Lista de Poemas

vamos para ali

deve existir um alfabeto ou código para dizer
da camada indefinível que me leva a ti
do espanto
do conjunto em busca da harmonia que não quer chegar a ser
para se manter vontade
uma qualquer mistura dos silêncios em luz      entrecortados a bocas
e o corpo em desejo desenhado a mar e céu

vamos para ali
dito assim      meio lei meio convite

podia bem ser o era uma vez 
das histórias com corações apressados 
o murmúrio do grito de guerra      em amor
que desperta e incita

vamos
dito assim      sem som      a fazer caminhos


marcel pommer
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tesouro

nunca te falei da caixinha dos sonhos. 
assim desta forma: tenho uma caixinha dos sonhos. talvez isso não se diga dessa maneira, que quando as coisas se dizem assim, em corrido, de voz, e com as letras todas tal e qual, ficam circunscritas às linhas do factual. dita dessa forma, a caixinha aterraria na dimensão humana e perderia qualquer coisa da sua essência, que é aquele intrincado feito de acontecer, verdade do mundo, magia e histórias com borboletas. tudo misturado, com sabor indefinido, mas a saber bem e a saber-se que é de um bonito inexplicável. até porque a caixinha dos sonhos não guarda só desejos, ou não guarda apenas sonhos-desejos por acontecer ou conquistas por fazer; a caixinha também guarda aqueles pedacinhos do amor que luzem sempre - sempre! mesmo quando sinto frio - e penduram bailarinas nas meninas dos olhos.
foto: kiss andrea







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solstício

sabia que tinha de haver um caminho para voltar ao dentro de ti
com a boca a esculpir a barco
partindo de mim  
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respiração

morder a vida
tem sabor a linhas de sorrisos que se abrem na pele
e sobem aos lábios em descobertas de silêncios


foto: mário cabrita gil



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transmutação

o tempo
de longo, parece desaparecer ou nem sequer ter existido. 
um movimento completo da terra em torno do sol cerzido a idênticos pedaços de vida. 
uma transmutação restrita ao calendário do mundo. 

como se os mesmos cenários e os objectos conhecidos
a temperatura e o aroma da pele
os amantes
estivessem sempre ali a erguer a história.   
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um estremecimento

o  amor sabe sempre a novo barrado de familiaridade
um estremecimento
como o verão que há dentro do outono ou aquela brisa que há dentro do verão
braços de quente e luz a inundar o peito
como se fora o brotar de flores num campo seco
os lábios a chegarem-se aos teus
uma inquietação
a pele a vestir-se de água
um sorriso    um grito    murmúrios
em chão de silêncio


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brincos-de-princesa

o amor, sendo um caso sério, tem sempre qualquer coisa de infantil. 
até são essas pontes para a infância a debruarem filamentos de dias mágicos, que vestem o amor de brincar-a-sério-a- brincar. um faz-de-conta que conta.
muito parecido com os brincos-de-princesa que pendurava nas orelhas e balouçavam a cada movimento da cabeça, e agora replico com as flores que roubas aos jardins.
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o amor é feito de camadas que se entrelaçam em balanço de blues

o amor é feito de camadas que se entrelaçam em balanço de blues

os desejos e o lado de fora, num jogo provocatório
de progressões melódicas de chamadas e respostas

às vezes provoco-te e tu respondes
outras vezes tu chamas e eu vou
e eu vou sempre 
e volto sempre para te erguer em história

o desejo e a pele em groove de açúcar com mar
salgado na polpa dos dedos
a abrir passeios azul noite 
polvilhados de brincar 
a voo de borboletas e blue notes
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o amor gosta de brincar

o amor gosta de brincar.
uma das habilidades do amor é secar-nos de palavras do mundo e levar os nossos olhos a transformar o reduto que persiste, em partículas mais pequenas e raquíticas. 
isto até acontece com as palavras redondas, as que têm movimentos de declinação do corpo e bocados de coração agarrados.

por exemplo, queria dizer-te que te amo, mas estes riscos não chegam para te dizer o quanto gosto de ti.

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esplendor I

era quase páscoa e escreveu-lhe sobre purificação. 
havia o copo de vinho, o vestido púrpura adamascado aberto nas costas e uma flor sobre a mesa de madeira.
não escreveu a ressurreição porque os corações alinhados e a acompanhar os dias, não percebem nada de morte. a ressurreição precisa de uma morte antes. ainda era cedo.

era quase finados. não rezámos pelos mártires e nem sequer pedimos pão-por-deus.
havia os copos sobre a mesa, a taça de cristal com os olhos - grandes! - embebidos de sorrisos e as mãos tímidas, em poesia.

é quase páscoa e escreve-lhe sobre ressurreição.
há o desenho a carvão e o teu espanto nos olhos e na pele húmida
a bancada de pedra e a minha impressão tão precisa, que se torna preciosa, de ter visto um papel antigo (talvez um resto de papel pardo e um cordel)
a lua da cidade vestida a sol da quinta 
os corações com sabor a dezembro e cheiro a maresia
há o vestido preto aberto nas costas e as mãos a desenharem jardins imensos.
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Comentários (1)

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davinci
2021-01-30

muito bom o seu poetar...