Lista de Poemas

Das viagens de dentro

Não sei se me parecem muitos ou poucos dias, aqueles que passaram desde que te disse que vou andando por aí ou por aqui,
e até te disse que podia ser de qualquer forma,
que afinal há só uma quando nos encontramos sempre,
mesmo que em qualquer ponto do invisível aos olhos.

Continua a parecer-me que a minha alma está sentada próximo do coração.
Pela agitação da bordadura de seda que a envolve,
agora até me tem parecido que ela está menos tempo sentada.
Corre mais vezes para o mar, é isso, à procura da tua alma, quando não a vejo.
(Lembras-te de ter perguntado por onde anda a tua alma, seguido do aviso para que não a deixasses cair?)
Às vezes, quando a solidão anda muito zangada
a ponto de enfiar a cara em todos os buracos e açambarcar os vazios de todos os silêncios,
mesmo dos bons,
ponho a alma no tal colchão feito de pétalas brancas
- se ainda existe? claro que sim! -
e deixo-a boiar até se dar a colisão
- e como o atropelamento (i)mortal faria aqui tanto sentido, já viste? e lembras-te? nem de propósito... - ,
numa qualquer vaga que tece o lindo lençol de seda
- a mesma textura da bordadura que envolve a alma, sentiste?-,
que chamei muito, e ainda chamo, de lindo lençol de seda negra por ser assim que o vi primeiro,
mas que descobri também saber erguer-se em branco-luz feito em desafio de velas.

Trocamos de caneta para pintar as folhas do navio que
leva e faz
histórias com tudo dentro,
que as histórias felizes também têm céu,
e os céus às vezes fazem birras, largam raios e até choram.
Tal e qual como dizem as tuas cúpulas. (Lindas! Sempre, mesmo as tristes.)
Exactamente como te disse naquele dia
em que te prometi sentir-te nas tuas coisas,
só porque são tuas,
e agora voltei a bordar nas velas.

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Ortografia íntima

Habituei-me a ler-te o interior
como se fora um baloiço que oscila entre
as palavras grafadas com todas as letras e
a infância da língua com que me fazes adivinhar
as vogais e as consoantes que preencheriam os intervalos em falta
senão ficassem amarradas ao teu coração.

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Floral

Há sempre uma imagem que nos fica mais colada à retina. Seja dos locais em que passamos de fugida, seja dos sítios em que repetimos experiências. Pensar na colónia de férias que frequentei durante uns dez anos seguidos traz-me à memória as colchas da camarata. Diria que aquelas cobertas, todas do mesmo padrão florido - seriam rosas ou camélias? - em que só mudava a cor de fundo, eram o elo unificador entre a alegria, o aborrecimento, a festa, os amuos. Não era que passássemos o tempo todo na camarata. Não é nada disso; nós até estávamos lá com a finalidade de ir à praia.

O dia começava com um apito. Levantar às oito. Se não estivéssemos a pé em poucos minutos, vinha um monitor com um púcaro de alumínio cheio de água fria. Era para nos deitar na testa. Ainda experimentei!

O cumprimento das actividades diárias resultava de uma planificação rigorosa e apertada em termos de horários. Todo um encadeado que, hoje, ao pensar, associo a uma linha de montagem. E era, só que com recurso exclusivo a mão-de-obra.

Primeiro, havia a missa. Ninguém ousasse faltar à missa. Seria logo accionado o sistema de penalizações mais pesado. Esfregar aquele chão de madeira, por exemplo. O chão em que assentavam os beliches com as colchas floridas.

Seguia-se o pequeno-almoço, preparado por uma equipa extraída do nosso conjunto e que se revezava conforme uma escala pré-definida. Esse grupo de trabalhadores, que éramos nós, os miúdos, com mais três adultos, arranjava fatias de pão escuro com manteiga e canecas de leite para todos e ainda tínhamos que pôr a mesa. E os outros? Não, não estavam de folga. Faziam as camas e ajudavam nos balneários.

Por muitos dias que passassem, por muitos anos que repetíssemos, acusávamos sempre enfado por aqueles trabalhos, que sentíamos como forçados, embora não soubéssemos usar essa expressão.
Quando chegava a hora de nos sentarmos à mesa, esquecíamos tudo. Não era só a vontade de comer que nos fazia esquecer. Havia as brincadeiras, o pão que se roubava ao miúdo do lado e, ai, os pingos de leite na roupa e, "está quieta, olha aí a manteiga!".

