O Ilhéu

A ilha é uma porção de terra
que desertou do continente.
Eu, desertor, aliei-me à ilha;
condenei-me a morrer de tédio constante
ou de maremoto súbito;
isolei-me sem papel, sem garrafa, sem farol.

Morri na ilha deserta.
Morri qualquer dia desses
(perdi a conta dos dias).

Vivi de sol a sol e de só a só
(nem sei qual o dia em que não morri).

A ilha é deserta.

Decerto o deserto sou eu - só
errando na ilha deserta;
morrendo na ilha deserta;
sem dia, nem hora, nem data; no ermo
desperto cansado - já morto a termo.

Vivo, morri, morro, vivi.

O tempo é deserto e o espaço é agora:
faço versos e sulcos na areia das horas.

Quem lerá os meus versos que o mar apagou?
Quem dirá que vivi, que morri, quem eu fui, como sou?
Quem me conhecerá além de mim?
Quem me amará a partir do meu fim?

Morri, um poeta deserto, e só agora me dei conta disso:
morri num dia qualquer na ilha deserta
e nenhum noticiário falará do meu sumiço.

Minha ilha jamais vai ser descoberta.
1 000 Visualizações

Comentários (5)

Iniciar sessão para publicar um comentário.
Cleusa M.ARANTES DE AZAMBUJA
Cleusa M.ARANTES DE AZAMBUJA
2025-03-13

REAL E BELO

julo sesar
julo sesar
2019-10-09

jente eche testo mi ajudo di+ brigrado a qm esceveu

Emanoel T. Jardim
Emanoel T. Jardim
2019-08-21

Ah...,enfim,a Poesia...

fenanda
fenanda
2016-04-28

muito bom bembem legal gostei

andri
andri
2016-04-28

muito bom