Lista de Poemas

Tintas Secas

Nem todo cinza é assim
Como você diz que é...
Nem todo cinza perdura
Como você diz que acontece.
Tem cinza que não adianta
Querer prolongar, porque uma hora cai.
Mesmo que queime, ela vai cair...
Essa valsa nebulosa nos distrai tanto.
Isso explica nosso vício nessa música?
Na verdade, penso que nossa paleta de cores
Está ultrapassada. Obsoleta.
As telas estão rasgadas,
As tintas estão ressecadas,
Os pincéis estão descabelados
E a madeira está podre.
Na cabeça, o mais belo desenho,
A mais bela pintura!
Porém, nas mãos,
Somente o pó dos móveis.
Veja só, pó cinza
Que quando assopra, se vai.
Mas para onde?
Em que direção?
E por quê?
Qual é o sentido
Dessa tal libertação
Se ela for cinza?
Ou tudo está errado,
Ou nossas tintas estão velhas.

 

João Gnecco - 06/05/2019

👁️ 53

Ressurreição

Mais uma vez
A incerteza me escravizou,
E o amargor do meu coração
Veio à tona, retornou.

Mais uma vez
O arrependimento segue impune
E inocente, mesmo que tenha
Cometido o pior dos crimes.

Fui o mesmo chato,
Monótono e ridículo.
Meu coração um dia repleto de amor,
Hoje desistiu de pulsar

O vermelho latente
Pelo meu corpo,
Que está mergulhado
Na mágoa profunda.

Mágoa que o coração pariu.
Coração idiota, coração suicida.
Apunhalou-se fatalmente
E anunciou sua ida.

Tudo acaba
Vai abaixo, some, padece...
Até aquela paixão,
Paixão tímida...

Pequeno amor,
Que se escondia atrás
Das cortinas da vergonha,
Hoje, fugiu.

Não sei se todos voltarão.
De fato houve fuga
Revolta e solidão.
Mas foram definitivas?

Não se chateará mais,
Nem se enfurecerá mais.
Todos fugiram.
Menos o arrependimento.

Seria a sua falta
O motivo da escuridão,
Ou minhas palavras
São ditas em vão?

Seria o nada
A ausência de tudo,
Ou a presença do vazio
Dentro do finado coração?

Ah, seus olhos meigos
Castanhos encantadores,
Carregados de lágrimas
Junto à sua voz abatida.

Queria eu ser o causador
Da tua felicidade,
Do teu bem-estar
E de tua risada simpática.

Queria eu aproveitar
Seu amável sorriso
E seus lábios cheios
De ternura e encanto.

É esse encanto
Que me aprisiona
Feito camisa de força,
Feito animal em cativeiro.

Meu desejo prospera
E ecoa o som da ternura
Quebrando o vazio
Da noite escura.

Nasce, portanto
Um círculo sentimental
Que ressuscita e fortifica
A paixão fugitiva.

Se o amor é tortura,
Sou masoquista.
Se o amor é o óbito,
Sou um suicida.

Agora eu entendo
O coração suicida,
Que se matou por anseio,
Vontade de amar.

Com a ressurreição
Da paixão fugitiva,
Os antigos sentimentos
Reaparecem maduros.

Todos se unem
Numa só labuta,
Transformam incerteza
Em convicção absoluta.

Convertem o antigo
Arrependimento impune
E inocente, em persistência
Justa e rígida.

Rasgam as cortinas da vergonha
Que resguardavam o amor acanhado
E deixam a luz da afeição
Entrar pela janela.

Essa luz dizimou
O antigo engano
Como demonstração
De amor e ímpeto.

Graças à essa luz
Que iluminou meus horizontes,
O coração suicida renova-se
E reaprende a amar.

 

João Gnecco - 02/11/2018

👁️ 49

Àqueles Amigos

Ser humano...
Conjunto de insatisfações
Consolidadas num erro ambulante
Chamado "eu".

Eu, que reconstruí
Minha própria imagem.
Eu, que enforquei
Meu próprio Narciso.

Eu, que já me esqueci,
Me reinventei.
Eu, pensando em amores
Que um dia amei.

Onde está o amor?
O amor próprio, a aceitação,
As noites mal dormidas...
Foram junto com o Narciso?

Eles estavam certos
Quando me aconselhavam,
Mas eu não digeria
O que todos falavam.

