Àqueles Amigos

Ser humano...
Conjunto de insatisfações
Consolidadas num erro ambulante
Chamado "eu".

Eu, que reconstruí
Minha própria imagem.
Eu, que enforquei
Meu próprio Narciso.

Eu, que já me esqueci,
Me reinventei.
Eu, pensando em amores
Que um dia amei.

Onde está o amor?
O amor próprio, a aceitação,
As noites mal dormidas...
Foram junto com o Narciso?

Eles estavam certos
Quando me aconselhavam,
Mas eu não digeria
O que todos falavam.

Se me reinventei
E me sinto bem,
Tomei essa atitude
Com a ajuda de alguém.

Rodas de conversa,
Palavras pairando,
Problema relutante
Em aberto, pulsando.

Tal qual leite com café
A dor se misturava:
Muda o gosto, muda a cor,
Muda tudo, sem remorso.

Me prendi na cela
Que eu havia construído.
Cela escura, cela fria,
Cela do silêncio.

Eu permanecia preso,
Com algemas da insegurança
Pesadas como o arrependimento,
Filho primogênito da mudez.

Falsa liberdade
Que escorre pelo rosto
Em seu mais puro formato:
A lágrima.

Fecho os olhos
E me deparo com a imensidão negra.
Que belo vazio!
Vasto, grande, infinito...

Liberdade pura!
Como eu amo isso...
Mas mesmo assim,
Fechando os olhos.

Apreciando o vazio,
Ou seguindo o encanto da noite
Na avenida que de "nova" não tem nada,
Sinto que sempre estive preso.

Sempre estive em coma,
Sempre estive estagnado,
Mas mesmo em tal estado
Nunca estive sozinho.

Falsa liberdade sempre me acompanhou
Em meus devaneios diários,
Nos quais eu tentava
Me enganar.

Mas por que se enganar,
Ser inconfidente a si mesmo,
Se a realidade
Nem é tão dura assim?

Por que se enganar
Se a realidade
Nem é tão amarga
Quanto o café, que mancha?

Meu querido espelho,
Por que você se priva tanto?
Anda tão calado,
Não fala nada a ninguém.

Vá viver a vida,
Saia desta cela,
Porque na hora da despedida
Não se lembrará mais dela.

Os que sempre te acompanham
Você sabe onde estão.
Que te juram fidelidade,
Um cantinho no coração.

Novamente lhe pergunto,
Veremos se já aprendeu...
Ficará só, tal qual defunto,
Ou viverá como eu?

As algemas não existem mais,
A mudez também se foi.
O problema relutante foi levado
Pelo forte vento da amizade.

O barco da tristeza
Ancorado no mar da solidão
Segue viagem, sem rumo,
Porém com novos tripulantes.

Risadas doces,
Bocas amargas,
Abraços quentes,
Palavras sensatas...

Todos são parte
Da corrente da felicidade.
O principal elo
Leva nome de 'amizade'.

Como eu queria
Que não tivessem fim
A poesia e a amizade,
Tão importantes para mim!

Mas se não acaba,
Não tem valor.
O fim não é término,
É começo do novo.

Morre trigo,
Nasce pão...
Fiquem sempre comigo
No meu coração.

O que embeleza a vida
É a despedida.
Porém, como é incerto,
Nunca é um adeus.

João Gnecco - 25/01/2019
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