Escritas

Lista de Poemas

Levar-te à boca

O açucareiro era de alumínio, alto e gordo, e servia para guardar o açúcar louro que tinha uma cor acastanhada, mas nem isso fazia com que dissesse açúcar castanho como também ouvia.Castanhas eram aquelas pedrinhas que se formavam no açúcar e eu apanhava para levar à boca, como se fossem rebuçados. Remexia o açúcar na esperança de apanhar mais, de que estivessem sempre a nascer pérolas e não sabia de onde vinham aqueles tesouros nem me preocupava com isso.
Uma vaga ideia de prémio. Apenas isso. As pérolas aconteciam-me. Os tesouros apareciam-me.

Hoje, à procura de rios para ti,
braços em alfabeto, pinturas com asas e janelas debruadas a olhos grandes com uma pitada de triste,
vi a mão da miúda a abrir buracos no açúcar para encontrar pedacinhos de ti.

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Ortografia íntima

Habituei-me a ler-te o interior
como se fora um baloiço que oscila entre
as palavras grafadas com todas as letras e
a infância da língua com que me fazes adivinhar
as vogais e as consoantes que preencheriam os intervalos em falta
senão ficassem amarradas ao teu coração.

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Floral

Há sempre uma imagem que nos fica mais colada à retina. Seja dos locais em que passamos de fugida, seja dos sítios em que repetimos experiências. Pensar na colónia de férias que frequentei durante uns dez anos seguidos traz-me à memória as colchas da camarata. Diria que aquelas cobertas, todas do mesmo padrão florido - seriam rosas ou camélias? - em que só mudava a cor de fundo, eram o elo unificador entre a alegria, o aborrecimento, a festa, os amuos. Não era que passássemos o tempo todo na camarata. Não é nada disso; nós até estávamos lá com a finalidade de ir à praia.

O dia começava com um apito. Levantar às oito. Se não estivéssemos a pé em poucos minutos, vinha um monitor com um púcaro de alumínio cheio de água fria. Era para nos deitar na testa. Ainda experimentei!

O cumprimento das actividades diárias resultava de uma planificação rigorosa e apertada em termos de horários. Todo um encadeado que, hoje, ao pensar, associo a uma linha de montagem. E era, só que com recurso exclusivo a mão-de-obra.

Primeiro, havia a missa. Ninguém ousasse faltar à missa. Seria logo accionado o sistema de penalizações mais pesado. Esfregar aquele chão de madeira, por exemplo. O chão em que assentavam os beliches com as colchas floridas.

Seguia-se o pequeno-almoço, preparado por uma equipa extraída do nosso conjunto e que se revezava conforme uma escala pré-definida. Esse grupo de trabalhadores, que éramos nós, os miúdos, com mais três adultos, arranjava fatias de pão escuro com manteiga e canecas de leite para todos e ainda tínhamos que pôr a mesa. E os outros? Não, não estavam de folga. Faziam as camas e ajudavam nos balneários.

Por muitos dias que passassem, por muitos anos que repetíssemos, acusávamos sempre enfado por aqueles trabalhos, que sentíamos como forçados, embora não soubéssemos usar essa expressão.
Quando chegava a hora de nos sentarmos à mesa, esquecíamos tudo. Não era só a vontade de comer que nos fazia esquecer. Havia as brincadeiras, o pão que se roubava ao miúdo do lado e, ai, os pingos de leite na roupa e, "está quieta, olha aí a manteiga!".

Duas vezes em cada turno, tínhamos uma noite especial. Uma festa em que todos participávamos. Havia sessões de magia - para além da magia de todos os dias! -, declamação de poemas, jogos e, sempre sempre um número com animais em fila, qual arca de Noé ao comprido, que formava um comboio com as colchas floridas das nossas camas.

Tudo isto a juntar àquelas histórias do Miguel e da Clara que nós, os mais pequenos, nunca percebemos bem. Soubemos que aqueles crescidos, quase a passarem para monitores, tinham ido para as rochas - "ai, ninguém podia!", e fazíamos o gesto de tapar a boca - e ouvimos falar de beijos na camarata. Uau!

