Lista de Poemas

Destemida esperança

Quem crê como possível,
realiza aquilo que deseja,
confia como coisa crível
sua fé... Qualquer que seja.

Virtudes como a esperança,
a sinceridade e a caridade,
são, para a vida, âncoras,
lastreando a verdade.

Quem crê com folego excepcional,
alcança resultados irrestritos
nos momentos da vida pessoal,
ancorados em sentimentos positivos.

Viver em esperança
requer doses de perseverança,
não acreditando no impossível
mesmo quando encarando o inevitável.

Portanto, quem crê com temperança
na reciprocidade da vida,
sua realidade aviva
com destemida esperança.
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O quadro (Miniconto)

Um quadro, o retrato de uma era, de um instante perdido, esquecido na memória de dedicado pintor, onde cada pincelada guarda delicadas emoções, sensações profundas, eternizadas sobre tela de refinado linho e, agora, envelhecido pelo tempo.

Preservada, em cores e tintas de outros tempos, a cena bucólica de um momento da rotina de bela e pacata comunidade. Um campo em plena primavera, colorido com as flores da estação, o sol se pondo entre as colinas no horizonte, envolto em nuvens cálidas. No plano principal um córrego correndo preguiçoso em seu leito rochoso.

Compondo com a paisagem, jovem casal trocando longas carícias, beijos e afagos, acentuados pelo carmim das tintas e pela intensidade dos traços. Desmedida paixão imortalizada em arte.

O tempo passou, o casal viveu o seu eterno amor, construiu sua vida em torno daquele lugar, viveu dias de alegrias e tristezas. A terra foi adquirida pela especulação e pela ganância exaurida e abandonada. Como parte de uma dívida foi incorporada à “massa falida”, por um banco.

A propriedade, além das terras, incluía um pequeno chalé, construído próximo ao córrego, agora abandonado, parte do cenário da bela paixão que perdurou por toda a vida daquele casal. Nele, além de móveis e lembranças, o quadro descansava, sobre a lareira, apesar de empoeirado, preservando a imagem daquele momento.

A propriedade foi a leilão, sendo arrematada em um lance vão. Então a incerteza pairou sobre o final dessa história de amor tão perene. O que aconteceria com o riacho, com a terra, com o chalé... O quadro... A história...

Um mês se passou... Um veículo atravessa a porteira. Descem duas pessoas... Os novos proprietários.
Uma nova história começa...

Os proprietários, um jovem casal de agrônomos, apaixonados, amantes da natureza, recuperam a propriedade: o solo usando insumos orgânicos, o córrego protegendo suas nascentes com vegetação nativa. Implantam métodos artesanais de irrigação e plantio, produzem e colhem sua primeira safra orgânica, que vendem à comunidade local.
Restauram o chalé e os móveis, onde passam a viver, inspirados pelo quadro dos eternos apaixonados.

Hoje, ao entardecer de qualquer primavera, os jovens proprietários podem ser vistos, trocando beijos apaixonados, observando o pôr do sol, entre as colinas distantes, embalados pela suave melodia, daquele córrego preguiçoso.
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Sem vacilar

Liberte-se, libere a liberdade...
Revele, com vontade,
aquilo que está escondido,
cinicamente dissimulado.

Liberte-se de paralela realidade...
Desfaça o discurso da balela,
assuma com sinceridade
a sua fissura e vontade.

Fique na limpeza, ligado...
Não dissimule na hipocrisia,
Assuma o seu relato,
fique na brisa até com a maresia.

Na paz peça presença...
Sem vacilar, ouça a consciência,
faça a opção, sem criminalização,
escolha com a razão e o coração...
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Tango na alcova


Envolvido em tuas brumas,
em teu apoio me satisfaço,
porque sei que me aprumas
e em teu colo encontro afago.

Paixão, pelo tempo, amornecida.
Em refinado amor transformada,
mas em nenhum momento substituída
por simples relação conformada.

Carinhos embalados no dia a dia
não revelam a intensa carícia,
reservada à milonga de maior picardia.

De fato, os sambas mais insinuantes
não entregam a pura malícia,
reservada à milonga mais ardente.

Nada como a malícia da milonga de um tango para avivar os segredos de alcova. Algo que os sambas mais insinuantes não conseguem. Desculpem-me os ufanistas.
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Bravateiro


Aquele que intimida,
assedia e discrimina
merece toda a ira
daqueles que critica...

Cheio de bravatas
distribui suas derrotas,
prejudicando a todos.
Mas isso não importa!

Não assumindo seus erros,
espalha inverdades,
impondo a todos
a sua ansiedade!

Se vê como um popstar...
Todos, são servos de seu altar!
No seu palco só coadjuvantes!
Longe de lá quero estar...

Mas sua estrela é decadente
Todos anseiam pela queda iminente,
com esperança e grande auê,
para, com sorte, reparar tal fuzuê.

O chargista J. Carlos fez uma charge para a Revista “A Careta” de 9 de novembro de 1918, durante a gripe espanhola! Mas podia ser de hoje!
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Frio, calor e chamas


FRIO
Naquele entardecer, o vento frio
impiedosamente soprava
cortando a embranquecida relva
como faca de afiado fio.

