Lista de Poemas
canteiro de flores felizes
canteiro de flores felizes
com o primeiro sol escaldante de bom a entrar-me no corpo
sigo a linha conhecida de rio que me sabe sempre a nova
e sinto um canteiro de girassóis a despontar no meu peito.
os girassóis vestem-se de saudade e num passe de mágica
levam a árvore de natal tardia a pulverizar de alegria os campos nus
num abraço que procura raízes e quer as árvores de todos os dias.
até que a cidade se pinta de noite
e o girassol grande entrega-me uma memória de menina:
quando era criança
a minha mãe dizia muitas vezes
que se devia falar com as flores
"para elas crescerem melhor e ficarem mais bonitas", acreditava.
achas que se falarmos com as árvores
acontece o mesmo?
Uma carta para a Sophia
Até há três dias não tinha reparado que ela era de agora, do início de Novembro. Foi uma coincidência bonita e feliz, pelo menos para mim, no sábado ter pedido 'para ficar' com a Sophia aqui.
Não sei se isto que vou dizer acontece com toda a gente ou com muita gente... Comigo acontece muito.
Fixar mais alguém, conhecido ou não, ou uma coisa ou um lugar, ou até decidir uma viagem, por causa de um ou dois pormenores. Nem sei se deva chamar pormenores porque, afinal, acabam por ser as peças que me empurram para a frente e que fazem com que agarre o interesse e não desista de ir procurar mais. Muitas vezes sem dar por isso, mas está lá.
Também me aconteceu com a Sophia.
Até aí há uns quinze anos conhecia a obra dela muito superficialmente, um conhecimento quase restrito ao que tinha aprendido na escola primária. E o meu interesse pela Sophia voltou há década e meia por um apontamento que li em "Sul", um livro de viagens do filho Miguel. A certa altura o Miguel conta que viajaram uma única vez juntos, a Roma, e que a mãe ao notar-lhe alguma pressa e impaciência quando estavam sentados na Piazza Navona, a contemplar, disse-lhe: "Miguel, viajar é olhar."
Como também eu gosto de conhecer novos lugares e sei o que significa a vertigem das viagens toldar-nos essa aprendizagem maior que vem da contemplação, senti que aquela frase era um murro bom no meu estômago. Preciso de ler mais desta mulher, disse naquela altura. E assim foi, embora de forma avulsa, lia o que ia aparecendo e sem pensar muito em cumprir.
Há cerca de dois anos e meio reservei pela primeira vez um quarto numa unidade de turismo social do Estoril. Este espaço tem alguns quartos temáticos, também inspirados em poetas, o que eu desconhecia na altura e também só tive a preocupação de dizer a categoria que pretendia.
Aquando do check-in, e sem que ninguém me tivesse visto antes ou falado comigo de voz, a senhora disse-me que tinha guardado para mim o quarto com decoração inspirada na poesia da Sophia e no mar, que havia qualquer coisa que a tinha feito pressentir que me assentava bem. Sim, era verdade, ao mesmo tempo que achava aquela coincidência divertida e deliciosa. Recordo-me ainda da sensação de, ao abrir a porta, dar com a frase "Metade da minha alma é feita de maresia..." De vez em quando sinto que esta memória se embrulha com a vontade de ler e reler mais da Sophia.
Provavelmente, se não tivessem sido estes dois pequenos acidentes - o Sul, do Miguel; o meu quarto de férias cheio da Sophia - eu não estaria aqui, verdadeiramente deslumbrada, posso dizê-lo, com tanta 'coisa' boa que tenho encontrado sobre a vida e a obra desta mulher.
Nalguns autores é mais significativa e mais recorrente a associação entre memórias das suas vidas reais e palavras ou expressões que aparecem nos escritos.
Mar, praia e jardim, são 'elementos físicos' muito presentes na poesia de Sophia e é delicioso entender como tal se entrosava com os sítios em que viveu, com as memórias de infância, com as suas pessoas.
E agora estou aqui a pensar que não sei se os poemas são sempre histórias... Histórias reais ou baseadas no real, é o que quero dizer. Na Sophia aconteceu muito, como a própria confessou. Por exemplo, no poema As Rosas, que diz: "Quando à noite desfolho e trinco as rosas", sobre o qual Sophia esclarece: "Isto é absolutamente verdade: eu ia para o jardim da minha avó colher rosas, a minha avó já tinha morrido e era um jardim semi-abandonado, colhia camélias no Inverno e rosas na Primavera. Trazia imensas rosas para casa, havia sempre uma grande jarra cheia delas em frente da janela, no meu quarto. E depois eu desfolhava e comia as rosas, mastigava-as. No fundo era a tentativa de captar qualquer coisa a que só posso chamar a alegria do universo, qualquer coisa que floresce."
Se eu só pudesse eleger duas palavras para dizer o significado da poesia da Sophia, hoje seriam: doçura e determinação.
Isabel Pires
6 Nov. 2017
Quarto 22 da unidade de turismo de "O Século" (Estoril, Lisboa, Portugal), com decoração inspirada no poema "Mar" da Sophia | Decoradora: Sofia Novais | Estadia em Julho 2015
há sempre o querer-te
às vezes é sobre uma pedra ou flor igual a tantas outras, mas em que vejo sem ver, detalhes espectaculares
outras vezes é sobre os desenhos que descubro nas nuvens e imagino um cenário de brincar a habitar os céus
ou ainda sobre os lugares quentes por dentro que revisito nas dobras do mar
ou então, não é nada de preciso; são apenas atropelos titubeantes entre os recortes do mundo e uma insinuação de perfume ou do sabor a ti a escorrer na garganta
qualquer rasto ou tremura atiça a vontade de fazer histórias para te contar
e há sempre o querer dizer-te
ainda que não saiba das palavras e precise do pulsar das tuas veias para erguê-las
dias de sal