Se me reinventei
E me sinto bem,
Tomei essa atitude
Com a ajuda de alguém.

Rodas de conversa,
Palavras pairando,
Problema relutante
Em aberto, pulsando.

Tal qual leite com café
A dor se misturava:
Muda o gosto, muda a cor,
Muda tudo, sem remorso.

Me prendi na cela
Que eu havia construído.
Cela escura, cela fria,
Cela do silêncio.

Eu permanecia preso,
Com algemas da insegurança
Pesadas como o arrependimento,
Filho primogênito da mudez.

Falsa liberdade
Que escorre pelo rosto
Em seu mais puro formato:
A lágrima.

Fecho os olhos
E me deparo com a imensidão negra.
Que belo vazio!
Vasto, grande, infinito...

Liberdade pura!
Como eu amo isso...
Mas mesmo assim,
Fechando os olhos.

Apreciando o vazio,
Ou seguindo o encanto da noite
Na avenida que de "nova" não tem nada,
Sinto que sempre estive preso.

Sempre estive em coma,
Sempre estive estagnado,
Mas mesmo em tal estado
Nunca estive sozinho.

Falsa liberdade sempre me acompanhou
Em meus devaneios diários,
Nos quais eu tentava
Me enganar.

Mas por que se enganar,
Ser inconfidente a si mesmo,
Se a realidade
Nem é tão dura assim?

Por que se enganar
Se a realidade
Nem é tão amarga
Quanto o café, que mancha?

Meu querido espelho,
Por que você se priva tanto?
Anda tão calado,
Não fala nada a ninguém.

Vá viver a vida,
Saia desta cela,
Porque na hora da despedida
Não se lembrará mais dela.

Os que sempre te acompanham
Você sabe onde estão.
Que te juram fidelidade,
Um cantinho no coração.

Novamente lhe pergunto,
Veremos se já aprendeu...
Ficará só, tal qual defunto,
Ou viverá como eu?

As algemas não existem mais,
A mudez também se foi.
O problema relutante foi levado
Pelo forte vento da amizade.

O barco da tristeza
Ancorado no mar da solidão
Segue viagem, sem rumo,
Porém com novos tripulantes.

Risadas doces,
Bocas amargas,
Abraços quentes,
Palavras sensatas...

Todos são parte
Da corrente da felicidade.
O principal elo
Leva nome de 'amizade'.

Como eu queria
Que não tivessem fim
A poesia e a amizade,
Tão importantes para mim!

Mas se não acaba,
Não tem valor.
O fim não é término,
É começo do novo.

Morre trigo,
Nasce pão...
Fiquem sempre comigo
No meu coração.

O que embeleza a vida
É a despedida.
Porém, como é incerto,
Nunca é um adeus.

João Gnecco - 25/01/2019
👁️ 52

À Arte

Arte... Quatro letras
E infinitos significados.
Manifestação do ser
No sentido individual.

Ser no sentido natural.
É o mais vivo dos personagens
No mais morto dos cenários.
Libertação do âmago do sentir.

Megafone dos desalmados,
Mal amados, exilados,
Revoltados, aleijados,
Degredados, conformados...

Eco do grito artístico,
Concretização do abstrato
E abstração do concreto.
Exposição do íntimo discreto.

Vento que agita
A mais bela das flores.
Vento que empurra
A mais seca das folhas.

Arte não merece definições,
Mas sim a si, por si só.
Narcisista, altruísta,
Anarquista, legalista...

Pura e simplesmente arte.
Corre e escore pelos dedos do pintor,
Voa e ecoa pelo quarto dos músicos,
Forma o formão que usa o escultor,

É a loucura que consome até os lúcidos.
É a tinta da caneta do poeta,
É um traço torto ou reto,
É a destreza nas mãos do arquiteto.

É a própria arte
Autoconstrutiva, nunca inativa,
Sempre criativa, elucidativa,
Alternativa, autoexplicativa,

Significativa, aglutinativa,
Apreciativa, proliferativa...
Tudo só parte da arte,
A arte de tudo parte.

Arte é tudo.
Tudo, infinito,
Indefinível,
Inaferível, perceptível.

Viver faz parte da arte,
A arte de tudo parte,
Viver faz parte de tudo,
De tudo a arte faz parte.

