Lista de Poemas
Gostaria de ter um Cadillac novo,
Gostaria de ter um Cadillac novo,
Daqueles verdes vivo ou claro,
Assentos cor de ovo, a casca
Ou da minha pele morena,
Gostaria de ter um Cadillac,
Como outra "gente bem",
Aquele que reproduz
Um trovão quando passa rente,
Sem esforço, plo meu coração
Parado, aquele que não afrouxa,
Como tudo na vida e enfim,
Como toda a gente comum,
Que gostaria de ter um Cadillac
Novo, mas sou cercado de coisas
Incompletas, assim os jardins,
Onde pobre me deito e ouço as rosas,
Sorrir nas pétalas, Dálias do Japão
Sedan Azul na América do sul,
Correr cidades e subúrbios,
Gostaria de ter um Cadillac novo,
E esta intenção de me encontrar suposta,
Esta inquietação de correr cidades de costa
A costa. Tornar parte da paisagem
E do ruído metropolitano, dos rostos humanos,
Esta intenção de me encontrar em tudo,
No ouvido dos vizinhos a falarem alto,
No trânsito do subúrbio, sempre parado,
Ao volante de um Cadillac-de-fazer-vista.
Jorge Santos 08/2018
http://namastibetpoems.blogspot.com
👁️ 332
JOEL MATOS
JOEL MATOS
por
Jorge Santos
Capítulo 1
Conhecemo-nos numa certa tarde de outono, no caminho do Liceu de Oeiras/Paço de Arcos, chamava-se Sebastião "Silva e mais qualquer-coisa", perto de Lisboa ou seja entre Cascais e Lisboa, sou muito mau a fixar nomes de sítios, pessoas e coisas; creio que foi numa área de residências de luxo muito antigas, típicas casas senhoriais do antigo regime, pintadas de amarelo e branco; lembro-me que não era muito longe do quartel militar onde Joel Matos, como mais tarde vim a saber o nome; disse que cumpria serviço militar, nessa altura de 1982, em outubro, era um dia já tardio, igual a outro dia qualquer, realizávamos a pé, desde Paço de Arcos a Oeiras, o mesmo trajeto, já nos tínhamos avistado noutras alturas mas nunca tínhamos começado conversa; aparentou-se-me despretensioso e tímido, vestia farda verde seco demasiado larga e ainda maiores as botas, davam um ar cómico de pinguim andante ou Charlie Chaplin sem bengala nem bigode, a boina mal ajeitada e o sentimento de haver sido deslocado no espaço e no tempo que quase todos os soldados do serviço militar obrigatório aparentavam por mais que o tentassem esconder quando perseguiam com olhar e mãos, as raparigas da terra, fartas de soldadinhos imberbes mas atrevidos dentro das cómicas fatiotas esverdeadas, vazias.
Lembro-me particularmente desse ano por uma situação singular, foi aquando da visita do Papa que nessa época era João Paulo II a 12 de maio no Santuário de Fátima, dia em que foi vítima de tentativa de atentado por membro de uma outra religião; saiu ileso dizia-se na altura - por milagre "divino". O papa perdoou-o em visita à prisão onde se encontrava detido, poucos dias depois do inconveniente episódio.
Assemelhou-se a algo assim estranho também aquele encontro, mas prefiro usar a palavra invulgar como adjetivo para uma ligação que ainda dura mais de vinte anos depois e para alguém tão pouco comum tal como o Joel Matos, surreal até.
Germinámos parceiros e parecidos no mesmo ano de 1961, temos a mesma idade, embora Joel tenha surgido em mês e dia par e eu em impares ambas as datas, dia e mês.
Nessa noite as aulas passaram tão rapidamente que nem dei por terem acabado, tão determinado estava em desenhar o mistério deste personagem que parecia conhecer irmãmente ou assim como a mim próprio, mas que, por algum motivo de desassemelhava em tantos e importantes aspetos comigo.
Era sombria a áurea que nos rodeava, quase esquisita, e o Joe, pensativo dava aquela aparência de quem não quer receber visitas fosse a que horas fosse, de dia ou de noite. Falámos sem trocar palavras e entendíamo-nos como os mudos se entendem, sem dizer palavra, diminuindo as sílabas vocais.
Corrosivo e caustico, acabava sempre por pedir desculpa apesar de conscientemente sentir que usufruía como certas as opiniões que tinha além das oportunidades mais honestas deste mundo.
Os dias passaram e nós dois também passámos mais ou menos discretamente de afeiçoados um ao outro a confidentes íntimos, inseparáveis até ao osso e à medula óssea.
