Lista de Poemas
Às vezes basta
às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarelo, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado da seda negra
a lembrança sempre presente de ti
para a vida prosseguir

Mark Power | Paris. Palais Garnier. Stage curtain. February 2004.
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se o amor fosse um jogo
se o amor fosse um jogo
tinha sabor a casa de partida
e isto é mais verdade quando te lavro estrelas no peito aberto

tinha sabor a casa de partida
e isto é mais verdade quando te lavro estrelas no peito aberto

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quando chegaste
quando chegaste
deixei de acreditar que a água era o melhor vestido para o meu corpo

Victor Ivanovski
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quando não souber mais o que fazer contigo
o amor é teimoso com as palavras.
sabe que não cabe em palavras e ao mesmo tempo não desiste de as procurar para se dizer. para se anunciar, para lembrar, para surpreender... para estar.
a busca das palavras do amor sabe a insatisfação. é uma mistura de doce e amargo, um morno de fim de outono, o sabor a nunca chegar.
é mais ou menos assim: quando penso em fixar nos cadernos os escritos da pele, minha e tua, como a querer eternizar a memória do calor, procuro conjuntos de palavras que possam contar o sentir. às vezes acontece-me encontrá-las. às vezes parece-me ter encontrado a conjugação que diga o sentir, é melhor dizer assim. porque, mal pouso a caneta, percebo que mesmo as palavras escolhidas com o coração não chegam para dizer o amor.
quando não souber mais
o que fazer contigo
acabo o poema dos dias de sal
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visto a tua pele
visto a tua pele para entrar na tristeza que veio de rompante
e contar o silêncio que quiseste dizer
não querer
e era fácil esquecer-me de ti
pelo aparecer e desaparecer
parecerem a mesma viagem
a carregar um deus distraído
e era difícil esquecer-me de ti
pelo voo do nós
imenso
a pendurar no céu rodelas de sol com risquinhos mal desenhados
como nas ruas da infância
estás, ficas, levas-me
comoves-me
pela superação da linha da normalidade com que
teces os fios difíceis da vida
em silêncio
como se não bastasse
plantares flores
foto: imogen cunningham, 1932
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caminho
percorro os olhos pela taça embaciada
gorda e densa
e ajeito um lugar
para te levar
aos cabelos como pássaros
cabelos como pássaros!
e flores em cachos
cabelos com asas de sol
guardado nas noites
dos passeios pela pele
a desenharem estradas de estremecimentos e sorrisos
que nos levam mais longe
no muito perto
da tua respiração na minha pele
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epifania ii
eram dias frios
os do lado de fora
e alguns do avesso de mim
quando te convidei a desenhar o sol
mesmo que fosse aquele modelo infantil
do círculo mal acabado com os risquinhos à volta
falei em trazeres
um lápis
a caixa de aguarelas
o cesto das laranjas
talvez aquela toalha ainda a cheirar a verão
até o pacote com os saquinhos de infusão
maçã com canela
mas fizeste confusão
ou os solavancos da timidez a morder os embrulhos
levaram a melhor
e ficaram derramados ou retidos
não sei bem
em que ponto ficou aquela encomenda
que trouxeste o que era preciso
para desenhar um céu imenso
em que até coube o sol
do círculo mal acabado com risquinhos à volta

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Luz
Quando se muda muito de lugar e a deslocação é um traço definidor, observa-se ao pormenor o que nos traz cada nova janela.
As janelas da casa e as outras. As das ruas e as dos bairros. As dos edifícios que pisamos. As naturais, feitas de rochas, árvores ou flores, até feitas de água.
As imagens, os sons, os cheiros, a temperatura...
E a luz!
Sobretudo a luz.
Porque é na luz que mora a segurança do homem.
As janelas da casa e as outras. As das ruas e as dos bairros. As dos edifícios que pisamos. As naturais, feitas de rochas, árvores ou flores, até feitas de água.
As imagens, os sons, os cheiros, a temperatura...
E a luz!
Sobretudo a luz.
Porque é na luz que mora a segurança do homem.
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Era domingo
a melancolia também é o deslizar manso das ondas no final da tarde, a comer bocados de areia e a debitar conchas,
o mar liso e plácido a roer a solidão
e o olhar que salta entre a brevidade e a linha do horizonte
da tela negra salpicada a cinza-prata
e a outra cor mais cor
que faz soltar um sorriso
mesmo na tarde imprecisa
era domingo
e pareceu-me o ruído belo e sincopado
dos pássaros.