Então, com tal entrosamento com o dormitório, como podíamos nós esquecer aqueles tecidos verdes, azuis, vermelhos e amarelos, com grandes flores? Afinal, as nossas colchas tinham rosas ou camélias? Vês, também não te lembras...


Robert Doisneau
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Descoberta

Mesmo que transmutada

em palavras

ou ondulações de beijos a marcar as marés

ou até em filamentos geométricos de sorrisos

é sempre a tua luz que encurta a minha solidão.


Jordan Sweke

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No amor


no amor
não é a paixão que leva a melhor,
mas sim o que se extrai do amar lento que não exige nada um ao outro,
a não ser a honestidade,
e em que sabes que estás e ficas e queres continuar,
mesmo que seja a tentar,
porque isso continua a acrescentar-te.

Dominique Issermann




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Sus|Penso (ou das histórias com borboletas)

Desenhaste-me sorrisos com as palavras que tão bem sabes pintar. Os meus sorrisos, que não são nada fáceis de arrancar, ganharam comprimento para bater à tua janela. Queria que me ajudasses a fixá-los nos contornos da minha boca. Foi o que te pedi enquanto calçava as meias de que mais gostas. Uma carta que sofre de quebras de tensão e que queria equilibrada com a tua sensibilidade e lucidez.
Não sei o que fizeste aos lápis de cor.
Não sei o que fizeste às aguarelas novas.
Não sei o que fizeste à tela que te comprei.
Temi não poder saber se continuavas a respirar. Temi não poder confirmá-lo.
Não se morre só da carne, dos ossos e do coração que decide parar. Também se morre pelas borboletas que deixaram de voar.
Com os dedos, tatuámos um acordo. Nos dias em que quisermos escorrer doçura, abriremos a porta do borboletário. Para que a maior, a belbellita de asas de veludo negro e pintas vermelhas, possa treinar o voo nas entrelinhas do nosso passeio.







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Áνατέμνω

Sofrer e lutar pelas tuas coisas
só porque são tuas
diz muito sobre a resistência do meu músculo cardíaco.

Há dias em que lhe acrescento uma quinta cavidade
para guardar os búzios
pendurar as estrelas
abrir a caixinha dos sonhos
ver os teus olhos dançar
sentir o teu sangue bombear
até que o barco alcance um braço de mar.


Laura Makabresku
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da intermitência

encontrei uma imagem de um chão empedrado, com hastes de flores a rebentarem das reentrâncias,
e lembrei-me de ti.
tal como aconteceu com aquela foto desfocada, ou que me parecera desfocada naquele dia,
em que me lembrei mais de ti por falta das lembranças que queria de ti.

o presente / ausente
do imaterial
é uma massa tão bruta quanto delicada
em que tanto contam os acidentes físicos, palpáveis e que se podem medir,
como as balizas frágeis do tempo:
muito ou pouco, que passa depressa ou escorre devagar, do faltar pouco ou muito,
dos dias que conto para ti ou sem ti.

o sorriso tímido,
aquele que não sabe bem para onde ir,
se para o lado em que se abre mais ou se para a outra banda, a da clausura,
pincelado a açúcar mascavado,
assemelha-se ao redondo mais-que-perfeito do intervalo para ti.


Nathaniel Merz
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Fuck

Quando não consegues contrariar a interrupção da felicidade conquistada, f...


Pierre Pellegrini

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Uma carta para a Sophia

A Sophia faz hoje anos. Noventa e oito anos.
Até há três dias não tinha reparado que ela era de agora, do início de Novembro. Foi uma coincidência bonita e feliz, pelo menos para mim, no sábado ter pedido 'para ficar' com a Sophia aqui.

Não sei se isto que vou dizer acontece com toda a gente ou com muita gente... Comigo acontece muito.
Fixar mais alguém, conhecido ou não, ou uma coisa ou um lugar, ou até decidir uma viagem, por causa de um ou dois pormenores. Nem sei se deva chamar pormenores porque, afinal, acabam por ser as peças que me empurram para a frente e que fazem com que agarre o interesse e não desista de ir procurar mais. Muitas vezes sem dar por isso, mas está lá.

