Lista de Poemas
O Ilhéu
A ilha é uma porção de terra
que desertou do continente.
Eu, desertor, aliei-me à ilha;
condenei-me a morrer de tédio constante
ou de maremoto súbito;
isolei-me sem papel, sem garrafa, sem farol.
Morri na ilha deserta.
Morri qualquer dia desses
(perdi a conta dos dias).
Vivi de sol a sol e de só a só
(nem sei qual o dia em que não morri).
A ilha é deserta.
Decerto o deserto sou eu - só
errando na ilha deserta;
morrendo na ilha deserta;
sem dia, nem hora, nem data; no ermo
desperto cansado - já morto a termo.
Vivo, morri, morro, vivi.
O tempo é deserto e o espaço é agora:
faço versos e sulcos na areia das horas.
Quem lerá os meus versos que o mar apagou?
Quem dirá que vivi, que morri, quem eu fui, como sou?
Quem me conhecerá além de mim?
Quem me amará a partir do meu fim?
Morri, um poeta deserto, e só agora me dei conta disso:
morri num dia qualquer na ilha deserta
e nenhum noticiário falará do meu sumiço.
Minha ilha jamais vai ser descoberta.
que desertou do continente.
Eu, desertor, aliei-me à ilha;
condenei-me a morrer de tédio constante
ou de maremoto súbito;
isolei-me sem papel, sem garrafa, sem farol.
Morri na ilha deserta.
Morri qualquer dia desses
(perdi a conta dos dias).
Vivi de sol a sol e de só a só
(nem sei qual o dia em que não morri).
A ilha é deserta.
Decerto o deserto sou eu - só
errando na ilha deserta;
morrendo na ilha deserta;
sem dia, nem hora, nem data; no ermo
desperto cansado - já morto a termo.
Vivo, morri, morro, vivi.
O tempo é deserto e o espaço é agora:
faço versos e sulcos na areia das horas.
Quem lerá os meus versos que o mar apagou?
Quem dirá que vivi, que morri, quem eu fui, como sou?
Quem me conhecerá além de mim?
Quem me amará a partir do meu fim?
Morri, um poeta deserto, e só agora me dei conta disso:
morri num dia qualquer na ilha deserta
e nenhum noticiário falará do meu sumiço.
Minha ilha jamais vai ser descoberta.
👁️ 999
Eternamantes
Gosto das coisas duráveis
que as quero permanentes
como gema inalterável
como cena no presente
como nó inarredável
como deus onipotente.
Gosto das coisas seguras
que nelas eu adormeço:
mão de pai na noite escura
um colo como endereço
criador e criatura
olhar do santo de gesso.
Gosto das coisas eternas
que as quero sempre antes
como adulações maternas
como anel de diamantes
como toque em tuas pernas...
Gosto de estarmos amantes.
que as quero permanentes
como gema inalterável
como cena no presente
como nó inarredável
como deus onipotente.
Gosto das coisas seguras
que nelas eu adormeço:
mão de pai na noite escura
um colo como endereço
criador e criatura
olhar do santo de gesso.
Gosto das coisas eternas
que as quero sempre antes
como adulações maternas
como anel de diamantes
como toque em tuas pernas...
Gosto de estarmos amantes.
👁️ 1 189
Novo Mundo
Nessas horas em que tudo desaba
desmorona o cosmo sobre si mesmo
e do Ser e de Deus a idéia acaba
algum verso me escapa e segue a esmo.
Conduzindo um vago sentido d'alma
- desprovido que está de referências -
perambula por entre novas alas
do que agora se faz minha ciência.
Esse verso que anima a vida incerta
ao revelar sinais de um mundo novo
é como a pomba de Noé na descoberta
que põe Colombo em pé, em vez do ovo.
desmorona o cosmo sobre si mesmo
e do Ser e de Deus a idéia acaba
algum verso me escapa e segue a esmo.
Conduzindo um vago sentido d'alma
- desprovido que está de referências -
perambula por entre novas alas
do que agora se faz minha ciência.
Esse verso que anima a vida incerta
ao revelar sinais de um mundo novo
é como a pomba de Noé na descoberta
que põe Colombo em pé, em vez do ovo.
👁️ 904
Canto Desesperado
Este é mais um canto desesperado
e de nada e a nada servirá.
