Pelo que faz, pela paz
E pelo que lhe satisfaz?
Eu não sei pra onde vai meu coração.
Mas quero estar com os pés no chão,
Quero estar na minha mão,
Quero estar onde eu estiver
E saborear cada gole de café.
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