Escritas

Lista de Poemas

Total de poemas: 91 Página 5 de 10

Noite de chuva

noite de chuva
o vento passa por entre o punhal esconso
no escuro mais profundo do mundo
e a noite manchada e farta de si
onde dorme teu sono que
arrasta estrelas enternecidas entre os teus dedos
arrasta a lua, os astros, um deus do medo
o céu de infrangíveis segredos
arrasta a cor da pétala flor
e a palavra inocultável
como  a dor
de nascer e viver morrendo

noite de chuva
as sombras dessentidas
geram a madrugada
no espaço fecundado pela sombra
inoculável
como a melancolia
de morrer e nascer todo dia

noite de chuva
esta chuva que persiste talhada
ressumando a lágrima que demora
seca em teu rosto
enquanto teus passos te levam nua
pelos caminhos dos rios,
intocáveis
e incognoscíveis
como a pretensa palavra
que define o engodo do que seja a morte e a vida
 
noite de chuva
que amadurece o inverno
e prenuncia na chuva que ora cai
mais uma outra primavera
e burila no enigma do barro
o esboço
de uma lua crescente
em uma pequena noite,
jogo de cintilação e de espelhos,
suspensa nos astros
indecifrável
como a angústia do bem e do mal
e a panacéia da morte para a vida de medos
que se vive afinal
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Versos insontes

a tarde faz-se escura...
...chove
e terna e exilada
contempla mares entediados e distantes
limites de terras solitárias
como o pássaro pousado nos meus sonhos
eternos silêncios e cansaços
me chama devagar
tão lentamente
me leva pelos caminhos deslindados da memória
há momentos onde tudo é só saudades
e, então, já não é suficiente o deserto que se estende
diante da tela do computador
onde o nada permanece transparente e intangível
onde as palavras navegam
incertas rumo aos rochedos da infância
e tudo que tenho para dizer são só enganos
miragens
ausências
melancolias
vento triste
versos insontes
sombras invisíveis plasmadas
nas criptas das madrugadas insondáveis
sedes cansadas
saliva e beijos que guardei para ti
não digo amor,
esta palavra e seu fogo inquebrantável
a chuva molhando lembranças de cartas de amor
encharcando o inocente outono
volteando e escalavrando dentro de mim
incendiando o instante cinza do céu imoto
resvalando na tua voz
declamando o poema no tim-tim-tim do telhado
trazendo docemente a noite furtiva
no ventre de uma lua amarela
tecendo os olhos com os quais velarei o teu sono,
solidão
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A escravidão da razão

o homem embosca e deturpa sonhos
abre-os pela metade
passa os olhos viciados e soturnos
e deposita-os no chão
cego de tantas certezas
descarta-os
palmilha medos
enganos
bebe venenos
aspira gases
corre do tempo
preso ao destino
apega-se ao supérfluo
desintegra a matéria
e grita "Heureca!"
o homem perde o alento
no passo incerto e lento do vento
soçobrando nas areias
a andar por caminhos penosos
pelos tempos da memória ancestral
e indecomponível
como o Universo que une o verso
e o homem
siderando o passado
com infrangíveis amarras
com os olhos resignados no chão
e o engano ingente e coagente
da escravidão da razão
morre
entre cansadas certezas
e o grito estancado da solidão
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Vai

vai,
e pé ante pé,
deita-te como a manhã
sobre este tempo leve e quente
que tu és
tempo claro,
maduro,
brando como os pássaros
glauco como a grama do jardim
deita-te sobre este tempo assimétrico
gravado e recluso nas folhas das flores
que em folhas secas em tantos tempos se desfazem
e cobrem o chão
ancoradouro dos meus passos
que renascem minuciosos e breves
em rumores
pequenos atos ocultos
que assim se escrevem
na farsa dos caminhos que me levam
👁️ 110

Tudo é ausência

tremeluz na noite o oscilar
lento e enganoso do tempo
o sonho dorme enquanto a noite espera
 
meus lábios bebem o destino
porém não pronunciam o teu nome
teu nome sonha enquanto a noite espera
 
o silêncio ilumina a noite
e arde na espera escura e clandestina
pelo incessante Eco escondido nas neblinas dos séculos
 
o vento levita e vela a mancha quieta e negra do céu imoto
e sopra estrelinhas que caem
riscando lembranças de mundos que vão na alma
 
folhas balouçam das árvores
e falam de sombras inapagáveis
soluços incomensuráveis
 
