Lista de Poemas
Sonho (em “mix”) da Vida Real
Sou actor, o marinheiro, sem bóia na terra firme
E sou pecado, imaculado
E sou pavio, a toda a vela
Acendo e ardo corações na praia cheia de desejos;
Sou peixe tímido e contente, que sem água respirar
Sou amor de barco ausente, sem um porto para atracar
E sou amado, abandonando
E sou deixado... Todas elas
Falta a experiência de viver e sigo e lembro que ficaram os segredos;
Sou doce e terno, sonhador que te dá o coração
Sou cozinheiro do amor, sem pés assentes no chão
E sou adorado, amargurado
E sou ventura, sentinela
Deixando a dor na despedida, nossos corpos separados e deixados;
Sou alma inferno, no teu céu que vivo e sinto ardendo
Sou falso e dramatizo o gelo, sem te querer fazer sofrer
E sou no fim, desmascarado
E sou a voz, na tua boca bela
Dou tanto e tiro tanto mais, amando e procurando por ela.
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O Sonho do Pássaro Esquecido
E que dos teus lábios quero devorar
Arrancar
Arranhar
Vou esperar que te vás vestir
Senão vão achar-me louco neste chão
A roer as tripas do pássaro que voou
O meu peito trincou
Arrancou
Também este meu vermelho coração
É vermelho, está corado, é tímido
E nem sei o que lhe deu
Mas não apareceu
Esqueceu
E nós simplesmente tínhamos acordado.
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Insónia
Fiquei acordado na noite vazia
O mar está longe e cheira a maresia
Na maré vazia adormeço e... não queria.
Queria amar, amar, amar e... sem querer
Amei alguém que nunca mais verei
Amei, amei e tudo sem querer
Um amor tão louco que tento esquecer
Tão longa a noite e eu não adormeço
Meus olhos ardem com a luz de uma lua
Uma luz de lua que não mais esqueço
Porque esqueço a noite, longa, ao fundo... a rua
A rua ao fundo já cá não está
E demora a vinda de uma solidão
Estou só e digo a quem não viverá
Que na longa noite encontro podridão
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A Vida, Do Céu à Terra
O sol, o dia e as águas
Num dia de Janeiro
Juntaram-se e fizeram
O seu pacto primeiro
O jogo fica, embala
E dura, longo até Junho
E em voz estridente soaram,
Gritaram: - É para vós este mundo!
Não sentem dizer:
Estou aqui, era inteiro
Até que vós me magoaram.
É pois, este, o acto III.
A estação, neste mês,
Esconde o frio, é um escudo
Como negra viuvez
Tal inverno sisudo
A chuva, então, a cantar
Cai na terra e ajuda a videira
A sua uva nascer, a brotar
Diz, já fruto, à sua parteira:
-Tão boa, tão fresca tu és
Nesta vida já vivo e bem fundo
P’ra beber só tenho a raiz
P’ra viver tu és água, és tudo.
A madrinha esconde a sorrir
A modéstia que é vez primeira.
Não a vemos pois está a fugir
Tal a chuva na tarde soalheira.
Vai embora, não diz quando vem
E as flores aguardam, contando
Às roseiras, avós de sua mãe
As histórias que haviam escutado.
Poema Escrito Num Líquido
Eu vou escrever
Enquanto houver céu
E luz
Enquanto os olhos alcançam
No céu
Brisas de cor
E mel
Não pode haver
Também
O ar que não respiro
Mais
Não vou ouvir
Ninguém
Ao longe quando grito
Eu sei
E enquanto houver
No céu
O não que eu escrevo
Fico.
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Nem Nada
Elas teimam em voltar a cair de novo.
Em ser choradas vezes sem conta.
Encontro a razão e não encontro nenhuma.
Sou feliz... muito feliz, mas tenho a infelicidade de ter, por outro lado, um buraco negro, parecido Com todos os outros, mas este dentro de mim.
Deveria ser um buraco muito feliz.
Eu amo... é tão bom!
