Escritas

Lista de Poemas

solstício

sabia que tinha de haver um caminho para voltar ao dentro de ti
com a boca a esculpir a barco
partindo de mim  
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respiração

morder a vida
tem sabor a linhas de sorrisos que se abrem na pele
e sobem aos lábios em descobertas de silêncios


foto: mário cabrita gil



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transmutação

o tempo
de longo, parece desaparecer ou nem sequer ter existido. 
um movimento completo da terra em torno do sol cerzido a idênticos pedaços de vida. 
uma transmutação restrita ao calendário do mundo. 

como se os mesmos cenários e os objectos conhecidos
a temperatura e o aroma da pele
os amantes
estivessem sempre ali a erguer a história.   
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um estremecimento

o  amor sabe sempre a novo barrado de familiaridade
um estremecimento
como o verão que há dentro do outono ou aquela brisa que há dentro do verão
braços de quente e luz a inundar o peito
como se fora o brotar de flores num campo seco
os lábios a chegarem-se aos teus
uma inquietação
a pele a vestir-se de água
um sorriso    um grito    murmúrios
em chão de silêncio


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brincos-de-princesa

o amor, sendo um caso sério, tem sempre qualquer coisa de infantil. 
até são essas pontes para a infância a debruarem filamentos de dias mágicos, que vestem o amor de brincar-a-sério-a- brincar. um faz-de-conta que conta.
muito parecido com os brincos-de-princesa que pendurava nas orelhas e balouçavam a cada movimento da cabeça, e agora replico com as flores que roubas aos jardins.
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o amor é feito de camadas que se entrelaçam em balanço de blues

o amor é feito de camadas que se entrelaçam em balanço de blues

os desejos e o lado de fora, num jogo provocatório
de progressões melódicas de chamadas e respostas

às vezes provoco-te e tu respondes
outras vezes tu chamas e eu vou
e eu vou sempre 
e volto sempre para te erguer em história

o desejo e a pele em groove de açúcar com mar
salgado na polpa dos dedos
a abrir passeios azul noite 
polvilhados de brincar 
a voo de borboletas e blue notes
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o amor gosta de brincar

o amor gosta de brincar.
uma das habilidades do amor é secar-nos de palavras do mundo e levar os nossos olhos a transformar o reduto que persiste, em partículas mais pequenas e raquíticas. 
isto até acontece com as palavras redondas, as que têm movimentos de declinação do corpo e bocados de coração agarrados.

por exemplo, queria dizer-te que te amo, mas estes riscos não chegam para te dizer o quanto gosto de ti.

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esplendor I

era quase páscoa e escreveu-lhe sobre purificação. 
havia o copo de vinho, o vestido púrpura adamascado aberto nas costas e uma flor sobre a mesa de madeira.
não escreveu a ressurreição porque os corações alinhados e a acompanhar os dias, não percebem nada de morte. a ressurreição precisa de uma morte antes. ainda era cedo.

era quase finados. não rezámos pelos mártires e nem sequer pedimos pão-por-deus.
havia os copos sobre a mesa, a taça de cristal com os olhos - grandes! - embebidos de sorrisos e as mãos tímidas, em poesia.

é quase páscoa e escreve-lhe sobre ressurreição.
há o desenho a carvão e o teu espanto nos olhos e na pele húmida
a bancada de pedra e a minha impressão tão precisa, que se torna preciosa, de ter visto um papel antigo (talvez um resto de papel pardo e um cordel)
a lua da cidade vestida a sol da quinta 
os corações com sabor a dezembro e cheiro a maresia
há o vestido preto aberto nas costas e as mãos a desenharem jardins imensos.
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serigrafia íntima

quando as palavras morrem na garganta
a luz morde as cores e funde as formas
e a música se faz do bater apressado dos nossos corações

vêm os lábios em abraços húmidos
a escorrer rios de histórias que fazem o livro de ti 

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sent'aqui

o amor tem aquela particularidade estranha de ser grande e insinuar-se em miudezas, como um jogo de provocação.
pode ser um gesto, uma palavra ou frase curta, a memória da temperatura da respiração sobre a pele, um fio de luz nos cabelos, o ondulado da boca naquele dia, um lastro de almíscar, uma réstia do azul da camisola, um sabor a movimento de estuário, as mãos em poesia. 
como um sopro.
o amor tem a particularidade de misturar o tempo e o lugar, e transferir gestos, palavras, olhares e tons, de um sítio para outro, a erguerem-se em almanaques brilhantes. 
como uma aparição.

senta aqui.
na intersecção do sol com o negrume da noite.

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Comentários (1)

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davinci
davinci
2021-01-30

muito bom o seu poetar...