Lista de Poemas

Mareando

Ao mar eu volto
Ao mar me lanço
No mar me solto
No mar balanço.

Ritmo marítimo
Ritmar.

Sotavento, barlavento
Marear.

Mar oscila
Mar rebenta
Mar espraia
Mar tormenta.

Braços ao mar
Braços de mar
Braços abertos
Abraços
em mares abertos
Mares de abraços abertos
Nadar.

Maré vem, maré volta
Maré vai, maré volta.

Mar longínquo
Mar remoto
Mar revolto
Mar é moto.

Moto perpétuo
Maremoto contínuo
Preamar, pós-amar
Mar é mar, ar é ar
Mar é ar, mar e ar

Amaro mar
Amar o mar, amar o mar, amar o mar...
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Os Olhos do Tato

Na madrugada todas as horas são pardas
(e o olhar obsessivo adora simetrias);
toda cor se degrada nas lentes do tato
e formas desiguais ganham certa harmonia.

Abolida a visão em proveito do toque
o contato penetra pela superfície
em diversos sentidos, com um novo enfoque
diluindo na mão o que o olho fazia.

No teu corpo o que eu toco é o prazer exato;
o contorno uniforme que se evidencia
e se espalha por dentro e por fora o contato
e retorna pra mão em forma de poesia.
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Um Olhar para o Alto

As nuvens contém todas as formas;
todas as fórmulas.

As nuvens fazem escadas
pra que eu suba nelas;
fazem estradas
pra que eu ande nelas;
e eu vou...

Sei da nuvem;
sei da nuvem pelo que eu sei;
e esse meu saber de nuvem
é só meu e dela
e nunca o direi.
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Aging

When the shadow of age comes
only helplessness remains.
We sing our songs for no one.
We give our cries in vain.

For the best of our days are gone
and the rest of our hopes are dead.
Now the space is still to come
and the time stands not ahead.

Friends no more than names in stones.
Tears of widows upon their graves.
Wives living their lives alone
Left in freedom as life slaves.

While I'm passing my days at home,
writing letters I never send,
I say to myself, "now it's done!"
It's too late to be the end!
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Som e Imagem

A poesia é a música evocada por palavras
e as imagens suscitadas pela música;
é o som que reverbera a sua ótica
e a letra que projeta a sua acústica.
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Cansoneto

Recebe esta canção imaginária
- sonata que recém sonhei pra ti;
compassada de maneira ternária
parte de minh'alma que eu reparti.

Quero despertar-te com mil acordes
e adormecer-te, de novo, em meus braços.
Beijar sutilmente os lábios que mordes;
montar-te os sonhos com sons em pedaços.

E logo quando a ouvires, por certo
suspeitarás que a conheces há muito
(algo tipo: déjà vu ou presságio).

Então, aos poucos, chegarás bem perto
dar-me-ás, na face, um beijo fortuito
e, por fim, me dirás que é tudo um plágio.
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Uma Palavrinha

Ouve minha palavra!
ela vale mais que mil imagens.

Abraços, beijos, carícias
- pra isso haja imaginação;
mas para o amor por trás disso
não existe imagem, não.

Eu sinto um sentir sem imagem
cujo objeto é mulher.
Não há imagem pro ser
e a minha palavra é.

A minha palavra é fiel
- expressa-me literalmente -
põe o meu amor no papel
enquanto te acolho na mente.

Assim é a minha palavra
e já te dei toda que tinha.
Já te dei a minha palavra
- imagem da palavra minha.
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Novamente

Tudo já foi dito
mas eu vou dizer de novo.

Que mortes passem obliquamente
dilacerando o texto
expondo o nervo
deixando o verso inacabado.

Mortes de renascer mil vezes
até que se conclua o tempo;
até que se satisfaça o fado.

O texto nada mais é
do que o início repetido;
do que o fim antecipado.

O nervo dilacera o texto
que expõe o verso
que satisfaz o tempo
e que conclui o fado.

A morte, como já foi dito,
passa obliquamente...
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Nudez Castigada

Cai a pétala
e o espinho espeta
quem despe a rosa
quem despetala
quem despetá-la.
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Simplificação

Só eu sei como eu passo
na sua ausência;
só eu sei o que se passa
ante a sua iminência.

É como ter o coração crivado de neurônios;
é como ter a alma suspensa na neblina.

Pode ser que seja coisa do demônio;
pode ser que seja uma coisa divina.

Só não me venha reduzir a atração
a uma mera questão de feromônio;
só não me venha atribuir a paixão
a uma simples porção de anfetamina.
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