é primavera
nas folhas sanguíneas da rosa
nas fontes e seus chorosos caminhos
na angústia incognoscível e dolorosa de existir
 
a noite é espera
a noite é quimera
a noite é sombra silenciosa dos sentidos
a noite é estes muros inacabados de solidão
 
a brisa esvoaça e traz no ventre do mar
a agonia das terras das ilhas desgarradas
ato e destino
memórias acalentadas pelo ruflar das asas das aves noturnas
pela noite feito os gretados caminhos dos ventos
vigília e eternidade
sonolentos e indistintos rumores de fontes
compassos da aragem sussurrando
por entre ternuras e lírios
 
entre cansaços e exaustão
a vida se desvela, incidente,
como em tantas outras noites
como em tantas outras épocas
 
não obstante
para o homem sem verve
sem esperança que o leve
os olhos postos no chão
de quem já não pode chorar
tudo é ausência
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O poema se diz sozinho

as minhas mãos espalmadas esperam outras mãos
que venham acariciando o silêncio que se levanta
da noite imensa e imprecisa
ecoando recordações
reminiscências deslindadas no tempo
 
espero outros olhos
que fitos no abismo que habita em mim
expressem peremptórios
a evidência inconteste de nada sermos
para além do pensamento e do tormento desta existência
onde a minha alma eterna espelha e reverbera os sentidos
a procurar pela liberdade dentre poemas inacabados
que já não sei escrever
dentre os sóis flutuando sobre tardes derradeiras
dentre o alarido da vida clamando vida e vida e vida
poemas que nascem como sílabas recusadas
de emoções ancoradas a um verso e a um tempo
onde as palavras e gestos incontidos e sem nome
dizem das distâncias e das solidões caindo
como tristezas sobre os meus olhos cansados de não te ver
caindo sobre o meu corpo cansado de não te ter
calando a minha voz numa incognoscível saudade
 
a poesia, tão tímida quanto os sentimentos pueris, silencia
e em silêncio condena de amores a minha alma
e faz voar borboletas num céu de elude tessitura
e de saudades insinuadas por tanta ilusão
decompondo sonhos
espreitando a tarde
que se demorava inextinguível nos teus peitinhos pequenos
colhidos pelas minhas mãos
 
hoje, com as mãos sobre o rosto, balbucio o teu nome
lentamente
enquanto as lembranças inventam carinhos que não te fiz
e que me dizem da inquietação que era te amar
hoje, balbucio o teu nome
como o dia balbucia a manhã e se despe do escuro
vestindo-se da nua luz ainda adormecida da aurora
e na manhã leitosa e insonte
voam pássaros em direção ao passado
para além da tua  ausência
e do meu medo
 
o poema, então, se diz sozinho
como uma voz no deserto
que a vastidão perpetua
em te querer, mas és lua
recitada na ficção das noites inomináveis e cambiantes
que, deste nascer sem morrer,
não me deixam te esquecer
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Desalento

vem dos muitos eus o gosto esconso e devasso do abandono
o tempo tecido de instantes morosos
a dúvida levantando-se do medo das noites antigas
a agonia onividente
na clausura a tristeza cantando por entre os ferros da cela
o silêncio arrependido da culpa
o asco escorrendo pelas sombras bebidas do dia
a melancolia premente inventando vazios momentos
a esperança que espera e não chega
a distância que não começa e já cansa
a barca da solidão à deriva
barco a ser queimado
o ígneo passos dos meus caminhos sem volta
a lua cheia suspensa e estendida
prisioneira e esquecida na insolência dos astros
o desassossego dos cães latindo na madrugada
a madrugada acordada, emboscada, esperando pela manhã
a inércia observando e absorvendo a vida que morre em versos tímidos
a vida que dorme o sono inócuo
prostrada nos templos incandescentes
silogismos a me definir no nada que sou
e me assuntam na fluida lágrima
que liga a palavra à palavra
que me visitam embriagadas e trôpegas
num engano de eternidade
que me faz grito vago
noite outra vez
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Outro tempo