Também me aconteceu com a Sophia.
Até aí há uns quinze anos conhecia a obra dela muito superficialmente, um conhecimento quase restrito ao que tinha aprendido na escola primária. E o meu interesse pela Sophia voltou há década e meia por um apontamento que li em "Sul", um livro de viagens do filho Miguel. A certa altura o Miguel conta que viajaram uma única vez juntos, a Roma, e que a mãe ao notar-lhe alguma pressa e impaciência quando estavam sentados na Piazza Navona, a contemplar, disse-lhe: "Miguel, viajar é olhar."
Como também eu gosto de conhecer novos lugares e sei o que significa a vertigem das viagens toldar-nos essa aprendizagem maior que vem da contemplação, senti que aquela frase era um murro bom no meu estômago. Preciso de ler mais desta mulher, disse naquela altura. E assim foi, embora de forma avulsa, lia o que ia aparecendo e sem pensar muito em cumprir.

Há cerca de dois anos e meio reservei pela primeira vez um quarto numa unidade de turismo social do Estoril. Este espaço tem alguns quartos temáticos, também inspirados em poetas, o que eu desconhecia na altura e também só tive a preocupação de dizer a categoria que pretendia.
Aquando do check-in, e sem que ninguém me tivesse visto antes ou falado comigo de voz, a senhora disse-me que tinha guardado para mim o quarto com decoração inspirada na poesia da Sophia e no mar, que havia qualquer coisa que a tinha feito pressentir que me assentava bem. Sim, era verdade, ao mesmo tempo que achava aquela coincidência divertida e deliciosa. Recordo-me ainda da sensação de, ao abrir a porta, dar com a frase "Metade da minha alma é feita de maresia..." De vez em quando sinto que esta memória se embrulha com a vontade de ler e reler mais da Sophia.

Provavelmente, se não tivessem sido estes dois pequenos acidentes - o Sul, do Miguel; o meu quarto de férias cheio da Sophia - eu não estaria aqui, verdadeiramente deslumbrada, posso dizê-lo, com tanta 'coisa' boa que tenho encontrado sobre a vida e a obra desta mulher.

Nalguns autores é mais significativa e mais recorrente a associação entre memórias das suas vidas reais e palavras ou expressões que aparecem nos escritos.
Mar, praia e jardim, são 'elementos físicos' muito presentes na poesia de Sophia e é delicioso entender como tal se entrosava com os sítios em que viveu, com as memórias de infância, com as suas pessoas.
E agora estou aqui a pensar que não sei se os poemas são sempre histórias... Histórias reais ou baseadas no real, é o que quero dizer. Na Sophia aconteceu muito, como a própria confessou. Por exemplo, no poema As Rosas, que diz: "Quando à noite desfolho e trinco as rosas", sobre o qual Sophia esclarece: "Isto é absolutamente verdade: eu ia para o jardim da minha avó colher rosas, a minha avó já tinha morrido e era um jardim semi-abandonado, colhia camélias no Inverno e rosas na Primavera. Trazia imensas rosas para casa, havia sempre uma grande jarra cheia delas em frente da janela, no meu quarto. E depois eu desfolhava e comia as rosas, mastigava-as. No fundo era a tentativa de captar qualquer coisa a que só posso chamar a alegria do universo, qualquer coisa que floresce."

Se eu só pudesse eleger duas palavras para dizer o significado da poesia da Sophia, hoje seriam: doçura e determinação.


Isabel Pires
6 Nov. 2017


Quarto 22 da unidade de turismo de "O Século" (Estoril, Lisboa, Portugal), com decoração inspirada no poema "Mar" da Sophia | Decoradora: Sofia Novais | Estadia em Julho 2015
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Comentários (1)

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davinci
davinci
2021-01-30

muito bom o seu poetar...