Lista de Poemas

As Cores do Tempo

Hoje me olhei no espelho
(que rima com vermelho)
e vi que estava velho
(que não rima com verde).

Um fruto maduro colore
para chamar à atenção.
Um homem maduro se encolhe
para atentar pra razão.

Cores, imagens, idades...
(duro adequar as rimas).
Hoje me olhei no espelho...
corei: vi que estava velho.
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Trilema Equino

Vivo fugindo de cavalos.

Não, eles não estão no meu encalço.
Andam por aí uivando como não uivam cavalos;
uivam para todos, para ninguém, para si próprios, sei lá!
para atrair ou intimidar dessemelhantes
e eu fujo para além da possibilidade
de atender a alguns instintos bestiais básicos:
eu sou um perigo para os cavalos!

Fujo, também, dos jumentos
- aqueles que roçaram em celebridades religiosas.

Esses trazem uma resignação cortante
nos olhos de peixe morto
calam com os olhos e me atemorizam
(nunca se sabe que castigos imerecidos clamam por suportar
no seu intimismo altruístico)
e eu fujo para longe da porta da conversão:
eu seria um perigo para os jumentos!

Não me esquivo dos burros.

Nutro por eles total desprezo;
nenhuma fascinação me exercem
que não são jumentos, nem cavalos, nem ambos, nem nada.
Incapazes de uivar como não uivam cavalos
ou de calar como não falam os jumentos ópticos
eles são estéreis de ausências híbridas;
estampam na cara a sua burrice explícita
e eu me aproximo, destemido, para aquém da cifra fácil
com uma instantânea intimidade:
eu serei o paradigma dos burros!
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Visões

Ante a mim o horizonte e o mar prostrados...
Deitado, aqui, na praia da Bahia
insatisfeito e meio alienado
eu enlouqueço quieto a cada dia.

Vastíssimo horizonte divisado...
que da oriental praia baiana
a horizontal me faz sempre inclinado
a ver muito além-mar a vida humana.

Basta fechar os olhos um instante
pra ter um mundo vário descoberto;
a vida nova paira no horizonte
e só não vê quem tem o olho aberto.

Pra além do muito mar há nova vida
(diversa desta aqui - precária e triste)
presente na visão bem definida
a qual vejo sem ver, mas sei que existe.

Visões. São só visões - não as acolho:
a minha vida excede o inaparente.
Sou bem maior que o que cabe em meu olho.
Toda visão se inclina ante o vidente.
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Espaçotempo

Nas horas dos mundos que habito
é sempre um tempo diverso
gerando-me sérios conflitos;
descompassando meu verso.

Começo a medir o infinito
com mãos de palmos eternos:
o espaço fica eternito
e o tempo fica infiterno.

O espaço e o tempo domados;
arrebatados da esfera:
o espaço por mim limitado
e o tempo em compasso de espera.
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Necrológio do Amor Contido

Desprende-se de mim o fogo-fátuo
do verso que se afogou na razão;
do verbo que se embotou em metáfora
morrendo no peito e evitando a mão.

Desprende-se de mim o fogo-fátuo
de todos os versos que eu enterrei.
Evolam-se restos mortalizados
de todas as rimas que eu não ousei.

Como fantasmas, arrastam correntes
e uivam de sede e uivam de fome
os ectoplasmas em nada contentes.

A fome que bebe, a sede que come
devoram-me e sugam-me lentamente
- fogos que queimam e escrevem teu nome.
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E a nave não vai

Não vou te tocar, te abraçar, nunca!
Jamais irei beijar-te os lábios.

O teu corpo estará sempre distante, inacessível
como um continente após o abismo dos oceanos.

Jamais serei um navegante audacioso
(desses que não acreditam em abismos de mares findos).

Estás lá, para além dos meus horizontes
e nem tomas conhecimento
do teu remoto e pretenso descobridor
que em ti lança âncoras
e te dá nomes de flores, de deusas, de musas.

Descubro-te todos os dias santos e santos dias;
dias que excedem minha vida insuficiente e medíocre
em que me faltam gestos e me sobra sono e expectativas vãs.

Não! Nunca irei te ter por perto;
receber de ti um olhar terno;
despertar em ti qualquer sentimento ou desejo.

Jamais acrescentarei um batimento sequer
aos do teu coração.

Contentar-me-ei em sonhar-te;
postar-me no topo do mastro e amar-te...

...até que o mar te traga ou me trague.
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Posição de Sentido

Já li e escrevi muito... e nada.
Queria fazer um poema
que desse sentido à vida.
Queria fazer um poema
para dar sentido à vida.

Eu, que já toquei o topo da montanha
contemplo, como um Cristo, a planície vazia
onde serpenteia a música mais estranha
que, de tanto harmonizar, não melodia.

Onde está a razão de Deus nessa harmonia?
Onde está Deus em eu-acima-da-planície?

Eu hei sentido que não tenho sentido
e tudo é menos que um jogo de palavras.
Atire o primeiro xis quem há sabido
onde se acende o som e a luz se apaga.

Deus vive a montar estratagemas de morte;
a vida deixa-a como ardil para inocentes.
Quis me equilibrar, fazendo de Deus suporte:
tomei-lhe as mãos e vi-me solto de repente!

Sigo sem Deus, sem deuses e comigo
como uma esfinge, vivendo por viver
sem ter poema e sem ver nenhum sentido
em viver, em morrer, em não morrer.
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Minhas Impressões

Sete mil lanças na carne e nos ossos
Sete mil dores de parto por lança
Sete mil vezes, suores nos corpos
Sete mil gritos e um nó na garganta.

Sete mil coisas zombando do eterno
Sete mil tempos perdidos no mundo
Sete mil bestas atadas em verso
Sete mil nadas e um zero rotundo.
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Olhar de Ontem

Havia a impressão de um tempo lento;
jam sessions de bichos noturnos;
o Sol interceptado pelo vento;
a casa com a forma e o conteúdo;
a chuva datilografando telhas;
relâmpagos mostrando a mão do santo;
a noite freqüentada por estrelas;
fantasmas de corujas agourando;
o rio murmurando em corredeiras;
o rádio me ninando e despertando.

Havia arbustos vistos como baobás;
a neblina apagando o cemitério.
Os dias eram tão desigualmente iguais
e os verdes eram azuis e amarelos.
Havia bandos de urubus planadores
prognosticando a chuva iminente...
e o aguaceiro desabava em estertores
(tão previsível e impreterivelmente).

Havia meu pai vivo
mais que nunca e muito e sempre estava.
Havia a mãe - a via
e isso e eu a mim bastava.

Avidez ingênua e vida, enfim, havia
e eu era feliz e infeliz e sabia.
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Dilúvio Eterno

À beira da estrada e acima e ao longe
erosões de outras chuvas me dizem do tempo;
esculturas cavadas na carne do monte
despertando a atenção pro que já estou atento.

Vou girando o volante e também a cabeça
fixando a estrada e fitando o abismo
onde gotas de chuva percutem a terra;
onde terras feridas aumentam abismos.

Em conluio com o tempo que toca seu hino
com a cumplicidade da chuva escultora
vai, assim, o planeta cumprindo o destino
deafundar-se em si mesmo nas eras vindouras.
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