mais um agosto
desmedido em dias e noites
ilusões e atalhos irreais
que me trouxeram até aqui
na batida surda de um tempo antigo
e que já pressentem-se
como amantes
ao início próximo da primavera
a alma despe-se dos enganos da vida
ainda traz na tessitura do ser a brisa inebriante
e o perfume das flores noturnas
e o plangente repicar dos sinos
meditando a imprecisão das horas
e a pulsação da vida
o campo florido do verde dos pirilampos
que se estende e ilumina a noite ditosa
vem da candeia
de um céu cintilante
rendilhado de flamantes
estrelinhas mergulhadas no ocaso
a lua traça no céu
um arco de linha nacarada
sobre o fundo negro que se
ergue dos montes adormecidos
na noite diáfana
-demora-se a chamar-me
fica no ar o som palpitante das palavras
e suas ausências doridas
se escondem
e tanto de melodia
se esvai
na armadilha derramada do dia
a poesia dorme, concisa,
no colo nu das folhas úmidas,
nos braços enrodilhados dos pingos da chuva,
que desenhavam arabescos nas janelas
e levavam a minha e a tua vida
como o incansável dizer adeus
uma ave adeja na noite sem nome
solitária, atravessando os fios finos dos rios
chove
e o pássaro traça a hora carmim de um momento sem fim
chove
não a chuva que chovia dolorosa
nas ígneas gaiolas abertas da infância
entoando nas paredes do sonho
o som molhado e ritmado dos pingos
hoje a chuva não cai sobre os telhados
e não junta seu som
ao som bom do barro das telhas
hoje a chuva não escorre
pelas ruas de terra
nem pela sombra negra,
indefinível,
áspera e sibilante do crepúsculo vermelho
não deixa no ar o olor quente
de terra molhada
e dos passos embriagados que caminham
sobre as águas inexequíveis
não há canteiros
nem flores
nem cores
onde vicejava a eternidade dos sonhos
e da vida
que a chuva, então, avivava
hoje a chuva é o instante
sem a cor do sonho
sem as memórias e as histórias
e as fábulas
interminavelmente azuis
da imaginação
que pasce num mundo
onde a semente espera latente
e longe dos segredos dos meninos
reprisados noite após noite
o momento passou
trazendo a obscura noite dos sóis
sobre os quintais
busco em mim
o que eu fui
o que eu era
esta não é a primeira primavera
nem a última lenta agonia
que os meus olhos soluçantes
vêem passar
busco-me entre as flores do passado
lá onde a vida nunca deixou de ser jardim
onde as flores balouçam, suaves,
aos pingos da chuva
e que balouçam, também, os labirintos do meu mundo
oh, doce flor do jasmineiro,
a tarde chora outra primavera
espargindo aromas voláteis,
derramando folhas e flores
levadas pelo vento
para além das palavras e dos signos
e do encantamento
outro mar
caminhando para as areias
outro tempo
desapegado e incomensurável
entre as mãos
molhadas de ventos e de cores
outra solidão
com a qual finda-se o dia
e começa outra poesia
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Desabafo

enojei-me
enojei-me de mim mesmo
da minha falsa candura
da minha real covardia
enojei-me da minha fuga
e dos meus medos
da minha sombra escura
pássaro negro nas nesgas claras do ar
flanando como os meus sonhos sem rimas
que nem consigo entrever
que não consigo atinar
um sem sentido me espiando
do sempre mesmo lugar

enojei-me dos pretenciosos
e os encantados com o poder
enojei-me dos homens
enojei-me das gentes
vendilhões de tristes madrugadas
de tantas noites sonhadas
dos laivos de tantas manhãs rasgadas
pelos passos falhos do vento
pelas rimas de um velho e doce poema
deixado para se declamar num junho inundado de azul

o que serei quando esquecer este mundo?
outra vida?
passado em chamas?
vento suave?
tufão?
um anjo à deriva e alado?
desdita?
saudades?
ou o vazio atávico e inominado caindo das minhas mãos?
a vida incompleta
que escorre, ressuma e grita?
pouco importa
não vejo nem a luz nem a porta
que me tire desta cava
onde, inelutavelmente, o tempo cai sobre mim em descompasso
não sou um homem do meu tempo
"meu tempo" nada tem de meu, nada tem de mim
meu tempo é só os momentos que me levam até o meu fim
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Enquanto aprendo a morrer

ah! se houvesse uma noite
para descansar o cansaço de sempre ser
pensamento
eterna memória
passado
o grito na margem abandonado
o enredo ou soluço das naus sucumbidas
a luz acendendo o porto na tarde devagar
o silêncio e a sombra amoldável
tudo sufocado
sendo só
 
sendo só
enquanto se aprende a morrer
com o limo verde dos rios
com o gesto noturno da flor desfeita na espera
com a canção doída do mar a solfejar nos rochedos
 
ah! se houvesse uma noite
para descansar o cansaço de sempre ser
nuanças e sussurros das águas mastigadas
 
ah! se houvesse a noite inconsolável
o prelúdio do lamento de tudo que não esqueci
a tarde incendiada
pelos perfis amarelos e ardorosos dos girassóis
a lua nova num céu intrínseco e túrgido
o ritmo suave dos meus versos intocados
lembranças de quando eu era criança
as mudas inquietudes das noites tocando em mim
o choro e o soluço sufocante
os seios róseos de Pingo
duas rimas de poesia
me ensinando a morrer
dois versos a cada dia
 
ah! se houvesse a noite inconsolável
e depois do rumor da noite a morte se fazendo
redimida e arfante
quando eu aprender a morrer
e de tanta melancolia
a morte se faria
nua e vã
como se faz poesia
rascunho escrito no cerne da areia
palavras atravessando o destino
esperando o momento dilatado
do sonho do sonho de ser menino
desenhado no espelho
cubo de vento
caminhos gélidos de fogo
e segredos
estou só
nesta vida emprestada
o tempo passou
e o que é de meu é coisa alguma
é a trapaça do tempo dizendo nada
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