DOS PEQUENOS ENCANTOS COTIDIANOS

Por volta das dez horas 
d’uma cálida manhã de sexta-feira, 
erguida dos olhos etéreos do poeta,
uma mulher de cabelo negro e vestido vermelho
estampa, na mestiça e esguia panturrilha, 
a desvanecida tatuagem de uma rosa, 
ao que parece, também vermelha.

Sua postura, resignada e altiva, 
frente o perigo da iminente travessia 
daquela tórrida e indiferente avenida, 
contrastava com o desatino 
d’uma pequena vira-lata caramelo,
que desafiava com doçura e soberba,
o incomensurável ímpeto 
dos homens enclausurados 
em seus próprios automóveis.

E, naquele prosaico e insigne instante, 
o estardalhaço das buzinas nada pôde 
perante o brilho do sol sobre a terra,
e nem o assombro da guerra nuclear
foi capaz de reprimir a esperança
que resplandeceu no verde dos canteiros.

Nem mesmo o agorento desamor, 
sublimado no triste e inválido coração 
dos que vivem naufragados em si mesmos,
foi capaz de macular a delicadeza revelada 
à atônita sensibilidade do poeta.

 

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