Escritas

Lista de Poemas

altar

conto os dias para o dia
em que vais adivinhar que
os sapatos das fitas
sabem a música e sabem de dança, são sapatos carne com muitos saberes e muito sabor a sons e silêncio
o coral
é água, um rio e muitos mares
os pássaros
estão entre o antigo e o moderno, mas voo e cabelos são sempre
o livro
é do reino da luz, com películas a preto e branco, o monocromático que é vida, com corações irrequietos a fazer histórias
quase sem palavras do mundo
que a esperança num novo alfabeto persiste
ou pelo menos nas conjugações com mais tempos
mais que perfeitos
a perpassarem retalhos de veneração dispostos em mesa de luz
 
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confirmação

sempre me parecera 
que o amor tem movimento de mar
 
a certeza veio 
com os teus olhos limpos
a provocarem marés 

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Patente

Inventei um truque para
 tirar a tristeza à saudade e transformar a saudade numa certa alegria.
Inventei um truque para
fazer sorrisos nos lábios da saudade.
Soprei o pó da caixinha dos sonhos
levantei a tampa com cuidado
desenrolei as ondas dos olhos
grandes
peguei nas estrelas das meninas
e vesti-as do bem 
que está acima do amor
e no amor.
Quando os olhos
pequenos, estes,
querem deitar-se no chão
as meninas vestidas do bem
amparam-nos nas conchinas das mãos
até ganharem força 
para esculpir as histórias de (a)braços de mar.

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Receita para o regresso

para voltar a escrever o amor
é preciso cozinhar as letras em banho-maria,
pegar com cuidado
na infância das vogais em busca das consoantes,
misturar bem
até fazer palavras 
que se estendem em cama de seda negra polvilhada a estrelas,
a preencher o vazio de perigo de um grito lindo
que sova a insatisfação dos braços até serem asas
em coordenados de coreografias
a tatuar telas
assinadas com beijos.
 
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da criação

invento manhãs de lugares macios
bordados a luz, águas mansas e fios de olhares
como se fossem
flores a beijar a pele
aves famintas a anunciar navios em
misturas de azul e cinza roubado ao negro
que brincam ao arco e lavam as pedras.

desdobram-se sedas
que aconchegam sons
para vestir as manhãs dos sonhos
enquanto o trinado dos pássaros semeia grinaldas de luz.

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Cacau

A linha de olhar fechado
como um código ou sinal ou sol e lua
para fazer das palavras rabugentas e tristes
braços para brincadeiras boas,
as que têm luz e caminho,
caem em cama macia
e riem no rebordo espelhado
das quadrículas doces
- em claro-escuro
o branco e o negro -
alinhadas com cadências de marés.

Simply complex | Peter Gwisa
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Transfiguração

Recolhi as figuras deformadas
tristeza branda mordida a luz
camadas de solidão ordenadas por critérios
do silêncio que sobeja.

Bojudos ou esticados em filamentos
reflectidos em magia de espelhos
são os meus figurativos da ausência
cinzelados a vocábulos de maresia.

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Epigrama

Entre véus de nuvens a passar em rajada
catorze
uma brevidade de alinhamentos e um sorriso
é a medida da salvação
a diferença entre a derrota e o voo.


Sirsendu Gayen
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Decoração de interiores

Um ontem igual a muitos
não fora aparecer-me a caixinha dos sonhos
entre o asfalto e os fios alaranjados
que se desprendiam das nuvens do fim da tarde.
A caixinha desceu tão de repente
que até arrancou flocos de algodão entremeados de céu
que a chuva zangada tingira de azul.

Abri a caixinha
juntei mais um sonho ao compartimento dos dias
que se fazem do esperar por ti
acertei o relógio das horas surdas de mundo
e mudei a água à jarra das flores.

Nos corações não foi preciso mexer
que o mar faz-lhes sempre bem
até quando galga as janelas de ver
nos dias que terminam e olho para trás.


Foto: Vadim Stein
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Miose

Avisto a extensão de negro em que depositas o teu coração em forma de palavras
e perco as minhas pupilas para o mar:
troco as barcas por barcos
visto os pássaros de asas gigantes
agito as águas
empresto sopros ao vento...

às vezes o ondeado das dobras da seda,
negro em filamentos entremeados de luz,
não deixa ver a inclinação do eixo que diz das tuas estrelas.



Foto: Nick Brandt
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Comentários (1)

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davinci
davinci
2021-01-30

muito bom o seu poetar...