Eu podia ter parado, sentia que deveria parar este influenciar mutuo, tive a sensação de proximidade com Joel por diversas vezes antes desse dia e ao longo dos anos embora sempre rejeitasse e repelisse semelhante ideia pois a achava sintomática de esquizofrenia ou loucura, mas ali estava ele finalmente; nós frente um ao outro como irmãos apenas separados por hélio e formas diferentes de ler o nosso próprio conteúdo.
Capítulo II
Incomoda-me ainda hoje, decorridos tantos anos, o nome que atribui a si mesmo esta personagem que sempre e esporadicamente me povoou e se desenvolveu em mim, perante mim e se desenrola agora na minha expressão dramática sem ser necessariamente distinto ou distinta, mas seguindo um instinto separado, não paralelo. Incomoda-me a facilidade de argumentos e o "dark soul", o modo impulsivo explosivo e compulsivo com que raciocina e a compreensibilidade lógica subjacente e independente, par.
Disse-me um dia Joel em nome de um grande homem que admira "Basta existir-se para ser completo" tomando como princípio que existe ele mesmo e ao qual eu respondi olhando-o nos olhos verdes, lembro-me tão bem, sentados na guarita da Arrábida no Sírio de Maio,
"Tod'a fraqueza é possível quanto dura for a pele, tu não és fraco, és puro Joel, nada te coíbe de ser inteiro"
(cont)
Jorge Santos (Namastibet)
👁️ 382
Jaz por terra...
Jaz por terra...
Jaz na Terra o sossego e a negação do belo,
Jaz por Terra a noite e a ferida em cal-viva,
A ventura que é sorrir e também chorar gelo,
Jaz na terra o trono e um dono senhor de tudo,
Jaz por terra um templo que abandonei e que
Descuido, por não ter uso nem deuses, esses novos,
Infecundos e impostos para mal do homem feudal,
Homens deuses, a quem a calma e o ódio Deo-opus
De-graça, como se fora eu sacrossanto ermitão,
Em "Cristos Bay resort", jazz por terra o meu ego,
De campeão dos detestados feios de braços,
"Sou tido" como demente por sentir tudo,
Até quando chuva quando cai na Terra quente,
O meu coração me desmente e me desdiz,
Jaz na Terra o sossego e a negação do belo,
Jaz por Terra a noite e a ferida em cal-viva,
A ventura que é sorrir e também chorar gelo,
Jaz na terra o trono de um dono, senhor de tudo,
Apesar de tudo isso sou tido como pouco são,
Por sentir mais que tudo e tod'esta gente,
Quando a chuva cai em meu coração não mente,
"Sou tido" como demente por sentir tudo,
Até granizo quando cai na Terra quente,
No meu coração d'pedra faz frio de geada,
Jaz nele a terra, o céu e o abismo sem fundo,
Jaz na Terra o sossego e a negação do belo,
Jaz por Terra a noite e a ferida em cal-viva,
A ventura que é sorrir e também chorar gelo,
Jaz na terra o trono e um dono senhor de tudo,
Apesar de tudo isso sou tido como louco,
Por sentir mais que tudo e toda a gente,
Quando a chuva cai em meu coração dormente,
Como se fosse real e sentida, credível talvez,
Embora nem sempre...
Jorge Santos 07/2018
http://namastibetpoems.blogspot.com
👁️ 332
(1820)

1820
O mal deste mundo é nem tudo rodar à volta dele,
Por sinal a mim tudo volta excepto o que mais desejo,
Voltar ao mundo segunda, terceira, quarta vez e sempre,
Por isso escrevo detrás pra frente e não de frente pra trás
Mas sempre contra a rotação do planeta pra ser diferente
De toda a gente na Terra e em tod'a roda desta e sempre
Com a lógica de um relógio de água na metafísica de Escher,
Menos arbitrário o pêndulo que Foucault, e o universo
Tão mais próximo quanto o supúnhamos longínquo
Ou tão a Norte, o mal deste mundo é nem tudo rodar
À volta dele, de mim tampouco, sou o que sente,
Cumpro o ritual das cearas, Copérnico das velas
Crescendo, solto no ar o que parece ciência sem ser,
Ninguém me conhece tão mal quanto eu, mesmo
Os meus segredos me metem medo sendo a fingir,
Tomara este mundo possuísse longas pernas
E umas mãos de metro e meio, pra me segurar eu,
O mal deste mundo é nem tudo rodar como roda
Esta pedra redonda, que é meu coração moinho/nora
Por isso escrevo detrás pra frente e de frente pra trás ...
(Joel Matos 1820)
Joel Matos (05/2018)
http://joel-matos.blogspot.com
👁️ 305
I can fly ...

I can fly ...
