Escritas

Sus|Penso (ou das histórias com borboletas)

Isabel Pires

Desenhaste-me sorrisos com as palavras que tão bem sabes pintar. Os meus sorrisos, que não são nada fáceis de arrancar, ganharam comprimento para bater à tua janela. Queria que me ajudasses a fixá-los nos contornos da minha boca. Foi o que te pedi enquanto calçava as meias de que mais gostas. Uma carta que sofre de quebras de tensão e que queria equilibrada com a tua sensibilidade e lucidez.
Não sei o que fizeste aos lápis de cor.
Não sei o que fizeste às aguarelas novas.
Não sei o que fizeste à tela que te comprei.
Temi não poder saber se continuavas a respirar. Temi não poder confirmá-lo.
Não se morre só da carne, dos ossos e do coração que decide parar. Também se morre pelas borboletas que deixaram de voar.
Com os dedos, tatuámos um acordo. Nos dias em que quisermos escorrer doçura, abriremos a porta do borboletário. Para que a maior, a belbellita de asas de veludo negro e pintas vermelhas, possa treinar o voo nas entrelinhas do nosso passeio.







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Comentários (2)

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2017-11-19

Obrigada, Sérgio.

SergioRicardo
2017-09-27

100% sentimento, não quer dizer 100% sentimental. As sinédoques mal compreendidas pelos seres modernos que vivem como palavras, linguagens e não vida mesmo: um poema é um texto, mas um texto não é necessariamente poema. Ai de nós neste mundo em que o pensamento metonímico é bombardeado todos os instantes do dia com o objetivo faraônico de nós tornar metade de entes. Esta é a diferença entre sentimento e sentimentalismo: um para o outro como flor de verdade para flor de plástico.