Mas estando longe é tão difícil aguentar tal felicidade. Transcende-me e junta-se à saudade.
E à angústia frustrada que, ora vem, ora vai... mas nunca sai nem entra... de vez.
Hoje, como já por muitas outras vezes, penso outra vez em encontrar o caminho e acho que o mais difícil não é, nem procurar, nem encontrar.
Eu só gostava de saber exactamente o que procurar... e depois como fazê-lo,
Mas as luzes divinas - se por acaso alguma vez brilharam - não encontram razão nenhuma para me iluminar.
Iluminam mas eu não vejo.
Não vão parar as histórias inventadas, “ficcionadas”.
E eu quero-as, simplesmente, realizadas.
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Se não for
Ó desgraçado que te encontras escondido.
É em ti que eu vejo a mágoa e um desejo desentendido.
É a mágoa que em ti vejo cada dia
Num olhar que já não consigo esconder
De ti, só de ti!
Mais ninguém consigo ver...
A não ser tu,
Ó meu igual tão parecido
Tão distante ao mesmo tempo,
De um tempo que não passa e nada muda
Aqui...
E lá tudo se sabe, tudo se vê e modifica.
E aqui?
O que ficou aqui?
Minhas tristezas, incertezas?
Talvez! E também o fim de uma vida que não quis continuar
Porquê? Não conseguia ver e era difícil pensar
Que seria bom um dia poder pelo menos, se puder,
Fico a sonhar.
«Mais depressa» - disse a vida ao passo
Saber que existo, aqui, agora
E não sentir-te mais, a ti, eu choro
Por falar comigo, só, demoro
A descobrir a vida, dói, demora...
Mas sentir que só existo, em ti, eu morro
Por saber que só vais ver, em mim, a mágoa
E ao dizer “adeus” eu choro, as águas
E mentir que lá não vivo, assim... Eu moro
Descobrir que a longa vida é forte, caminha
Longos passos, vai a descer, da rua à torre
Ao chegar diz-me que apresse, o passo, à toa
Sem lembrar que a trago aqui, comigo... Voa...
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Cada concha tem um segredo que quero partilhar
A lágrima de uma dor
E cada choro desse Oceano
Saliva do beijo... melhor...
Dos beijos... molhados.
...E não digas nada,
Não faças, não beijes,
Não contes a ninguém
Que o segredo que eu guardo
Que a palavra que eu escondo
É tua também
...E que é húmido o mar.
Talvez seja suor
Meu amor
Transpirar,
Do trabalho de amar.
...E se forem anos?
Quantos não tens
Não os contes
Não os digas
Nem contes a ninguém.
...Que a palavra que eu guardo
Que o segredo que eu escondo
Que a concha do mar
Que o beijo molhado
Que a vida suada
É tua também.
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Estrelas Baças
A noite que chorei
Amei
A tua canção
De noite tanta luz
Tanto dia
Sem saber
E vou dizer...
Amanheceu, é noite
Tão escuro o céu
É teu
Com as tuas estrelas
Amarelas, sentinelas
Tão brilhantes
Escondem
A voz com que hoje
Não te vou dizer: - Amo-te.
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Apokaeclipse
Sem bússula parte em busca do seu sul
E à sua frente nada encontra e sofre
Tanto... pois não vê atrás a Vida, só a Morte;
E teima tanto, o estúpido não deixa crescer
A esperança que nasceu no peito bebé que nunca nasceu
Mas isso não prende as cores que desenhei
No céu pastel e aguarela ardente
Sem noite mas dias tão sós e distantes
Em cima de mim descarregam
E doem
E saem
E entram em mim
E pões seu peso nos braços tão fracos
Os meus
Sem os teus
Óh, Deus
Que dor, que dói, que mói
Me aperta e te aparta de mim
Porquê? Não respondo, sem voz, não te chamo
Nem te amo... mais
E trago na pele o cheiro da tua
Imunda
Delícia
O trago saboroso que a vista devora
Em segundo
Que ficam
E voam e passam e morrem sem demora.
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