Luar sem telha, casas sem telhado,
Coração vidraça, prova de mudança
Dentro o meu pensar, total o caos,
Rarefeito ar, meu pensamento hélio,
Luar sem telha, casa sem telhado,
Rara substância, mudo de ser eu,
Cada noite mais escuro, cada dia
Mais breu, a prova-minha covardia,
Coragem sumida, assumo o luar,
Assomo estrelas quase extintas
Por decreto, sol morto, labirinto,
Sala de jantar, vinho sem gosto,
Luar sem telha, casa sem telhado,
Partida a taça, hálito é vácuo o resto
É existir como se aqui o além fosse
Fragmento, e o que assomo, lugar
Que ainda preciso pra dispersar
Na morte os membros próximos
Do voar, can I fly, flor d'cimento,
Lugar sem peso, natural o medo,
Voar artificial e falso o que penso,
Luar sem telha, casa sem telhado,
Asfalto, folha ao vento, façam-me
Estátua vulgar, branco pra ser ave
"I can fly", imperioso ser-se vento,
Pra que se possa voar í'preso.
Joel Matos (05/2018)
http://joel-matos.blogspot.com
👁️ 319
Com'um grifo ...

Com'um grito ...
Como eu, o grito
Cresce à vista a ira,
O vasto e o calado,
A solidão do prado,
Com o meu grito,
Nem porto ou cais
Poderá ser d'vendavais
Abrigo,
Como eu grito,
Nem os pássaros
E o cio dos lobos,
Parideira com dor,
Como eu nem os
Animais ou a fúria
De seis/sete Búfalos,
Como eu, o grito
É ter cinco pedras
Na mão e determinação
Fora-do-normal
De gorila grisalho,
Do Adamastor
O urro, a dor de Joana D'arc
No lume, um murro
Como grito rouco
Na comuna de Paris,
Das barricadas, "Liberté Égalité
Fraternité"
Que estilhaçou a história,
Como o meu grito,
Precede o silêncio,
Assim o galope,
Inação não é luta,
É esquecimento,
Sejamos cavalos de tiro,
Gorilas, Ursos, Bois ou Brutus,
Cães com pulgas,
Mas não deixemos
De gritar "Porra"
E libertar do peito o urro
Da Vitória convicto e bruto,
Com'um grifo ...
Joel Matos (05/2018)
http://joel-matos.blogspot.com
👁️ 412
S'isto que tenho dito, fosse verdade ao menos ...
S'isto que tenho dito, ao menos fosse verdade,
S'isto que tenho dito ao menos fosse verdade, pois "de-verdade" nem eu sou, de cortiça antes, de prego e ferro, fezes de cavalo são meras frases, ditas por mim "Icónicas", mestiças como todas a partes abaixo da linha de cintura minha o são, chamo-lhe uma corrente de ar ou corda, cabresto, mas simplesmente sou eu o "não" o anão espalhando-se pelo chão, descrente de pensamentos e expressões; não me fluem com o o equilíbrio e inteligência que usava, como o galo do quintal do vizinho para me anunciar num simples poleiro empoleirado a verdade e toda a verdade sobre a existência dele próprio quando cantava de galo antes de morrer na panela.
Se fosse de verdade ao menos e o quintal noutro mundo, eu deixava acender o restolho e aí as ideias copulavam, mas fui varrido pelo desencanto, folha morta no furgão do lixo.
S'isso ao menos fosse verdade, pois se tudo quanto sei e dou me voltou em dobro, era cuspo e culpa por não ter dito, eu que pensava ter da vastidão exéquias, recebo feijões anémicos, cicuta e terr'inculta.
S'isto fosse um elo real ferro podre ou ralo de esgoto, eu desfilaria através dele até ao escroto de um deus minúsculo que fed,e porque ele o criou assim, como me fez criado sorridente, escravo de uma necessidade com grades que me segura prende, fede e arde...
Há o Homem que pensa que eu sou esse entre eles, não sou!
Não há meio de pensar que serei o Homem que o pensar soube ser, se Rei ou senhor do mundo, não servente mas hei...de ser sempre e pra sempre, delito em gente,prezo tudo quanto sinto e diferente desse outr'homem que'bem sei não ser, sou o genoma do futuro, o cabo do mundo, a verdade não existe, nem se comprova, não me comprovo eu.
A varanda é de grades. os antípodas e o horizonte tão curto, quanto eu para entender as luzes, serem eternos sinais com o instinto preso neste quintal suspenso, malditas frases espetadas nestas grades...
Houve um jardim quando não havia regatos e eu me ria nos espaços abertos, meu agora coração parado não ouve o tempo misturando-se e a vantagem da angustia é não ter fim, assim houve um jardim em mim e meu coração não ouve o fim do fim do mundo, ouve escutando o que pensa ser a capacidade de sofrer em fazer e o ser humano fecundo, o universo e tudo...a arte é o mundo e a nitidez crescente em mim...a verdade que suporto.