João Gnecco - 16/11/2018
👁️ 59

Desabafo

Não há tempo para desespero.
Não há tempo, Sanchez.
Sem aflições para agora.
Tem coisas maiores esperando lá fora.
É necessário aprender a viver
Nessa sociedade contrária.
Revolta e ódio agora são ímpetos da luta.
A amargura da munição ainda é sentida no corpo de muitos.
Almas movidas, almas selecionadas.
A dor acompanha cada revólver engatilhado.
Temos causas nobres e corpos sujos.
Corpos sujos, mas alma lavada.
Quanto a eles, o que possuem?
Canetadas, cédulas, números?
De nada adianta tocar a mais valorizada das cédulas
Se as mãos estiverem embebedadas em sangue puro,
Sangue de gente inocente.
Sangue de gente varrida, como lixo,
Para baixo do tapete.
Buscamos almas puras, sonhadoras, utópicas.
Espíritos selvagens, inquietos.
Liberdade.
Não quero andar por caminhos imundos,
Pavimentados com ideias torpes, por gente igualmente torpe.
Se nossa convicção é loucura,
Quero dizer que não vejo problema em ser louco.
Digo ainda que montaremos nosso manicômio.
Cansei de especulações.
Quero esclarecimentos e indagações,
Simultaneamente.
Que fique claro: Não convertemos ninguém para coisa nenhuma.
Não é conversão, mas sim consciência.
Independência e ação.
Inevitavelmente, a insegurança acompanha.
Mas que não nos faça tropeçar.
Se necessário for, que o mundo vire de ponta cabeça!
Revolução e mudança são filhas da mesma mãe.
Não respondo pelo tempo, tudo é consequência da ação.
Há de haver serventia, Sanchez, há de haver...
Que explodam as injúrias e os difamadores!
A coisa é maior que qualquer substantivo que exista em qualquer língua.
Se a era é sombria, que sejamos luz,
Que façamos nossa própria chama.
Se o fardo é pesado, que carreguemos juntos.
O espírito clama por mudança.
Chega de gente mofada em celas enferrujadas na prisão do medo.

 

João Gnecco - 28/02/2020

👁️ 51

A fotografia

Poucos minutos,
Em meio a torres de aço e concreto,
Lá está o astro, brilhando vivo.
- Se fôssemos fotógrafos, daria uma bela foto!
E quem disse que não somos?
As palavras são nossas fotos
E o caderno, nossa galeria
Onde registramos todos os momentos.
Finalmente, o sol se põe
E junto com ele, vãos sonhos e desejos
Se perdem no vento e no alçar da noite.
Tão rápido quanto fumaça,
Tão rápido quanto lágrima.
Escrevo porque penso.
Penso que o momento deve ser registrado.
Ficar marcado como se fosse cicatriz...
Estamos cheios delas,
Principalmente daquelas que ficam no papel.
Hoje, vejo o céu repleto de estrelas.
Lembro-me da sua mania,
Mas não são 00:39 ainda.
Muitas dessas estrelas podem nem mais existir.
Pessoas também podem ser como estrelas.
Você até pode vê-las, mas talvez elas nem existam mais.
Mesmo assim, as vemos como se fossem reais.
E então, registramos o momento.
Afinal, o poeta é um fotógrafo,
E suas melhores fotografias
Estão guardadas no coração.
Por isso algumas fotos
Trancadas no íntimo
São difíceis de revelar.

 

João Gnecco - 05/04/2019

👁️ 74

Negligência

A vida não me ensinou,
E deixou você me ensinar.
Me ensinar a viver,
Me ensinar a amar.

Porém, eu me queimei
Com a minha chama,
E descontei em quem me ama.
Assim, cobri o espelho.

Cobri o espelho
Porque ele assombra.
Me assombro comigo mesmo.
E se me assombro, é porque não há luz.

Se não há luz,
É porque você apagou
A chama com a qual
Eu havia me queimado

Contudo, você me protegeu
Mas não tinha me ensinado,
Não m ensinou a amar,
Não me ensinou a viver.

Por isso eu reacendi
A chama que me queimou.
Fui grande servo do amor
E a paixão me torturou.

Porque você não tinha me ensinado.
Não me ensinou a amar,
Não me ensinou a viver.
Portanto, a vida assumiu o seu papel.