Como a música de muitas músicas
transportará dores;
veiculará males
como transplante de córnea entre cegos
e de nada e a nada servirá.
Ai, dor torturante
que não quero só senti-la
que, só, não quero tê-la
que antes o mundo precisa vê-la
quanto antes todos devem ouvi-la.
Lanço meu canto desesperado no mar da minha ilha:
como garrafa - afunda de peso;
como rede - volta sem peixe;
como barco - parte-se a quilha.
e de nada e a nada servirá.
Como a música de muitas músicas
transportará dores;
veiculará males
como transplante de córnea entre cegos
e de nada e a nada servirá.
Ai, dor torturante
que não quero só senti-la
que, só, não quero tê-la
que antes o mundo precisa vê-la
quanto antes todos devem ouvi-la.
Lanço meu canto desesperado no mar da minha ilha:
como garrafa - afunda de peso;
como rede - volta sem peixe;
como barco - parte-se a quilha.
👁️ 900
Papel de Pedra
A verticalidade do penhasco fincado
tem a grave missão de sustentar o rio
que se derrama e permanece sustentado:
é o rio no alto; a cachoeira; e embaixo o rio.
Indiferente segue o rio seu curso d'água
sem dar nenhum sinal de ter sentido a queda.
Abandonada a penha jaz petrificada
e compõe a paisagem - seu papel de pedra.
Imobilizado e mudo e sempre ignorado;
arrimo eterno e trampolim pro salto alheio...
- morre em areias de nunca se ter chorado;
morre o penhasco de manter o peito cheio.
Velho penhasco que carrega o rio nas costas
e que possibilita o ser da cachoeira:
ninguém o vê ou lhe confere qualquer nota
(exceto eu, que fui penhasco a vida inteira).
tem a grave missão de sustentar o rio
que se derrama e permanece sustentado:
é o rio no alto; a cachoeira; e embaixo o rio.
Indiferente segue o rio seu curso d'água
sem dar nenhum sinal de ter sentido a queda.
Abandonada a penha jaz petrificada
e compõe a paisagem - seu papel de pedra.
Imobilizado e mudo e sempre ignorado;
arrimo eterno e trampolim pro salto alheio...
- morre em areias de nunca se ter chorado;
morre o penhasco de manter o peito cheio.
Velho penhasco que carrega o rio nas costas
e que possibilita o ser da cachoeira:
ninguém o vê ou lhe confere qualquer nota
(exceto eu, que fui penhasco a vida inteira).
👁️ 856
Nudez Castigada
Cai a pétala
e o espinho espeta
quem despe a rosa
quem despetala
quem despetá-la.
e o espinho espeta
quem despe a rosa
quem despetala
quem despetá-la.
👁️ 707
Um Olhar para o Alto
As nuvens contém todas as formas;
todas as fórmulas.
As nuvens fazem escadas
pra que eu suba nelas;
fazem estradas
pra que eu ande nelas;
e eu vou...
Sei da nuvem;
sei da nuvem pelo que eu sei;
e esse meu saber de nuvem
é só meu e dela
e nunca o direi.
todas as fórmulas.
As nuvens fazem escadas
pra que eu suba nelas;
fazem estradas
pra que eu ande nelas;
e eu vou...
Sei da nuvem;
sei da nuvem pelo que eu sei;
e esse meu saber de nuvem
é só meu e dela
e nunca o direi.
👁️ 701
Visões
Ante a mim o horizonte e o mar prostrados...
Deitado, aqui, na praia da Bahia
insatisfeito e meio alienado
eu enlouqueço quieto a cada dia.
Vastíssimo horizonte divisado...
que da oriental praia baiana
a horizontal me faz sempre inclinado
a ver muito além-mar a vida humana.
Basta fechar os olhos um instante
pra ter um mundo vário descoberto;
a vida nova paira no horizonte
e só não vê quem tem o olho aberto.
Pra além do muito mar há nova vida
(diversa desta aqui - precária e triste)
presente na visão bem definida
a qual vejo sem ver, mas sei que existe.
Visões. São só visões - não as acolho:
a minha vida excede o inaparente.
Sou bem maior que o que cabe em meu olho.
Toda visão se inclina ante o vidente.
