Lista de Poemas

VICINAIS DO VERBO

Por entre os velados vicinais do verbo 
a pupila da noite 
encara-me, tão imensamente dilatada.

Escrevo a eternidade em meus versos,
mas é sempre no fio da navalha.

Será disparate dos meus olhos,
ou a lua, do azul, a lançar-se, 
me ameaça?

 

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TEU SIGNO

À tua espera, 
espreito o silêncio da casa vazia. 

Teu signo de mulher 
incide claridade e mistério
sobre todas as plantas e objetos,
tal qual a própria manifestação do absoluto.

Nada é indiferente à tua falta:
os livros, 
o chá sobre a mesa, 
o fumo pela metade, 
a porta entreaberta, 
as sombras pelo chão,
tudo é-me, então, tão vago de saudade.

Teu vasto espectro 
transpassa o espaço por inteiro. 

Tens em ti, 
na sublime realidade do teu ser,
a imperativa participação no concreto
que torna o mundo ainda mais perfeito.

Teu nome é exato, 
e tua forma circunscreve-se nua 
na abóbada do tempo,
feito expressão implícita
do meu verbo.                                                        

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SOB A PALPEBRAL SOMBRA DO HORIZONTE

Ao azul sabor do vento,
sob a palpebral sombra do horizonte,
sigo desatinado por entre sendas do silêncio. 

Devaneando reminiscências, 
desanuvio-me.

De repente, a noite me acontece, 
perpetuamente grávida de mistérios,  
debruçando-se, imensamente negra, 
ante o abstrato tempo da espera do verso.

E assim, amalgamado a este sereno,
desvencilho-me por inteiro 
da seta cinza do ocaso, 
através das asas enluaradas 
da palavra que tanto me abisma.   

 

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DOS PEQUENOS ENCANTOS COTIDIANOS

Por volta das dez horas 
d’uma cálida manhã de sexta-feira, 
erguida dos olhos etéreos do poeta,
uma mulher de cabelo negro e vestido vermelho
estampa, na mestiça e esguia panturrilha, 
a desvanecida tatuagem de uma rosa, 
ao que parece, também vermelha.

Sua postura, resignada e altiva, 
frente o perigo da iminente travessia 
daquela tórrida e indiferente avenida, 
contrastava com o desatino 
d’uma pequena vira-lata caramelo,
que desafiava com doçura e soberba,
o incomensurável ímpeto 
dos homens enclausurados 
em seus próprios automóveis.

E, naquele prosaico e insigne instante, 
o estardalhaço das buzinas nada pôde 
perante o brilho do sol sobre a terra,
e nem o assombro da guerra nuclear
foi capaz de reprimir a esperança
que resplandeceu no verde dos canteiros.

Nem mesmo o agorento desamor, 
sublimado no triste e inválido coração 
dos que vivem naufragados em si mesmos,
foi capaz de macular a delicadeza revelada 
à atônita sensibilidade do poeta.

 

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APRESSA-TE O PASSO, POETA

Apressa-te o passo, poeta.
Apressa-te e vá adiante.
Nunca temas a morte certa,
nem tampouco a vida errante.

Apressa-te o passo e enceta
tua cidade
de ruinas radiantes.

Apressa-te o passo e enxerga
tua sombra
entre outros transeuntes.

Apressa-te o passo, poeta.
Apressa-te e não vacila.
Lembra-te do caminho de Rimbaud.
Não te esqueças do teu encontro com Sibila...     

 

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MELANCOLIA

Fiz-me poeta numa cidade que já não existe mais.
Por isso atravesso a oblíqua madrugada 
verso adentro,
e traço na espiral do silêncio
diferentes caminhos de volta...

Por isso ignoro as luzes do poste,
e sinto na dureza mórbida do asfalto
a gélida dimensão do esquecimento.

Por isso acendo as estrelas, 
por isso aqueço as esquinas.

Por isso 
clarifico o instante desprendido do tempo, 
e surjo dum largo ontem
por entre a espectral bruma
desta sempre jovem melancolia.                                                                                                                                                                                                                                               

.                                                        

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POEMA DESVAIRADO

Estado de graça 
é coisa restrita aos santos,
loucos e poetas.

É sentir no peito 
a silenciosa e prismática anunciação da palavra,
(desnuda de qualquer intencionalidade ou cosmogonia).

É estar permanentemente comprometido com a vida,
todavia, sem a necessidade de tratados metafísicos, 
muito menos morais...

É a pura percepção do seu ser no mundo, 
para além da arcaica dualidade kantiana.

É acertar-se com seus demônios
na concavidade clarividente do espelho.

É um desabrochar-se em luz e devaneio, 
em meio à rigidez exasperante da escuridão.

👁️ 70

POEMA INDEFINIDO

Da onírica neblina desponta a fria manhã.
Vário é o dia; ainda assim, pipiras no céu 
tecem, nos meus olhos, ninhos de melancolia.

A tarde me exaspera como um rio de fogo imenso,
correndo com sua fúria pelos quatro cantos da terra,
para depois morrer seco no incontornável vazio de mim.

Quando a noite, por fim, vem,
tua negra ausência revela-se sobreposta 
à pálida luz da vazia sala de estar.

De repente, 
transparecem, neste tenro e triste espaço,  
certas formas elusivas, prescindidas lentamente,
do rígido silêncio dos inanimados objetos
e da etérea poeira de que se compõem as estrelas. 

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O ABSURDO DA SOLIDÃO

Ébrias perspectivas 
precipitam-se através da réstia do luar,
e ressoam na acinzentada porcelana 
deste assombroso silêncio,
deixando-se, sombriamente, revelar, 
nos meus olhos apartados dos teus,
o absurdo maior desta solidão.      

Recomponho, então, um antigo verso, 
enquanto a eterna poesia 
desvela-me, assim, noite adentro,
sobrepujando-me na ponta dos dedos, 
no nó da garganta:
esta impetuosa necessidade
de falar de amor com você.

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POEMA DEFINITIVO

Era domingo e eu me lembro.
Lembro que vagava, e apenas vagava,
por dentro da vermelha e cinza noite, 
e que acompanhado somente
de tantas e inauditas mágoas,
silenciava, com minha dor de poeta,
todos os sons da nossa sempre
invisível cidade...

Desolados,
meus olhos miravam minguantes  
um céu profundamente oco de mistérios
(céu daqueles que vivem sem amor), 
enquanto meus passos seguiam tristes, 
entre os meandros do vazio
e os melindres da solidão...

E quando tudo parecia já entregue e consumado,
tu, num singelo ato de graça,
na última encruzilhada do destino,
no exato instante em que tudo acontece,
tu, enfim, te anunciaste: simples e total,
como a luz de uma nova manhã
premeditando a eternidade.

 

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Comentários (3)

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muito linda a poesia ! parabens!!!

lagazaz
2020-07-27

Parabéns poeta... é um prazer conhecer os escritos que tem vida

Kaio Gabriel
Kaio Gabriel
2020-07-14

Parabéns professor, belos poemas