A capacidade de criar torna-me mais intenso, aceso mesmo quando não estou pensando em nada e mais em que tudo é íntimo, quando estudo um modo de dizer que me transcende e aí ouço o passar do tempo como num carrossel acelerado, chamo-lhe ar corrente e ao tempo o intervalo em que disse isto e por isso sei que existo em tudo, nesse momento acordei, acordo e sou tudo, perco-me da visão e a emoção é uma morada semelhante a álgebra numérica magma e espaço, filamentos e galáxias-heras.
Hei-de ser, ouço em mim esse poder de pensar fundo que trago e sigo há séculos e séculos ...um mundo presente aquém e além da minha morte depois, a verdade é isso, intemporal e futuro
Joel Matos (05/2018)
http://joel-matos.blogspot.com
👁️ 324
Põe flores no meu quarto ou não, nenhuma ...

Põe flores no meu quarto,
Nem só as casas geram ruas,
Ao passar destruí-as uma a uma,
Duas a duas, nenhuma resta
Durmo a céu-aberto, m'embala
A alma, não preciso de tecto,
(Põe flores no quarto ou não,
Não ponhas nada por enquanto)
Vivo sem querer, sonho sem sentir,
Caminho, não para passear em ruas,
(Falsa idéia essa de serem casas)
Onde ando concerteza não é certo,
Nem só as casas geram luz,
O coração humano é um universo,
Não o ver é estar dentro ou perto,
Procuramos e não vemos nossas casas,
Contemplamos a distância com timidez
De vaga-lume, usamos guarda-chuva
Aberto quando a alma não precisa
D'tecto, nem o arame do trapézio
É fixo, a giz se desenha e altera,
Há que não fechar duas a duas,
As janelas das ruas, uma a uma,
Quarto a quarto, certo no Homem
É o génio, esferas serão casas,
Nós os anjos...
Jorge Santos (05/2018)
http://namastibetpoems.blogspot.com
👁️ 353
Como rei deposto numa nação de rosas ...

Como rei deposto numa nação de rosas,
Tenho palavras sem futuro, sem álibi
Nem provas, a recordação é um mito
Tal como o universo é infinito, as rosas, flores.
Coroai-vos de espinhos e tereis ares de rei,
Coroai-me das mesmas e renunciarei nesse dia
Ao trono temendo que elas aí murchem,
Tal como a maioria dos homens que sonham
E não podem ter, sensibilidade é aquilo que
Não se pode possuir, digamos que é
Preciso sentir pra ser leal à ideia do príncipe,
Ser vencido é abdicar dessa realidade de
Dimensão divina como rei deposto numa
Nação de rosas, vê-las é o sentimento desfraldado,
desfeito o pau da bandeira, do Império,
Como um rei deposto numa nação sem rosas,
Um testemunho antigo acrescenta à razão
Não só o que me faz, mas o que traz meu
Coração súbdito do rei, do reino longínquo
Que é onde a utopia é estrela e a coroa é de farsa ...
Jorge Santos (05/2018)
http://namastibetpoems.blogspot.com
👁️ 390
Minha alma é um lego

Minha alma é um lego
Minha alma é um lego aos bocados,
Pena eu não os saber montar certo
Nem direito, sobram sempre peças
E o mais difícil é montar as palmas
Nas mãos e na ponta dos dedos, as
Unhas e o encantamento na floresta
De cabelos, não recordo cada um dos
Pelos ou a ordem por que são postos
Os cotovelos, apostos ao torço,
Não sei desmontar palavras,
Sinto-lhes a angustia de sentirem
Presas a mim, tanto que não posso
Definir o que sentem ser amor ou
Ódio por serem presas e não guelras,
Que nos pregaram na boca.
Minha alma é um leque aberto q-b.,
Minha alma é um lego e os pedaços
Pensam não os saber montar, nem certo
Nem direito, falta sempre o pulso no braço
E o mais difícil é montar as palmas
Em pleno voo, abertas quando.bato.asas,
Fechadas porque as celas tem grades,
Querendo eu escrever meu nome no
Espaço Em Letra Grande Gigante, Maior
Que o Maior Monte, Lago ...
Jorge Santos (05/2018)
http://namastibetpoems.blogspot.com
👁️ 308
Comentários (4)
Iniciar sessão
ToPostComment
nilza_azzi
2019-08-22
É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.
namastibet
2019-01-09
obrigado a todos que me leram
ricardoc
2018-04-23
Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.
131992
2017-10-26
muito intenso seus poemas, adorei.
Português
English
Español