Duas vezes em cada turno, tínhamos uma noite especial. Uma festa em que todos participávamos. Havia sessões de magia - para além da magia de todos os dias! -, declamação de poemas, jogos e, sempre sempre um número com animais em fila, qual arca de Noé ao comprido, que formava um comboio com as colchas floridas das nossas camas.

Tudo isto a juntar àquelas histórias do Miguel e da Clara que nós, os mais pequenos, nunca percebemos bem. Soubemos que aqueles crescidos, quase a passarem para monitores, tinham ido para as rochas - "ai, ninguém podia!", e fazíamos o gesto de tapar a boca - e ouvimos falar de beijos na camarata. Uau!

Então, com tal entrosamento com o dormitório, como podíamos nós esquecer aqueles tecidos verdes, azuis, vermelhos e amarelos, com grandes flores? Afinal, as nossas colchas tinham rosas ou camélias? Vês, também não te lembras...


Robert Doisneau
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Descoberta

Mesmo que transmutada

em palavras

ou ondulações de beijos a marcar as marés

ou até em filamentos geométricos de sorrisos

é sempre a tua luz que encurta a minha solidão.


Jordan Sweke

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No amor


no amor
não é a paixão que leva a melhor,
mas sim o que se extrai do amar lento que não exige nada um ao outro,
a não ser a honestidade,
e em que sabes que estás e ficas e queres continuar,
mesmo que seja a tentar,
porque isso continua a acrescentar-te.

Dominique Issermann




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Sus|Penso (ou das histórias com borboletas)

Desenhaste-me sorrisos com as palavras que tão bem sabes pintar. Os meus sorrisos, que não são nada fáceis de arrancar, ganharam comprimento para bater à tua janela. Queria que me ajudasses a fixá-los nos contornos da minha boca. Foi o que te pedi enquanto calçava as meias de que mais gostas. Uma carta que sofre de quebras de tensão e que queria equilibrada com a tua sensibilidade e lucidez.
Não sei o que fizeste aos lápis de cor.
Não sei o que fizeste às aguarelas novas.
Não sei o que fizeste à tela que te comprei.
Temi não poder saber se continuavas a respirar. Temi não poder confirmá-lo.
Não se morre só da carne, dos ossos e do coração que decide parar. Também se morre pelas borboletas que deixaram de voar.
Com os dedos, tatuámos um acordo. Nos dias em que quisermos escorrer doçura, abriremos a porta do borboletário. Para que a maior, a belbellita de asas de veludo negro e pintas vermelhas, possa treinar o voo nas entrelinhas do nosso passeio.







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Áνατέμνω

Sofrer e lutar pelas tuas coisas
só porque são tuas
diz muito sobre a resistência do meu músculo cardíaco.

Há dias em que lhe acrescento uma quinta cavidade
para guardar os búzios
pendurar as estrelas
abrir a caixinha dos sonhos
ver os teus olhos dançar
sentir o teu sangue bombear
até que o barco alcance um braço de mar.


Laura Makabresku
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da intermitência

encontrei uma imagem de um chão empedrado, com hastes de flores a rebentarem das reentrâncias,
e lembrei-me de ti.
tal como aconteceu com aquela foto desfocada, ou que me parecera desfocada naquele dia,
em que me lembrei mais de ti por falta das lembranças que queria de ti.

o presente / ausente
do imaterial
é uma massa tão bruta quanto delicada
em que tanto contam os acidentes físicos, palpáveis e que se podem medir,
como as balizas frágeis do tempo:
muito ou pouco, que passa depressa ou escorre devagar, do faltar pouco ou muito,
dos dias que conto para ti ou sem ti.

o sorriso tímido,
aquele que não sabe bem para onde ir,
se para o lado em que se abre mais ou se para a outra banda, a da clausura,
pincelado a açúcar mascavado,
assemelha-se ao redondo mais-que-perfeito do intervalo para ti.


Nathaniel Merz
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Fuck

Quando não consegues contrariar a interrupção da felicidade conquistada, f...


Pierre Pellegrini

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o meu coração transborda de quente bom

o meu coração transborda de quente bom 
no esplendor do corpo feito chão 
que vestes de beijos

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Comentários (1)

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davinci
2021-01-30

muito bom o seu poetar...