os poemas também ardem na boca
das histórias com borboletas
e descubro que não sei com que palavras se diz o desejo em misturas de inquietação e aconchego
como um murmúrio de mar de águas lisas debruadas a ondas umas à procura das outras
corpos que se escrevem em desassossego de ternura
marta bevacqua
o amor dá outra vida às palavras
há palavras ou conjuntos delas que têm uma nova respiração
a nossa minha e tua
ao ponto de se tornarem referências ou códigos, colagens até
a funcionarem assim: ouço ou digo aquela conjugação que se fez senha por acaso, sem esforço, e como um passo de magia, vou até ti, apareces-me.
é o que acontece com casa
uma palavra que engordou de significado, engrandeceu
libertou-se da arquitectura do mundo para se transformar em eixo-símbolo do quente
o nosso meu e teu
tal como o sol já tinha conquistado esse poder de transmutação
em chuva-luz a descer-te pelos ombros
nisto do amor
talvez não me aconteça nada de especial ou extraordinário, se comparado com as outras pessoas.
talvez sejamos muito parecidos naquela parte de nos apaixonarmos por pequenas coisas, muitas pequenas coisas sem importância que incitam ao amor; pequenos nadas que fazem o amor e ao mesmo tempo desfazem a possibilidade de responder ao porquê de o amor recair em ti.
às vezes penso que devia usar conjugações menos mundanas para dizer como num qualquer momento em que me julgo distraída, sinto estas miudezas a imporem-se e a ocuparem a vida. às vezes é o teu tronco em céu que vejo no ufanar das velas do barco que passa na minha frente. outras vezes é o brilho do vento embrulhado a sol que faz reaparecer o sorriso dos teus olhos. às vezes acontece muito rápido, um intrincado de sensações que fazem o meu mundo ter a medida de ti.
isto do amor
talvez seja sempre especial e extraordinário. assim do nada, o amor é capaz de fazer com que uma partícula minúscula, um corpúsculo, um acidente dos dias, me leve a ti.

mais um pouco de eternidade
a memória da respiração sobre a pele
uma mistura de quente um lastro de almíscar um sopro ou vento bom
versos livres a poesia
funde-se no fica assim um bocadinho
um convite escrito a formas do corpo
a escorregar suavemente na sobreposição do nós
e mais um pouco de eternidade

coração
viria juntar-se ao mar, aos pássaros, aos sapatos-carne e ao mundo dos poemas desenhados a luz e sombra. disse-te assim.
e veio. o coração foi o último a chegar ao altar das inutilidades pela dificuldade em encontrar um coração verdadeiro, que a norma são os corações estilizados, desenhados a recorte do rebordo exterior. expliquei-te tal e qual.
a tua estranheza no olhar parecia estar ligada à memória de uma história infantil que ias ouvindo sem acreditar - como as fadas de que te falo na epifania - ao mesmo tempo que desembaraçavas uma linha de possibilidades de verdade a coserem-se aos corações à séria.
uma estranheza decalcada ao olhar que acompanha o movimento de baixo para cima vagamente alinhado com o fio de luz.
Comentários (1)
muito bom o seu poetar...
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