Deitado, aqui, na praia da Bahia
insatisfeito e meio alienado
eu enlouqueço quieto a cada dia.
Vastíssimo horizonte divisado...
que da oriental praia baiana
a horizontal me faz sempre inclinado
a ver muito além-mar a vida humana.
Basta fechar os olhos um instante
pra ter um mundo vário descoberto;
a vida nova paira no horizonte
e só não vê quem tem o olho aberto.
Pra além do muito mar há nova vida
(diversa desta aqui - precária e triste)
presente na visão bem definida
a qual vejo sem ver, mas sei que existe.
Visões. São só visões - não as acolho:
a minha vida excede o inaparente.
Sou bem maior que o que cabe em meu olho.
Toda visão se inclina ante o vidente.
👁️ 674
Uma Palavrinha
Ouve minha palavra!
ela vale mais que mil imagens.
Abraços, beijos, carícias
- pra isso haja imaginação;
mas para o amor por trás disso
não existe imagem, não.
Eu sinto um sentir sem imagem
cujo objeto é mulher.
Não há imagem pro ser
e a minha palavra é.
A minha palavra é fiel
- expressa-me literalmente -
põe o meu amor no papel
enquanto te acolho na mente.
Assim é a minha palavra
e já te dei toda que tinha.
Já te dei a minha palavra
- imagem da palavra minha.
ela vale mais que mil imagens.
Abraços, beijos, carícias
- pra isso haja imaginação;
mas para o amor por trás disso
não existe imagem, não.
Eu sinto um sentir sem imagem
cujo objeto é mulher.
Não há imagem pro ser
e a minha palavra é.
A minha palavra é fiel
- expressa-me literalmente -
põe o meu amor no papel
enquanto te acolho na mente.
Assim é a minha palavra
e já te dei toda que tinha.
Já te dei a minha palavra
- imagem da palavra minha.
👁️ 673
Trilema Equino
Vivo fugindo de cavalos.
Não, eles não estão no meu encalço.
Andam por aí uivando como não uivam cavalos;
uivam para todos, para ninguém, para si próprios, sei lá!
para atrair ou intimidar dessemelhantes
e eu fujo para além da possibilidade
de atender a alguns instintos bestiais básicos:
eu sou um perigo para os cavalos!
Fujo, também, dos jumentos
- aqueles que roçaram em celebridades religiosas.
Esses trazem uma resignação cortante
nos olhos de peixe morto
calam com os olhos e me atemorizam
(nunca se sabe que castigos imerecidos clamam por suportar
no seu intimismo altruístico)
e eu fujo para longe da porta da conversão:
eu seria um perigo para os jumentos!
Não me esquivo dos burros.
Nutro por eles total desprezo;
nenhuma fascinação me exercem
que não são jumentos, nem cavalos, nem ambos, nem nada.
Incapazes de uivar como não uivam cavalos
ou de calar como não falam os jumentos ópticos
eles são estéreis de ausências híbridas;
estampam na cara a sua burrice explícita
e eu me aproximo, destemido, para aquém da cifra fácil
com uma instantânea intimidade:
eu serei o paradigma dos burros!
Não, eles não estão no meu encalço.
Andam por aí uivando como não uivam cavalos;
uivam para todos, para ninguém, para si próprios, sei lá!
para atrair ou intimidar dessemelhantes
e eu fujo para além da possibilidade
de atender a alguns instintos bestiais básicos:
eu sou um perigo para os cavalos!
Fujo, também, dos jumentos
- aqueles que roçaram em celebridades religiosas.
Esses trazem uma resignação cortante
nos olhos de peixe morto
calam com os olhos e me atemorizam
(nunca se sabe que castigos imerecidos clamam por suportar
no seu intimismo altruístico)
e eu fujo para longe da porta da conversão:
eu seria um perigo para os jumentos!
Não me esquivo dos burros.
Nutro por eles total desprezo;
nenhuma fascinação me exercem
que não são jumentos, nem cavalos, nem ambos, nem nada.
Incapazes de uivar como não uivam cavalos
ou de calar como não falam os jumentos ópticos
eles são estéreis de ausências híbridas;
estampam na cara a sua burrice explícita
e eu me aproximo, destemido, para aquém da cifra fácil
com uma instantânea intimidade:
eu serei o paradigma dos burros!
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