CALOR
Juntos, no agasalhado aconchego
do mormaço daquele quarto,
ardendo em acolhedores beijos,
jogávamos íntimos jogos de desejos.

CHAMAS
Envoltos em carícias amorais,
inconsequentes, nos entregávamos
como jovens imorais.

VIGOR
Janelas cerradas para o frio.
Janelas abertas para o amor,
escancaradas com extenuado vigor.
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Ondas, ondas, ondas... (Minicrônica)


Ondas metafóricas, nada retóricas... Saibam todos, que o vírus não escolhe seu infectável pelo relacionamento, envolvendo-se, com puritanas e doidivanas, não perdoa pecador ou casto, celibatário ou devasso, nem pela classe social ou pelo poder econômico.

Democraticamente, atinge a todos os desavisados, desatinados que, apenas, assumiram que o mal não é, de fato, um fato. Em insanas aglomerações, confraternizações, saúdam com infundada alegria a falsa segurança reforçada por ingênua ignorância.

Ignorando que o vírus possui tal picardia que contagia os jovens, mas maltrata a vida daqueles cuja jornada já extrapola os limites do tempo, colhendo almas antes do seu derradeiro momento.

Um pensamento do dramaturgo Bertolt Brecht deixa claro o momento em que vivemos “Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”.

Como premonição ou apenas uma análise mais realística da alma humana em todos os tempos, esse pensamento descreve, fidedignamente, a falta de cumplicidade presente nestes tempos.

Vivemos uma era de “egoísmo social” onde a preocupação com o outro é substituída pela extrema valorização do “Eu”, das liberdades individuais, mesmo que para isso o outro tenha que ser subjugado, humilhado e anulado.  

Regras de convívio são ignoradas devido à invisibilidade do outro, a um desprezível egocentrismo e à crença insana na imortalidade. Ou seja, vivemos uma sociedade adoecida que não percebe, ou não se importa, com a própria enfermidade.
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Paradoxo de Hermes (Miniconto)


Hermes (nome do Deus da mitologia grega que, entre outros atributos, era o “mensageiro”), jovem e inteligente, sem família ou amigos, não conseguia conter seus instintos, que permitiam o surgimento de seu lado obscuro, aflorando nas ruas da vida, no seu dia a dia em agonia.

Desorientado, desconectado do mundo real, armado pronto para tudo, vagava sem destino pelos becos da cidade. Precisando de dinheiro para seus vícios, buscava por uma  presa.

Ao passar por um beco percebeu a silhueta de um homem, bem vestido, aparentando possuir posses. Nesse momento, sem hesitar disparou a arma, atingindo-o. Percebendo que o senhor já não mais respirava, retirou seus pertences e fugiu.

Dias depois, foi capturado, julgado e condenado por latrocínio. Sendo primário e por estar drogado, fora da consciência, teve a pena reduzida, sendo encaminhado ao presídio.

No presídio, Hermes contou com ajuda e apoio adequado. Seu intelecto diferenciado é reconhecido, então ele consegue estudar e se forma em física. Ao término do cumprimento da sua pena, continuando os estudos, torna-se doutor em física quântica, especializando-se em dobras do espaço-tempo.

No futuro, mais velho, desenvolve um aparato que controla a antimatéria e permite observar o tempo passado. Aprimorando tal aparelho e consegue criar uma dobra no espaço-tempo e volta ao passado para avisar e impedir o crime que cometera e que tanto o atormentava.

Ao chegar naquele beco, nos minutos que antecederam ao momento fatídico, nota a chegada de seu “eu do passado”, mas antes que pudesse fazer algo é alvejado por ele.

Na iminência de morrer percebe que está preso no paradoxo, do mensageiro, que jamais conseguirá entregar a mensagem e interromper esse ciclo de eterno sofrer. Hermes intui, nesse momento, ser a fonte da sua salvação e, também, da sua perdição, mas jamais da sua paz.
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Produção, pão e circo


A linha é um lugar de produção...
Na fábrica, é lá onde as coisas acontecem.
Tem o tempo do trabalho,
tem trabalho todo o tempo.
Mas não tem o momento do operário...

Tem o espaço para a oficina
que abriga o senso da disciplina.
Tudo roda no ritmo da rotina.
Mas para não adoecer
tem que ter o espaço do lazer.

Tem  máquina ditando o tempo a se obedecer.
Tem operário gritando por espaço
para libertar a cadência desse padecer.
Tem no ritmo marcado um novo compasso
para não enlouquecer.

O Samurai moderno acata a reivindicação,
cedendo espaço para o descanso,
deixando o operário distenso.
Enquanto canta no ritmo da produção
esquece o tamanho da exploração.

Confirmando a alienação,
ao reforçar o velho chavão:
“Para o povo pão e circo”.
Fazendo o ganancioso mais rico,
com o peão empurrando a produção...
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A intensão do momento


Pode parecer insignificante,
era apenas um momento,
mas tão repleto
de profundos sentimentos,
que aprisionava a lembrança
e ampliava o tempo...

Um olhar,
um sorriso sereno,
um beijo no ar,
roupas no chão,
corpos unidos,
um instante de amor...

Uma explosão
de intensas sensações,
dois corpos, caricias,
duas almas unidas,
reunidas em sentimentos
Profundos, loucos, sublimes...

O momento...
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