Lista de Poemas

Sesmarias esquecidas

Entre a areia e o mar
dunas esparramam-se, 
suavemente entregam-se,
em praias infindáveis 
sob ondas a arrebentar.

Na intensidade da arrebentação
ouriço, marisco e mexilhão
observam a briga com tristeza,
pois, entre o mar e o rochedo
não há espaço para folguedo. 

A vida no alagado distante 
emerge do vibrante mangue. 
Entre o mar e o rio ressurgente
reina o caranguejo imponente
no seu reino de lama latente.

Reinos de areia, rocha e lama,
aprazíveis sesmarias esquecidas,
onde a natureza habita e clama,
vivendo a paz tão reverenciada,
distante da corrompida ganância.
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Tradição que tutela

Parece dança, mas é luta!
Com voadora e rasteira
avança a capoeira,
pura arte e cultura.

Rabo de arraia 
salva a arraia-miúda
de razia ou submissão,
apesar da criminalização.

De capangas dos senhores
chega-se aos mestres, 
ao som do berimbau. 

Hoje, na favela,
é tradição que tutela
o jovem fora da tragédia. 

(heliovalim.blogspot.com)
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Beija-flor (Amante infiel)

Bate tuas asas
no compasso dessa cor.
Na velocidade que abraças
esqueces até a dor.

Beije essa flor,
lacônico amante,
envolve-a com teu amor
Impulsivo e vibrante.

Sem tempo para fidelidade,
sem espaço para ficar,
na busca da tua saciedade.

Eterno amante infiel
voe para o próximo néctar,
na trilha de cobiçado mel.
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Madrugada insone


Desperto em plena madrugada,
olho pela janela, contemplo a rua
que se desnuda sob um negro véu,
enquanto o silêncio a envolve.

Exponho-me à brisa presente,
de extenuada noite de verão,
tal qual expiração corrente
do imenso e quente borrão.

Agora, que a imposição da hora
impacta meu insone pesar,
deixo meu pensamento vagar
e rendo-me ao momento sem lutar.

Relaxo, contemplo o emergir
de um alvorecer fulgente.
Reflito, sobre o desejo de fugir
e fixo-me ao real que me prende.

A rotina acorda e me desconecta
desta madrugada cabotina
e, assim, o jovem dia a sabatina
sobre a realidade que me intima.
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Sentimentos em flamas


Desânimo sorrateiro,
muitas vezes, bate à porta.
Escamoteado pela retórica
nos atinge certeiro.

Sintomas de abatimento
tornam-se brasas rubras
onde ardem sentimentos
em flamas de desalento.

Fogueira da ansiedade
queima a nossa sanidade
no braseiro da realidade.

No rescaldo das cinzas
apura-se a certeza de viver
e a opção de se reerguer.
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Adoção


Encontro de almas em conciliação,
ajuste divino de pura sensação.
Coração aberto para a ocupação,
sem consentimento ou autorização.

Chega devagar, como suave brisa,
marcando presença, inundando a vida,
conquistando espaços de afagos
nos corações mais calejados.

Vivendo grande esperança, abraça
a dádiva da vida com temperança,
na certeza do generoso envolvimento,
percebido nos gentis movimentos.

Vidas entrelaçadas, em doação
de sentimentos de grande paixão.
Transcendendo dúvida e hesitação
na trama tecida em profunda emoção.
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Emoções no rolimã

Carrinhos de rolimã!
Singelamente construídos
com tábuas, restos de obra,
rolamentos automotivos
e sonho executado com afã.

Carrinhos de rolimã!
Surfam nas ondas do asfalto
em manobras no concreto,
velozes no tubo mais alto,
na garantia do freio de chinelo.

Carrinhos de rolimã!
Em imprevisíveis manobras radicais
vivenciam urbanas experiências,
rolando velozes, descendo ladeiras,
na cidade, pegando ondas maneiras.  

Carrinhos de rolimã!
Livres, correndo pelo prazer,
deslizam com imensa emoção,
sem disputa ou competição,
apenas o simples sobreviver.

Carrinhos de rolimã!
Na brincadeira da infância
a incansável felicidade,
talvez Juvenil inconsequência,
que se perde com a maturidade.
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Jornada


Densa mata intensa,
incontáveis seres
habitam-na, sensíveis
aos desígnios divinos.

Convictos e invictos
certos de seus destinos,
entre raios e trovões,
seguem com suas opções.

Mata que concebe,
percebe e persevera,
impõe marcha severa
aos súditos que gera.

Corrompe, mas, cura
na jornada que endura
os passos do caminhar,
por trilhas, ainda, a trilhar.

Trilhando entre rios,
atravessam a mata
sem rumo, apenas brios,
seguem a caminhada.

Avançando obstinados,
superam a travessia
e aguardam extenuados,
o término de vital primazia.
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O sabor do ponto final


Provo, porque as palavras fluem.
Como doce néctar escorrem,
em suculentas gotas de advérbios,
mas engasgo-me com impropérios
que amargam o meu degustar.

Provo, porque as palavras fluem.
Coquetéis de frases inteiras
consumo até a derradeira,
embriago-me de tal maneira
que me perco entre saideiras.

Provo, porque as palavras fluem.
Sorvo, até os textos que contesto,
pois, palavras são drinques,
suaves ou não, que aprecio,
os quais não canso de deleitar.

Provo, porque as palavras fluem.
Líquidas, pela garganta vertem,
algumas resistem outras divertem.
No fim, todos provam, afinal,
nada como o sabor do ponto final.
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Irracional

Perco-me em minha loucura,
totalmente envolvido
com emoções e desatinos,
Sem controle,
não sei se opino
no rumo que quero tomar.
Deixo-me levar sem destino,
pois, só a loucura é meu caminho
onde me perco e me acho,
se você quer me guiar, com seu jeito
moralista de ser... Não me guie...
Se você crê que pode me ajudar,
pensando em me cuidar... Não me ajude...
Mas, se você deseja me curar... Me esqueça...
Se é para você me conhecer... Me entenda...
Se você julga que não mereço sua fé... Não ore...
Só lhe peço, quando de mim se esquecer... Não me ignore...

Tributo à Clarice Lispector, inspirado no poema Passional
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