Herbert List, 1934
o mar liso e plácido a roer a solidão
e o olhar que salta entre a brevidade e a linha do horizonte
da tela negra salpicada a cinza-prata
e a outra cor mais cor
que faz soltar um sorriso
mesmo na tarde imprecisa
era domingo
e pareceu-me o ruído belo e sincopado
dos pássaros.

Herbert List, 1934
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Das viagens de dentro
Não sei se me parecem muitos ou poucos dias, aqueles que passaram desde que te disse que vou andando por aí ou por aqui,
e até te disse que podia ser de qualquer forma,
que afinal há só uma quando nos encontramos sempre,
mesmo que em qualquer ponto do invisível aos olhos.
Continua a parecer-me que a minha alma está sentada próximo do coração.
Pela agitação da bordadura de seda que a envolve,
agora até me tem parecido que ela está menos tempo sentada.
Corre mais vezes para o mar, é isso, à procura da tua alma, quando não a vejo.
(Lembras-te de ter perguntado por onde anda a tua alma, seguido do aviso para que não a deixasses cair?)
Às vezes, quando a solidão anda muito zangada
a ponto de enfiar a cara em todos os buracos e açambarcar os vazios de todos os silêncios,
mesmo dos bons,
ponho a alma no tal colchão feito de pétalas brancas
- se ainda existe? claro que sim! -
e deixo-a boiar até se dar a colisão
- e como o atropelamento (i)mortal faria aqui tanto sentido, já viste? e lembras-te? nem de propósito... - ,
numa qualquer vaga que tece o lindo lençol de seda
- a mesma textura da bordadura que envolve a alma, sentiste?-,
que chamei muito, e ainda chamo, de lindo lençol de seda negra por ser assim que o vi primeiro,
mas que descobri também saber erguer-se em branco-luz feito em desafio de velas.
Trocamos de caneta para pintar as folhas do navio que
leva e faz
histórias com tudo dentro,
que as histórias felizes também têm céu,
e os céus às vezes fazem birras, largam raios e até choram.
Tal e qual como dizem as tuas cúpulas. (Lindas! Sempre, mesmo as tristes.)
Exactamente como te disse naquele dia
em que te prometi sentir-te nas tuas coisas,
só porque são tuas,
e agora voltei a bordar nas velas.
e até te disse que podia ser de qualquer forma,
que afinal há só uma quando nos encontramos sempre,
mesmo que em qualquer ponto do invisível aos olhos.
Continua a parecer-me que a minha alma está sentada próximo do coração.
Pela agitação da bordadura de seda que a envolve,
agora até me tem parecido que ela está menos tempo sentada.
Corre mais vezes para o mar, é isso, à procura da tua alma, quando não a vejo.
(Lembras-te de ter perguntado por onde anda a tua alma, seguido do aviso para que não a deixasses cair?)
Às vezes, quando a solidão anda muito zangada
a ponto de enfiar a cara em todos os buracos e açambarcar os vazios de todos os silêncios,
mesmo dos bons,
ponho a alma no tal colchão feito de pétalas brancas
- se ainda existe? claro que sim! -
e deixo-a boiar até se dar a colisão
- e como o atropelamento (i)mortal faria aqui tanto sentido, já viste? e lembras-te? nem de propósito... - ,
numa qualquer vaga que tece o lindo lençol de seda
- a mesma textura da bordadura que envolve a alma, sentiste?-,
que chamei muito, e ainda chamo, de lindo lençol de seda negra por ser assim que o vi primeiro,
mas que descobri também saber erguer-se em branco-luz feito em desafio de velas.
Trocamos de caneta para pintar as folhas do navio que
leva e faz
histórias com tudo dentro,
que as histórias felizes também têm céu,
e os céus às vezes fazem birras, largam raios e até choram.
Tal e qual como dizem as tuas cúpulas. (Lindas! Sempre, mesmo as tristes.)
Exactamente como te disse naquele dia
em que te prometi sentir-te nas tuas coisas,
só porque são tuas,
e agora voltei a bordar nas velas.
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