Escritas

Lista de Poemas

Total de poemas: 91 Página 4 de 10

Amor e poesia

sonho contigo
e a vida se faz
amor e poesia
suavemente
inventa as asas brancas do dia
faz-se as ilusões das noites encantadas
por onde caminham os meus passos
silentes
e esquecidos
rumo aos teus braços nus
e indefinidos
sonho contigo
e a vida se faz
amor e poesia
por onde olham os meus olhos
no doído segredo da tua ausência
inacabada e premente
em tempos indevassáveis
em sonhos acordados
momentos inelutáveis
efêmeros
como todo sonho que inventa
e embebeda nas horas das noites
atentas
vígis
trementes
os brandos poemas
reinos sem rei
poemas sem rimas
e que o amor seja só poesia
quando eu estiver só
junto ao mar
amor
junto ao mar
junto à sombra perecível
e vermelha da rosa
na qual me envolvo e me perco
e me pego, assim, encantado
a sonhar contigo
a vida tecendo gritos
coloridos de paixão
nas madrugadas de amor,
eternidades,
teu corpo, poema na minha mão
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Ideia

comove ouvir o rumor da brisa a soluçar nas flores
em tantos caminhos efêmeros,
em tantos amores pulsando,
a suspirar
inundando palavras que se compõem
em tantos traços
e com as quais se escrevem
e se denotam a vida e a morte
contrai-se o sonho na noite sem nome,
a opacidade do amor nos dias sem fim
dedilhados sílaba a sílaba
extasia o fim de tarde a beliscar as cores
que ressumam de um sol poente
vermelho cúprico
laranja
lilás
quilha e fronteira entre o dia e a noite
na surdez branda do vento
arrancando ao ventre túrgido da terra,
prenhe das noites,
a ideia,
onde se alarga o momento de ir embora
e nunca mais,
nunca mais voltar
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Renúncia

o que eu fui dorme nos tempos,
nas noites
sem respostas,
invento palavras,
espera-me no instante que me olha longamente
e tem a minha alma naufragada em sensações
na sucessão de sombras e gestos
no silêncio incriado dos cansaços
na fome do amor dado aos pedaços
no acalanto e na solidão de tantos braços
na vida sedenta
gritando renúncias
para uma imagem velha
num antigo e esquecido espelho
neste momento de ausência e de prenúncios
nestes dias transitórios
e macerados pelos quatro elementos
e pela melancolia devoluta e intocada
que ressumam os ébrios sortilégios dos meus dias
👁️ 114

O que eu fui dorme nos tempos

o que eu fui dorme nos tempos,
sem respostas,
espera no instante despojado e entristecido que me olha longamente
e tem a minha alma naufragada em sensações
na sucessão de sombras
e gestos
e medos
que os olhos escuros da noite traz
no silêncio incriado dos cansaços
no acalanto e na solidão de tantos braços
na vida sedenta
gritando renúncias
neste momento de ausência e de prenúncios
nestes dias insaciáveis e transitórios
lentamente intermináveis
de intocados silêncios quebradiços
e macerados pelo labirinto do tempo machucado
e pela melancolia devoluta e intocada
que ressuma as memórias dos meus dias
de repente
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Caem as flores

caem as flores,
lentamente,
sobre os caminhos do outono
sobre lembranças e sonhos

lá fora há um sol alegre

digo ternuras
para os teus cabelos
há tanto silêncio nas palavras que lhes digo

o mundo sonhava triste antes de ti
o azul esperava
os versos suspiravam
e esperavam
sementes

dormiam na noite acesa
tempos distantes
solitários barcos
ilhas cansadas
frágeis oceanos
mares sem nome

depois de ti
as ondas quebravam entre as tuas pernas
e era em teu corpo que eu navegava
naufrago insaciável
enquanto as flores caiam
sobre os caminhos do outono
sobre lembranças e sonhos
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Chove sobre os lírios

chove sobre os lírios
 
não a chuva que chovia
sobre tudo
sobre os círculos concêntricos
dos mamilos dos teus seios
sobre as ígneas gaiolas
dos pássaros abertos da tua infância
entoando no telhado
um som complacente e ritmado dos pingos
que vazavam sobre as bordas dos telhados
hoje a chuva não escorre em prantos
pelos caminhos incandescentes dos telhados acesos
não deixa no ar o olor ameno e quente
da terra molhada
não molha minhas mãos
enquanto em barro me multiplico
e me repito na angustia de ser a mesma sombra
a mesma mágoa
não  molha os canteiros exauridos
não toca cúmplice flores e seus tempos incertos
nem cria tramas e cores indevassáveis
onde vicejava a eternidade
onde plasmavam-se sonhos
e estrelas
acordando as vozes
com as quais ainda teço e digo teu nome
confessando a ambivalência das madrugadas
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O silêncio quebrado

