Lista de Poemas
Meditação
apesar de toda ciência...
o duro mesmo
é morrer de amor mal tragado,
e viver em eterno flerte com a demência...
o cigarro é o prazer possível,
o momento silenciado,
o grito no peito contido,
é a mão, o gesto, e o gasto...
o amor
é o desejo invencível,
a dor jamais dita,
a esperança irremediável,
o próprio colo do inimigo...
Kennedy Araújo
Poema para a mulher que agora espero
É a mulher por quem sempre esperei...
E essa espera tão doída,
E ao mesmo tempo tão bonita,
É a espera que me quebra
E me fascina.
É a espera que me sufoca,
Me liberta, me alucina...
É a espera que me invade,
Me conquista, me edifica...
Por ela espero a espera que for.
E mesmo que essa espera
Faça meu peito transbordar em dor:
Eu espero, eu espero, eu espero...
Kennedy Araújo
DO FOGO ÉS O AZUL
Na alta lua cheia de junho
tua pele preta resplandece
por toda extensão da natureza.
És por inteira,
e comungas, em silêncio,
do mistério da terra.
Do fogo és o azul.
És a sede do mundo,
a transparência da água.
Tens nos olhos a luz
que decanta a eternidade,
e nas mãos
a leveza que sustenta o infinito.
Deixaste-me na boca o delicado sabor da pitaia
e nos olhos
a luz bonita daquela manhã de dezembro.
Nada pude contra teus feitiços de mulher
que tu me lançaste com teu choro de menina.
De ti quero apenas a certeza (sempre improvável) do amor
acariciando
o duro cotidiano da minha tácita agonia.
Kennedy Araújo
Na vastidão convexa do teu olhar
borboletas
voarão ao teu encontro,
caso entendas, minha pequena,
que cada manhã
é um jardim suspenso no tempo
à espera
do nosso impreterível encontro.
E mesmo nas tardes de vazios imensos
e de tristezas infindas,
uma nuvem
cairá
sobre a planície abstrata do teu dia,
e te revelará, minha amiga,
o perplexo horizonte
da minha indelével poesia.
E mesmo nas noites mais turvas,
quando o amor se deixa exasperar,
ainda
há de haver estrelas,
amada minha,
e a perspectiva implícita do amanhã
despontando a claridade
na vastidão convexa do teu olhar.
Kennedy Araújo
UTOPIA
Suportei todo o peso do dia
e sua inútil burocracia:
dos papéis,
dos protocolos,
e das enfadonhas filas paralíticas.
Suportei toda imponderável mentira,
dissimulada em riso mecânico,
em gentileza vazia,
dessa gente triste,
de olhar triste,
que sonha apenas
com o fim do dia.
Suportei a tudo, quem diria,
com dignidade
e com modesta alegria.
E se suportei,
foi somente por saber
que a vida,
apesar da amargura emanada
dos que existem miseráveis de utopia,
sempre me valerá a pena,
mesmo que por um átimo de poesia.
CABEÇA DE POETA
Cabeça de poeta é um troço complicado:
horas a fio
nessa delirante busca pela palavra;
palavra pela qual
imagina-se
que tudo que dói
será um dia perdoado.
Poeta
é aquele que, no mundo,
segue desmareado de urgências.
Abstrai, aqui e acolá,
o rendimento da palavra,
não como escolha,
mas como uma delicada fatalidade.
Acomodado no seu trono de silêncio,
O poeta precipita
a sintaxe precisa
do disparate dos seus versos.
FENOMENOLOGIA
Enquanto requento este café de ontem
com promessa de amor vindouro,
a tênue poeira que paira na amplitude da luz matinal,
reincide translúcida sobre o branco do azulejo.
Efemeridades incandescem diante de meus olhos,
colapsam antigas certezas,
põem em xeque meu corpo,
minhas lembranças,
meu ego,
minhas tolas pretensões de poeta,
meus doces delírios com o futuro.
Agora, a xícara de café
mais uma vez fria sobre a mesa
me faz lembrar do mito da linearidade do tempo,
e que toda tessitura lógica do pensamento
nunca refletiu do mundo
o que não fosse apenas aparência.
CANSAÇO
Da pétrea indiferença deste século –
a suma afetação.
A racionalidade técnica, enfim,
resumiu-nos os sonhos.
A rarefeita e multidimensional comunicação,
via satélite,
permutou-nos os sentidos,
obliterou-nos a palavra.
O homem,
escamoteado em algoritmos,
constantemente enfadado de si, perdeu-se
através do esquizofrênico espelho desta interface vazia.
Em meio a tanto desperdício de humanidade,
poderia ainda haver lugar, em nossos distantes olhos,
para o pasmo essencial de Pessoa?
Ou será que das insígnias do cansaço,
preencher-se-ão, para sempre, nossos dias?
O VERDE DO RIO
Em todo lugar, em qualquer tempo,
o constante objeto da minha percepção
é o imanente mistério do teu ser.
A trigueira forma do teu corpo
resplandece através das minhas retinas,
como a claridade dessas manhãs de setembro.
Estás no voo das andorinhas,
roçando o verde do rio;
como estás na branda força do vento
que verga o cimo das árvores
e desvanece, por um momento,
as insaturáveis dores do mundo,
tão profundamente exasperadas em mim.
Comentários (3)
muito linda a poesia ! parabens!!!
Parabéns poeta... é um prazer conhecer os escritos que tem vida
Parabéns professor, belos poemas
Poeta, Filósofo, Professor e Mestre em Educação.
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