Escritas

Lista de Poemas

há sempre o querer-te

a história
às vezes é sobre uma pedra ou flor igual a tantas outras, mas em que vejo sem ver, detalhes espectaculares
outras vezes é sobre os desenhos que descubro nas nuvens e imagino um cenário de brincar a habitar os céus
ou ainda sobre os lugares quentes por dentro que revisito nas dobras do mar
ou então, não é nada de preciso; são apenas atropelos titubeantes entre os recortes do mundo e uma insinuação de perfume ou do sabor a ti a escorrer na garganta

qualquer rasto ou tremura atiça a vontade de fazer histórias para te contar
e há sempre o querer dizer-te
ainda que não saiba das palavras e precise do pulsar das tuas veias para erguê-las

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dias de sal

mordemos poemas que ardem no fundo do mar
no encontro de duas bocas com a mesma sede 

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os poemas também ardem na boca

deus ainda não sabia 
que dizeres és tão bonita
com olhos de luz e mãos ardentes
é seiva de poemas a bocas entrelaçadas
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das histórias com borboletas

escrevo as histórias com borboletas que trazes aos meus dias
e descubro que não sei com que palavras se diz o desejo em misturas de inquietação e aconchego
como um murmúrio de mar de águas lisas debruadas a ondas       umas à procura das outras
corpos que se escrevem em desassossego de ternura
 
 
marta bevacqua
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o amor dá outra vida às palavras

o amor dá outra vida às palavras. a certas palavras.
há palavras ou conjuntos delas que têm uma nova respiração
a nossa      minha e tua
ao ponto de se tornarem referências ou códigos, colagens até 
a funcionarem assim: ouço ou digo aquela conjugação que se fez senha por acaso, sem esforço, e como um passo de magia, vou até ti, apareces-me. 
é o que acontece com casa
uma palavra que engordou de significado, engrandeceu 
libertou-se da arquitectura do mundo para se transformar em eixo-símbolo do quente
o nosso      meu e teu
tal como o sol já tinha conquistado esse poder de transmutação
em chuva-luz a descer-te pelos ombros
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nisto do amor

nisto do amor
talvez não me aconteça nada de especial ou extraordinário, se comparado com as outras pessoas.
talvez sejamos muito parecidos naquela parte de nos apaixonarmos por pequenas coisas, muitas pequenas coisas sem importância que incitam ao amor; pequenos nadas que fazem o amor e ao mesmo tempo desfazem a possibilidade de responder ao porquê de o amor recair em ti.
às vezes penso que devia usar conjugações menos mundanas para dizer como num qualquer momento em que me julgo distraída, sinto estas miudezas a imporem-se e a ocuparem a vida. às vezes é o teu tronco em céu que vejo no ufanar das velas do barco que passa na minha frente. outras vezes é o brilho do vento embrulhado a sol que faz reaparecer o sorriso dos teus olhos. às vezes acontece muito rápido, um intrincado de sensações que fazem o meu mundo ter a medida de ti.
isto do amor
talvez seja sempre especial e extraordinário. assim do nada, o amor é capaz de fazer com que uma partícula minúscula, um corpúsculo, um acidente dos dias, me leve a ti.



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mais um pouco de eternidade

um corpo a cair sobre outro corpo
a memória da respiração sobre a pele
uma mistura de quente      um lastro de almíscar      um sopro ou vento bom 
versos livres    a poesia
funde-se no fica assim um bocadinho
um convite escrito a formas do corpo
a escorregar suavemente na sobreposição do nós
e mais um pouco de eternidade

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coração

o teu olhar de estranheza pousado no altar não melhorou quando te disse que ainda faltava o coração. 
viria juntar-se ao mar, aos pássaros, aos sapatos-carne e ao mundo dos poemas desenhados a luz e sombra. disse-te assim. 
e veio. o coração foi o último a chegar ao altar das inutilidades pela dificuldade em encontrar um coração verdadeiro, que a norma são os corações estilizados, desenhados a recorte do rebordo exterior. expliquei-te tal e qual.
a tua estranheza no olhar parecia estar ligada à memória de uma história infantil que ias ouvindo sem acreditar - como as fadas de que te falo na epifania - ao mesmo tempo que desembaraçavas uma linha de possibilidades de verdade a coserem-se aos corações à séria.
uma estranheza decalcada ao olhar que acompanha o movimento de baixo para cima vagamente alinhado com o fio de luz.
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vamos para ali

deve existir um alfabeto ou código para dizer
da camada indefinível que me leva a ti
do espanto
do conjunto em busca da harmonia que não quer chegar a ser
para se manter vontade
uma qualquer mistura dos silêncios em luz      entrecortados a bocas
e o corpo em desejo desenhado a mar e céu

vamos para ali
dito assim      meio lei meio convite

podia bem ser o era uma vez 
das histórias com corações apressados 
o murmúrio do grito de guerra      em amor
que desperta e incita

vamos
dito assim      sem som      a fazer caminhos


marcel pommer
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tesouro

nunca te falei da caixinha dos sonhos. 
assim desta forma: tenho uma caixinha dos sonhos. talvez isso não se diga dessa maneira, que quando as coisas se dizem assim, em corrido, de voz, e com as letras todas tal e qual, ficam circunscritas às linhas do factual. dita dessa forma, a caixinha aterraria na dimensão humana e perderia qualquer coisa da sua essência, que é aquele intrincado feito de acontecer, verdade do mundo, magia e histórias com borboletas. tudo misturado, com sabor indefinido, mas a saber bem e a saber-se que é de um bonito inexplicável. até porque a caixinha dos sonhos não guarda só desejos, ou não guarda apenas sonhos-desejos por acontecer ou conquistas por fazer; a caixinha também guarda aqueles pedacinhos do amor que luzem sempre - sempre! mesmo quando sinto frio - e penduram bailarinas nas meninas dos olhos.
foto: kiss andrea







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Comentários (1)

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davinci
davinci
2021-01-30

muito bom o seu poetar...