o pensamento esvoaça e inventa
o silêncio quebrado
pelo vento trazendo o passado
porejando antigas canções em lábios sem faces
abrindo as janelas indecifráveis de um mundo impronunciável
abrindo a voz da manhã florida de sons
onde as pétalas caídas das flores enternecem
a recordação dos teus lábios dizendo canduras e silêncios aos meus
dizendo dos tantos instantes imutáveis e imorredouros
que pode haver nos laivos da vida cruciante e translucida
no gesto encoberto por esta nostalgia precária e deambulante
por esta agonia e por este pranto
intocados anátemas modelando a minha alma
pelos níveos véus da neblina suspensa na manhã que acorda
e acende as cores nas flores que sangram consumidas pela efemeridade de ser
e esmerilam incessantes o perfume frágil que a noite suavemente entornou
fazendo do aroma das flores a eternidade imponderável  de ser
desenham olores nas folhagens e coligem as manhãs
e os rios correndo para os abismos de tanta solidão
para tanto desassossego
e tudo, tudo, ofegando na plenitude desordenada e ambígua
do que pode vir a ser poesia
na imarcescível página em branco do dia
pergaminhos (pelos séculos)
minuciosamente lançados ao mar dos sonhos
trazidos no sono da noite súbita
embalado na cantiga das ondas em chamas
na ebulição irrevelada dos versos
na mansidão absoluta dos ventos
que trago mudas em meus braços
garrafas soçobradas no mar dos meus sentimentos
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Miséria e fome

Senhor,
Viestes nos procurar
a mim e a este cão que atende pelo nome de Fome
trouxestes alento para as nossas lágrimas
trouxestes o cântaro cheio da Tua Verdade
e da Tua comiseração

da latência das Tuas palavras
inventa-se a paciência e/ou o desespero
escorrem os momentos para o fim
e o fim é a catedral onde a neblina apagará os círios
que consomem os dias e as noites
inelutavelmente

o homem deglutindo a fome
o cão salivando a fome
a criança aprendendo a fome
subsistem por imposição da vida

crianças faminta arrostando a vida
crianças no lixão mimetizando-se com os urubus
crianças carcomidas pela estultice dos discursos vãos
crianças apedrejadas pelo egoísmo inaudito
crianças pedindo nos semáforos
crianças na prostituição

Dizei, Oh! Senhores,
chefes das nações que sendo várias deveriam ser uma
que almoçam e que jantam e arrotam e jogam o sobejo fora
o campo semeado e a colheita são insuficientes?
a semente, se mente e não vinga e se vinga e se morre?
a miséria é algo tão distante, insólito e obscuro
sem direito sequer a um osso para o cão,
a um pão duro para o dono?

um dia, sentados diante da emoção incomensurável da mansidão de uma aurora
molhada pelo sereno que o vento traz e acordados pelo sussurro dos deuses,
olhando para o que acumulamos,
um dia pressentiremos (será)
que morrer de fome, na miséria é a quinta-essência da indiferença
açodando os círios acesos para que se apaguem mais celeremente todos os dias
sem atentar que tudo que é é eternidade
👁️ 111

Busco versos

busco versos onde só há ausência e delírio
versos que se espreitam e se acabam
no colear das noites longas e contemplativas
versos esconsos que se desatam e em ânsias se elidem
antes que eu possa ouvir o grito latente
premente na boca da vida e da morte
versos silentes
endógenos
onde repousa a impostura dos sonhos
onde repousam segredos
medos
melodias
segredos inescrutáveis
minuciosos medos
momentos de uma densa tristeza
momentos de uma fascinante beleza
momentos de asfixiante loucura
impenetráveis eternidades
perfumes de ontem ao vento

solidão
 
onde repousa a essência do que sou
alma e memória do que tantas vezes já fui
recrudescendo em séculos atemporais
quando nas noites trepidantes e intempestivas
se escuta um soluço antigo e diluído
antes da lágrima indizível e sem voz
que o tempo possante e incriado
abandonou em meus olhos
deixando-me entre gestos silentes, a sós
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Há um silêncio

há um silêncio oculto nas perguntas
e nos gestos dentro das palavras tão sem sentido
enlaçadas ao escuro incendiando os caminhos das noites
há um silêncio oculto nos poemas recitados nas madrugadas
perfumadas pelo sono das estrelas
e acalentadas pela solidão trêmula dos dias redundantes
há em você e há em mim este silêncio
das lágrimas dos sonhos que invento
e este gosto de tardes e ternuras
que trazem a saudade de uma canção antiga
que canto só pra você e para a sua ausência
há um silêncio oculto no choro convulso que a noite traz
há um silêncio oculto nas flores
e nas cores das flores
que já não são as mesmas de ontem para hoje
há um silêncio oculto no tempo
frívola e inútil mentira que invento
para guardar nossos momentos e garatujar o sentimento
meu primeiro esboço de você
há um silêncio oculto neste amor  que é passo a passo
e que me leva até você
há um silêncio oculto no cansaço e na queda
há um silêncio oculto nos rascunhos que escrevo
ilusões cativas e indizíveis
momentos e labirintos
sonhos adormecidos na essência da vida
punhais afiados sibilando no vento que passa
e traz luas tão antigas quanto este canto que canto
só pra você e para a sua ausência
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