Ressurreição
Mais uma vez
A incerteza me escravizou,
E o amargor do meu coração
Veio à tona, retornou.
Mais uma vez
O arrependimento segue impune
E inocente, mesmo que tenha
Cometido o pior dos crimes.
Fui o mesmo chato,
Monótono e ridículo.
Meu coração um dia repleto de amor,
Hoje desistiu de pulsar
O vermelho latente
Pelo meu corpo,
Que está mergulhado
Na mágoa profunda.
Mágoa que o coração pariu.
Coração idiota, coração suicida.
Apunhalou-se fatalmente
E anunciou sua ida.
Tudo acaba
Vai abaixo, some, padece...
Até aquela paixão,
Paixão tímida...
Pequeno amor,
Que se escondia atrás
Das cortinas da vergonha,
Hoje, fugiu.
Não sei se todos voltarão.
De fato houve fuga
Revolta e solidão.
Mas foram definitivas?
Não se chateará mais,
Nem se enfurecerá mais.
Todos fugiram.
Menos o arrependimento.
Seria a sua falta
O motivo da escuridão,
Ou minhas palavras
São ditas em vão?
Seria o nada
A ausência de tudo,
Ou a presença do vazio
Dentro do finado coração?
Ah, seus olhos meigos
Castanhos encantadores,
Carregados de lágrimas
Junto à sua voz abatida.
Queria eu ser o causador
Da tua felicidade,
Do teu bem-estar
E de tua risada simpática.
Queria eu aproveitar
Seu amável sorriso
E seus lábios cheios
De ternura e encanto.
É esse encanto
Que me aprisiona
Feito camisa de força,
Feito animal em cativeiro.
Meu desejo prospera
E ecoa o som da ternura
Quebrando o vazio
Da noite escura.
Nasce, portanto
Um círculo sentimental
Que ressuscita e fortifica
A paixão fugitiva.
Se o amor é tortura,
Sou masoquista.
Se o amor é o óbito,
Sou um suicida.
Agora eu entendo
O coração suicida,
Que se matou por anseio,
Vontade de amar.
Com a ressurreição
Da paixão fugitiva,
Os antigos sentimentos
Reaparecem maduros.
Todos se unem
Numa só labuta,
Transformam incerteza
Em convicção absoluta.
Convertem o antigo
Arrependimento impune
E inocente, em persistência
Justa e rígida.
Rasgam as cortinas da vergonha
Que resguardavam o amor acanhado
E deixam a luz da afeição
Entrar pela janela.
Essa luz dizimou
O antigo engano
Como demonstração
De amor e ímpeto.
Graças à essa luz
Que iluminou meus horizontes,
O coração suicida renova-se
E reaprende a amar.
João Gnecco - 02/11/2018
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