Agora quem me ensina
É a vida sádica e cética.
Mas esse papel
Pertencia a você.

Mais importante que
Amar e viver separadamente,
É amar o viver,
E viver o amor.

João Gnecco - 11/10/2018
 

👁️ 91

O Jardim

Não amanheceu ainda.
Minha consciência levanta,
O corpo permanece deitado.
Visito meu jardim das expectativas,
Vejo lindas flores e árvores dentre tantas outras
Mortas ou secas.           
Aproveito o que posso: colho os frutos das árvores crescidas. Das secas, descarto todos.
Todas mortas pela mesma causa.
A realidade é a praga insuportável
Que espalha sua acidez e corrói
Uma expectativa de cada vez.
Pouco a pouco elas vão morrendo.
Me entrego em um passeio com a insegurança,
Que entrelaça seus dedos nos meus
E venda meus olhos.
A única flor que sobreviveu
Foi aquela rosa, a mais vermelha do Jardim.
Porém, ela sumiu.
Penso que o elfo a tenha roubado.
Mas está viva, crescendo e tomando o espaço de outras flores,
Dominando tudo gradualmente.
Suas flores e raízes são extremamente fortes,
Suas pétalas são tão delicadas quanto seda,
Seu perfume enfeitiça os alienados...
Cada passo que o elfo dá
Parece delicadamente coreografado.
Como não pude vê-lo
Com a Rosa?
De onde nascem essas raízes
Que prendem meus anseios no solo
Me amarrando nessa sensação
Que eu nem sei que nome leva?
Guardo as flores
Uso seu perfume,
Sua essência...
Tão doce que
Ainda ocupa o
Vazio do jardim.
O Jardim das Expectativas.

 

João Gnecco - 25/09/2019 

👁️ 54

A Biblioteca

“Queria se um livro,
Mas um livro fechado.”.
Que belas palavras
No momento apropriado.

Queria ser um livro,
Mas um livro fechado.
Que não ligue para rimas
Nem para abraços mal dados.

Queria ser um livro,
Mas um livro fechado.
Que fique na prateleira
Com as palavras, guardado.

Afinal, livro não sente.
Livro fornece seja o que for.
Não importa reciprocidade,
Ingratidão, carinho ou dor.

Queria ser um livro,
Mas um livro fechado.
Que mesmo empoeirado
Ou comido pelas traças,
Continue sendo um livro fechado.

Quero ser um livro.
Eu sou um livro,
E quem me escreve
É a própria vida.

 

João Gnecco - 24/01/2019

👁️ 56

Pergunta Súbita

Como posso atribuir valor
A todos estes poemas
Se eles parecessem estar mofados?

Como posso sentar ao seu lado
Para contar meus problemas
Se eu mesmo não sei quais são eles?

Como posso esperar que você chegue,
Se quando você vem, parece que eu vou?
E não me pergunte para onde,
Porque eu não sei responder.

Como posso acreditar
Que está tudo bem
Se você ainda chora
E não me diz? Por quê?

Como posso me convencer
Que escrevo para alguém
Se nem dedicatória
Esse poema tem?

Como posso ser maleável
Se a situação me exige rigidez?
Tão rígido quanto aço,
Tão rígido quanto barra de ferro.

Como posso ficar quieto
Se a todo instante
Meu estado de paz
Está sendo atordoado?

Como posso aceitar a situação
E simplesmente me calar, me adequando,
Fingindo constantemente ser aquele
Que você sempre vê?

Como posso negligenciar
O que está mais do que exposto
E esquecer as reclamações
A cada cigarro que acendo?

Como posso entrar em conflito comigo mesmo
E ser tão incompetente a ponto de não conseguir resolvê-lo,
Se fui eu mesmo que o criei?

Como posso continuar acreditando nos sentimentos
E nas amáveis histórias revolucionárias,
Se eu já perdi a crença
No meu próprio ser?

Como posso continuar cultivando essas amizades,
Se a cada dia que passa
Eu só as sufoco mais
Com minhas questões em aberto?

Como posso prosseguir
Insistindo no erro
Mesmo consciente
Do que estou fazendo?

Como posso parar de me questionar
Sobre coisas que não sei responder
Se quando eu tento,
A caneta ganha vida e expõe
Coisas que minha alma covarde
Sempre esconde?

 

João Gnecco - 14/06/2019

 

👁️ 73

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